PUB

Haverá espécies raras e ameaçadas entre as vítimas dos incêndios no Parque Natural da Serra da Estrela

27.08.2025
leitura de 6 minutos

O maior núcleo mundial de uma árvore relíquia, o azereiro, a lagartixa-da-montanha, espécie que só vive nas áreas serranas acima dos 1400 a 1500 metros, e uma borboleta rara estarão entre as vítimas dos incêndios na Serra da Estrela. José Conde e Alexandre Silva, do Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), contam o que o fogo fez a algumas das espécies mais ameaçadas do parque natural.

No Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) ardeu sobretudo a área sul desde a aldeia de Vide, no concelho de Seia, até à aldeia de Cortes do Meio, no concelho da Covilhã. Neste território, com uma área aproximada de 10 mil hectares (dados não oficiais), o fogo percorreu os vales das ribeiras de Alvoco, Loriga, de Unhais, de Alforfa e das Cortes e ainda uma área situada já na vertente norte da serra do Açor, mas ainda dentro dos limites desta Área Protegida. 

Incêndio na Serra da Estrela. Foto: António Rodrigues

Considerando a área abrangida pelo fogo e não tendo ainda sido possível fazer uma visita detalhada ao território diretamente atingido pelo incêndio e aos impactos por ele causados, deixamos algumas considerações sobre os eventuais impactos a nível da biodiversidade.

Os incêndios têm, em regra, efeitos significativos sobre os habitats, com consequências diretas e indiretas sobre a fauna, a flora e vegetação e os processos ecológicos.

A nível da flora, a destruição da vegetação pode levar à perda de habitats, comprometendo a regeneração natural, especialmente em áreas com espécies endémicas ou com elevado valor de conservação, como é o caso do PNSE.

Teixo provavelmente destruído na encosta da ribeira do Cortiçô, com a serra do Açor ao fundo. Foto: Fernando Romão

A fauna é igualmente afetada, seja pela mortalidade direta causada pelas chamas, seja pela destruição dos habitats e fontes de alimento, o que pode resultar em alterações significativas no comportamento das espécies e, em última análise, na sobrevivência das suas populações.

Além disso, há consequências a médio e longo prazo que podem incluir a alteração da composição e estrutura das comunidades biológicas, a perda de solo por erosão, o surgimento e/ou incremento de espécies exóticas invasoras, e a interrupção de ciclos ecológicos essenciais, como a polinização e a dispersão de sementes.

Neste território, a magnitude dos impactos dependerá, entre outros fatores, da intensidade do incêndio, da orografia mais ou menos acidentada, do tipo de vegetação afetada e, claro, da resiliência dos próprios habitats percorridos pelo fogo. 

Vegetação afectada

A nível da vegetação, uma das comunidades mais atingida terá sido os bosquetes de azereiro (Prunus lusitanica), em particular no vale da ribeira de Alvoco e seus tributários. O azereiro é uma árvore relíquia da vegetação que herdámos do Período Terciário e de distribuição muito restrita (Portugal, Espanha, sudoeste de França e norte de Marrocos) e que tem na área percorrida por este incêndio, nas serras da Lousã, Açor e Estrela, o seu maior efetivo populacional a nível mundial.

Azereiro. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

Na serra da Alvoaça, cumeada que separa os concelhos de Seia e da Covilhã entre as freguesias de Alvoco da Serra e Erada/Unhais da Serra, os afloramentos de xisto albergam uma flora rupícola valiosa sob o ponto de vista da conservação. Ali crescem, por exemplo, Murbeckiella sousae (endemismo das serras do centro e norte de Portugal) e Jurinea humilis, planta classificada como Vulnerável ao abrigo da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal e restrita em Portugal às cumeadas das serras da Lousã, Açor e Estrela.

Ainda nesta cumeada, os nanoazinhais modelados pelo vento e os matagais de Teucrium salviastrum com caldoneira (Echinospartum ibericum), comunidade endémica de Portugal, foram uma vez mais fortemente afetados por este incêndio.

Teucrium salviastrum. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

A leste da serra de Alvoaça, no concelho da Covilhã, o azinhal da ribeira das Cortes, já de si muito fustigado pelos incêndios de 2017 e 2022, voltou a ser percorrido por este incêndio.

Ainda neste concelho, na área do circo glaciário do Covão do Ferro, terá sido afetado um dos maiores núcleos de Eryngium duriaei subsp. duriaei, endemismo ibérico, cuja população da serra da Estrela representa um isolado populacional que difere das restantes populações de Eryngium duriaei subsp juresianum que ocorrem no norte de Portugal e na serra do Açor.

Eryngium duriaei duriaei com planalto da Torre em último plano. Alexandre Silva/CISE (arquivo)

E a jusante da Barragem do Covão do Ferro, em pleno vale glaciário de Alforfa, o núcleo do endemismo Ibérico Ranunculus abnormis classificado como Vulnerável (VU) na LVFVP e os urzais de Erica tetralix (charnecas húmidas atlânticas temperadas) correspondentes ao habitat 4020 e considerado prioritário ao abrigo da Rede Natura 2000 pela União Europeia poderão ter sido afetados. 

Ranunculus abnormis. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

No Vale do Alvoco e da Garganta de Loriga, os teixos residuais destes vales, os azereiros a maior altitude em Portugal e os matos endémicos da Península Ibérica de codeço (Adenocarpus argyrophyllus), arbusto Vulnerável ao abrigo da Lista Vermelha, podem ter sido afetados. Esta última espécie, com toda a certeza, também terá sido muito afetada na área do Covão do Ferro. 

Codeço. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

Destacar, ainda na Zona Especial de Conservação Complexo do Açor, designado no âmbito da Rede Natura 2000, a presença de Arabis beirana, um endemismo destas serras e classificada Em Perigo (EN) ao abrigo da LVFVP.

Nem todos os animais conseguem fugir

No que se refere à fauna, além dos impactos diretos e indiretos que o fogo pode causar às comunidades de vertebrados e invertebrados típicas das regiões montanhosas do Centro de Portugal, em que as serras da Estrela e do Açor se inserem, é particularmente relevante sublinhar a existência de numerosas espécies classificadas com estatuto de conservação “Ameaçado” a nível nacional.

A ocorrência de incêndios compromete não apenas os habitats essenciais à sua sobrevivência, como também afeta negativamente a dinâmica populacional destas espécies, dificultando a sua recuperação e, em casos extremos, colocando em risco a sua viabilidade a longo prazo.

Salamandra-lusitânica. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

Entre as espécies de vertebrados mais vulneráveis encontram-se diversos anfíbios, répteis, aves e mamíferos, de que se destacam algumas espécies pela menor capacidade de fuga às chamas, como: a salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitancia), com populações importantes nas cotas relativamente mais baixas dos vales de Alvoco, Loriga e Unhais); a cobra-lisa-austríaca (Coronella austrica) que na serra da Estrela ocorre acima dos 1400-1500 metros de altitude, constituindo um núcleo populacional  isolado; e a víbora-cornuda (Vipera latastei), presente desde as cotas inferiores deste território até aos 1500-1600 metros de altitude, em densidades sempre muito reduzidas.

Cobra-lisa-austríaca. Foto: José Conde/CISE (arquivo)
Víbora-cornuda. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

A lagartixa-da-montanha (Iberalacerta monticola subsp. monticola) merece um destaque particular, por se tratar de um endemismo exclusivo do PNSE e por encontrar a sua população restringida às áreas serranas situadas acima de 1400—1500 metros de altitude, parte das quais foram agora também atingidas por este incêndio. 

Lagartixa-da-montanha. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

Embora o corço (Capreolus capreolus) e o veado (Cervus elaphus) não se encontrem entre as espécies ameaçadas, merecem uma referência especial, uma vez que algumas das suas principais áreas de expansão no Parque Natural foram severamente afetadas pelo incêndio.

Nesta fase crítica, é de extrema importância assegurar fontes de alimento suplementar, de forma a garantir a sobrevivência dos animais que resistiram ao fogo.

Veado. Foto: José Conde/CISE (arquivo)
Veado. Foto: José Conde/CISE (arquivo)

Adicionalmente, importa salientar que o Parque Natural da Serra da Estrela alberga uma das comunidades mais ricas de insetos e outros invertebrados entre todas as áreas protegidas nacionais.

Esta diversidade inclui um número significativo de espécies ameaçadas, raras e mesmo endémicas, cujos habitats principais encontram-se em altitude e que foram agora percorridos pelo incêndio.

Como exemplo referem-se o grilo-de-sela (Ctendodecticus lusitanicus), o escaravelho Zabrus estrellanus e a borboleta diurna Satyrus actaea que, não sendo exclusiva desta montanha, tem na serra da Estrela um dos poucos locais de ocorrência em território nacional.

Não perca