Águia-pesqueira. Foto: Roy Smith/WikiCommons

Lixo que águias-pesqueiras usam nos seus ninhos põe em perigo a sua sobrevivência

É um alarmante sinal dos tempos. Mais de 91% dos ninhos de águias-pesqueiras estudados por uma equipa de investigadores em Cabo Verde tinham lixo. Foram encontrados adultos reprodutores enredados em plástico.

Uma equipa internacional de investigadores analisou 36 ninhos de águias-pesqueiras (Pandion haliaetus) na ilha da Boa Vista, Cabo Verde.

Os investigadores estudaram, durante a época reprodutora entre 2019 e 2022, a composição dos ninhos, as taxas de reprodução e os episódios de mortalidade de adultos e de crias por ficarem presos no lixo.

Entre as conclusões principais, dois números: 91,7% dos ninhos tinham resíduos antropogénicos, como redes, 88,9% dos quais eram plásticos. 

Segundo os investigadores, a grande quantidade de resíduos nos ninhos põe em risco a sobrevivência dos indivíduos já que, a longo prazo, é potencialmente prejudicial para a sua reprodução.

“O nosso objectivo era analisar os efeitos do lixo marinho procedente das actividades humanas na fauna, concretamente na águia-pesqueira, uma ave de rapina que se alimenta apenas de peixes e que constrói grandes ninhos que reutiliza de ano para ano”, explicou, em comunicado, Airam Rodríguez, do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid (MNCN-CSIC).

“Queríamos comprovar se esta espécie utiliza estes resíduos para construir os ninhos e que consequências tem isto para a sua sobrevivência e reprodução”, acrescentou.

A ilha da Boa Vista, Cabo Verde, foi escolhida para a investigação porque tem “uma grande acumulação de plástico proveniente das correntes marinhas”. “Estes resíduos podem substituir os materiais naturais usados para construir os ninhos num ambiente em que a vegetação é escassa”, comentou Airam Rodríguez.

O estudo não permitiu obter provas de que o lixo nos ninhos diminui as taxas de reprodução da águia-pesqueira. Ainda assim, Rodríguez alerta que esta poluição “poderá afectar, a longo prazo, a espécie fazendo, por exemplo, que as criam sejam mais visíveis para predadores uma vez que o lixo usado é muito chamativo”. 

Além disso, acrescentou, “registámos dois casos de fêmeas reprodutoras enredadas nestes materiais, o que equivale a 3,9% da população”.

As conclusões deste estudo, publicado na revista Marine Pollution Bulletin, devem ser tomados em conta na implementação de medidas de conservação do habitat da espécie, “dada a crescente escassez de espaços livres de turismo na ilha e o perigo do lixo”, defendem os investigadores. Estes lembram também que o lixo é um problema para as populações humanas e para outras espécies emblemáticas, como a tartaruga-boba (Caretta caretta).

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.