PUB

Há cerca de 30 mil hectares ardidos na Rede Nacional de Áreas Protegidas

04.09.2025
leitura de 4 minutos
Foto: Joana Bourgard/Arquivo

Peneda-Gerês, Serra da Estrela e Douro Internacional são apenas três das principais áreas protegidas afectadas pelos incêndios deste verão. De 1 de janeiro a 31 de agosto arderam cerca de 30 mil hectares dentro da Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP), revelou o Ministério do Ambiente e da Energia à Wilder.

O Parque Natural da Serra da Estrela é a área protegida da RNAP com maior área ardida, totalizando 8.434 hectares. O fogo terá afetado espécies raras e ameaçadas da região, como explicaram anteriormente José Conde e Alexandre Silva, do Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE). Entre elas estão bosques de azereiros, a salamandra-lusitânica, a cobra-lisa-austríaca ou a lagartixa-da-montanha.

A segunda área protegida com maior área ardida é o Parque Natural Douro Internacional, com um total de 6.736 hectares ardidos. Aqui, “o incêndio afetou dois habitats prioritários: as florestas endémicas de Juniperus spp e subestepes de gramíneas e anuais da Thero-Brachypodietea”, segundo uma nota enviada à Wilder pelo ministério. Além disso, “teve impacto relevante nas aves rupícolas que ali nidificam, nomeadamente a águia-real, britango, falcão-peregrino, grifo e gralha-de-bico-vermelho”. Também “foram destruídos dois ninhos da colónia de abutres-pretos, construídos no âmbito do projeto Life Aegypius Return, tendo ficado outros dois afetados parcialmente. As chamas destruíram ainda um contentor de apoio à jaula de libertação de exemplares desta espécie e diverso equipamento de apoio”. Os conservacionistas no terreno receiam pela sobrevivência desta colónia de abutres-pretos, a mais frágil do país.

O Parque Nacional Peneda-Gerês contabiliza um total de 5.909 hectares de área ardida. Nesta área protegida “arderam maioritariamente matos, pastagens, bosques de carvalhais, áreas de galerias ripícolas constituídas por salgueiros e azevinhos, pinhais e áreas agrícolas, mas salvaram-se as áreas de proteção total, como a Mata do Cabril e a Mata de Palheiros, onde se concentram os valores naturais mais importantes deste Parque”, segundo o Ministério do Ambiente e da Energia. “No entanto, o incêndio afetou comunidades e populações de espécies protegidas, como o lobo-ibérico, gato-bravo e marta.”

O ministério destaca ainda as perdas no Parque Natural do Alvão, onde o fogo queimou 1.698 hectares. “O incêndio afetou habitats naturais prioritários como florestas aluviais de Alnus glutinosa e Fraxinus excelsior; charnecas húmidas atlânticas temperadas de Erica ciliaris e Erica tetralix; e formações herbáceas de Nardus ricas em espécies em substratos siliciosos das zonas montanas. Foram também afetados o território da alcateia de Vaqueiro e um abrigo de morcegos classificado como de importância nacional.”

No total, entre 1 de janeiro e 31 de agosto de 2025, arderam cerca de 30 mil hectares dentro da Rede Nacional de Áreas Protegidas, o que corresponde a 3,73% do total. Entre as outras áreas afectadas estão a Paisagem Protegida Regional Serra da Gardunha (4.346 hectares), o Parque Natural Serra de São Mamede (836 hectares), o Parque Natural Regional Vale do Tua (783 hectares), a Paisagem Protegida Regional Parque das Serras do Porto (672 hectares), o Parque Natural Montesinho (496 hectares) e a Paisagem Protegida da Serra do Açor (351 hectares). Nesta área protegida, onde se inclui a Mata da Margaraça, a área ardida representa 94% do seu território. Ainda assim, segundo o ministério do Ambiente, “a Mata da Margaraça, zona de carvalhais plantada no século XIII, foi um verdadeiro oásis no meio do grande incêndio”.

Nos dias 26, 29 e 30 de agosto, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, visitou algumas das áreas protegidas afectadas pelos incêndios para “conhecer a realidade” e as necessidades imediatas e reunir-se com os autarcas para planear a recuperação a médio/longo prazo. Fizeram parte deste roteiro a Mata da Margaraça na Serra do Açor, a Peneda-Gerês, o Alvão, Montesinho e Douro Internacional.

O que está a acontecer no terreno

“Qualquer perda ambiental é sempre uma enorme perda. Não podemos ficar de braços cruzados, temos de aproveitar as circunstâncias como uma oportunidade para fazer mais e melhor”, segundo o MAEN.

Para já estão no terreno ações de emergência, para garantir alimento, bebedouros e abrigos para os animais, e as equipas do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) estão a trabalhar para criar barreiras de retenção para evitar a erosão dos solos e a contaminação das águas.

A curto e médio prazo segue-se a “reabilitação de estruturas e equipamentos afetados, projetos de estabilização, recuperação de linhas de água, restauro ecológico e controlo de espécies invasoras”, com o objetivo de recuperar os ecossistemas. “Por isso, o Ministério do Ambiente e Energia publicou uma Portaria que vai garantir o financiamento às autarquias para que possam intervir em áreas protegidas, na Rede Natura 2000 e em territórios de elevado valor natural afetados por incêndios.”

O ministério adiantou que já esteve reunido com os autarcas dos municípios afetados pelos incêndios no norte e centro do país e que “esta semana o ICNF e a APA estão a promover encontros sectoriais com as autarquias que vão partilhar intervenções, definindo prioridades e colaborando nos planos e projetos que terão de ser executados rapidamente”. Estes trabalhos vão contar com o apoio das Forças Armadas e da sua maquinaria.

Depois segue-se a fase de restauro e reabilitação, “em que teremos de monitorizar a recuperação dos ecossistemas, privilegiando a regeneração natural e introduzindo medidas corretivas que sejam necessárias”, segundo a nota do ministério. Ainda que florestas semelhantes às que se perderam, por exemplo na serra do Açor, demorem cerca de 30 anos a crescer, o trabalho tem de ser planeado agora.

Entretanto, o ministério defende o reforço da vigilância “com mais meios tecnológicos, como câmaras térmicas que detetem imediatamente as ignições permitindo o ataque aos fogos numa fase inicial”.

Paralelamente está a decorrer a transformação do modelo de gestão para as áreas protegidas – para conseguir mais técnicos no terreno durante todo o ano e maior proximidade e simplicidade – e o regresso à gestão com uma direção e um diretor nos parques naturais. “Se cada museu tem um diretor, um parque nacional também deve ter, com uma linha de comando direta para a gestão de tudo o que é necessário naquele parque em concreto. Este é um objetivo em que já estamos a trabalhar há algum tempo e que tencionamos que arranque rapidamente com projetos-piloto.”

“Os incêndios afetaram as pessoas, os rendimentos, mas também para o ambiente. E as nossas áreas protegidas, que representam cerca de 30% de todo o território nacional, são um tesouro que temos a obrigação de proteger e preservar para entregar às próximas gerações.”

 

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca