Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No quinto artigo da série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Vasco Fonseca, naturalista de 15 anos que já leva uma vida a maravilhar-se pelo mundo natural que o rodeia.
Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.
Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.
Hoje, damos-lhe a conhecer Vasco Fonseca, jovem naturalista de 15 anos e aluno do 11.º C, na área de Ciências e Tecnologias, na Escola Secundária du Bocage. Nasceu em Londres, mas quando tinha um ano de idade foi viver para Azeitão. Diz ser apaixonado pela natureza, pela fotografia e pela Ciência, sobretudo pela Biologia, Geologia e Química.

WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?
Vasco Fonseca: Não me consigo lembrar de um momento específico em que tenha começado a reparar no mundo natural, porque sinto que esse interesse sempre fez parte de mim. Desde pequeno que prestava atenção às flores, aos insetos, aos caracóis e a outros animais pequenos que encontrava.
Lembro-me de recolher caracóis e outros invertebrados que pareciam estar feridos e de os colocar temporariamente em pequenas caixas, porque queria protegê-los e ajudá-los a recuperar. Talvez tudo tenha começado aí, quando percebi que até os seres vivos mais pequenos merecem a nossa atenção.
W: O que te incentivou ou motivou a começar?
Vasco Fonseca: A minha principal motivação foi a curiosidade. Sempre quis compreender o que estava à minha volta, descobrir o nome das espécies, saber como viviam e perceber a sua importância nos ecossistemas. As caminhadas em família também foram importantes, pois deram-me a oportunidade de explorar, observar e fazer perguntas.

Comecei por aprender os nomes comuns das espécies mas, por volta dos 10 anos, percebi que os especialistas utilizavam sobretudo os nomes científicos. Como ainda estava a descobrir a maioria das espécies, aprender o nome comum ou o científico exigia praticamente o mesmo esforço. Além disso, os nomes científicos são universais, facilitam a comunicação com os especialistas e ajudam a evitar confusões entre espécies.
Outro momento muito importante aconteceu em 2018, quando participei pela primeira vez, aos 7 anos, na 9ª edição do Festival de Observação de Aves e Atividades de Natureza em Sagres. Foi como entrar num universo completamente novo.
Durante os quatro dias do festival, participávamos em família em várias atividades por dia. Fizemos sessões de anilhagem de aves, workshops de construção de ninhos e de chamarizes, observações de aves, insetos, anfíbios, répteis e plantas, análise de egagrópilas, palestras de fotografia e sessões de identificação de borboletas noturnas.
Terminávamos sempre os dias muito cansados, mas com vontade de, na manhã seguinte, continuar a viver novas experiências. Foi espetacular. Tenho muito a agradecer a todas as pessoas que conheci nessas atividades. Inspiraram-me e partilharam comigo os seus conhecimentos com muita simpatia e paciência, apesar das muitas perguntas que eu fazia.
W: O que sabias antes de começar?
Vasco Fonseca: Quando comecei, sabia muito pouco. Reconhecia alguns dos animais e das plantas mais comuns, mas não tinha consciência da enorme diversidade que existe à nossa volta. Não sabia distinguir muitas espécies, nem conhecia bem os diferentes grupos de animais, plantas e fungos.
Penso que todas as crianças podem começar, de alguma forma, neste ponto. É através da curiosidade, da educação e do apoio da família, da escola e da sociedade que vamos evoluindo e aprendendo a observar melhor.
O contacto com especialistas e com outros naturalistas foi sempre muito importante, porque a experiência de campo permite aprender coisas que nem sempre encontramos nos livros. Nas sessões de anilhagem de aves e de estudo de insetos, por exemplo, observei como os especialistas manuseavam os animais com extremo cuidado e respeito.
Uma grande vantagem da minha geração é o acesso rápido à informação através da Internet e de aplicações como o iNaturalist e o Merlin Bird ID, entre outras. No entanto, os livros e os guias de campo continuam a ser muito importantes, tanto para a identificação das espécies como para conhecer melhor a sua biologia.
A natureza é tão vasta e diversa que há sempre algo novo para descobrir, desde os organismos microscópicos aos de maiores dimensões. Pode ser uma espécie que ainda não conhecemos, um comportamento inesperado ou uma relação ecológica que nunca tínhamos observado.
W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhado?
Vasco Fonseca: Gosto de todos os grupos taxonómicos mas, ultimamente, tenho-me interessado especialmente pelos ácaros, por outros artrópodes e pelas orquídeas silvestres.
Apesar da sua má fama, os ácaros constituem um grupo muito interessante devido à enorme diversidade de cores, formas e modos de vida. Essa diversidade permite-lhes ocupar diferentes nichos ecológicos. Algumas espécies são decompositoras, outras são predadoras e contribuem para controlar populações de outros animais, enquanto outras são parasitas.
Uma das minhas espécies favoritas é o Balaustium murorum, um ácaro vermelho que pode ser observado nas paredes durante a primavera e que se alimenta sobretudo de pólen, nomeadamente de pinheiros e de asteráceas.

O pólen libertado em grandes quantidades pelos pinheiros pode ficar preso nas rugosidades das paredes, criando locais favoráveis à sua alimentação.
Estes pequenos animais também constituem uma importante fonte de alimento para outros organismos. Para termos uma ideia da sua abundância, em determinados locais podem existir mais de um milhão de oribatídeos (tipo de ácaro decompositor) por metro quadrado.
Apesar da sua importância ecológica, os ácaros continuam a ser relativamente pouco estudados. Estão descritas cerca de 55.000 espécies, mas estima-se que possa existir um número muito superior.
As orquídeas silvestres também são fascinantes, porque apresentam características muito diferentes das de outras plantas. As suas sementes, por exemplo, são as mais pequenas do mundo. Estas são constituídas apenas pelo embrião e dependem da associação com fungos micorrízicos para germinarem e se desenvolverem.
Outro aspeto que me fascina são as suas estratégias de polinização. Em Portugal temos apenas uma espécie que oferece recompensa aos polinizadores. É a Gymnadenia borealis, uma espécie que em Portugal só existe no extremo norte do país. As outras orquídeas recorrem a formas de mimetismo para atrair os polinizadores. Certas espécies podem assemelhar-se às fêmeas dos insetos que as polinizam, atraindo machos que, ao tentarem acasalar com as flores, acabam por transportar o pólen.
Um caso interessante é o Limodorum abortivum. As suas flores podem autopolinizar-se sem chegarem a abrir.

Esta orquídea não possui clorofila e depende fortemente da associação com fungos micorrízicos para obter os nutrientes necessários à sua sobrevivência.
W: O que vês hoje que provavelmente não terias visto quando começaste?
Vasco Fonseca: Hoje estou mais atento a pormenores. Uma folha dobrada pode esconder uma lagarta, uma aranha ou outro pequeno animal. Uma marca num tronco pode indicar a presença de um inseto e uma planta aparentemente discreta pode revelar-se uma espécie muito interessante. Também comecei a reconhecer alguns sons, rastos e outros sinais que antes me passavam despercebidos.
Quando caminho na natureza, tento encontrar espécies e compreender os habitats onde vivem. Observo os pequenos indícios do que aconteceu naquele local ou do que poderá estar escondido à minha volta.
Aprendi ainda que, para fazer observações interessantes, nem sempre é preciso viajar para longe. Muitas vezes, basta parar, prestar atenção e valorizar aquilo que existe mesmo ao nosso lado.
W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?
Vasco Fonseca: Penso que muitas pessoas não têm consciência da biodiversidade que existe perto das suas casas. Em Portugal temos cerca de 300 espécies de aves que ocorrem regularmente, mas a maioria das pessoas não conhece mais do que cinco. Com os insetos acontece o mesmo, existem mais de 700 espécies de abelhas, mas a maioria das pessoas apenas conhece a abelha do mel (Apis melifera).
Estamos rodeados por uma diversidade extraordinária, mas grande parte dela passa despercebida porque nem sempre paramos para olhar com atenção e conhecer o que nos rodeia.
Também não é fácil perceber imediatamente as relações que existem entre as diferentes espécies. Uma única planta pode fornecer alimento, abrigo ou um local de reprodução a muitos organismos. Quando começamos a compreender estas ligações, descobrimos interações extraordinárias e percebemos como cada espécie pode afetar muitas outras. A vida não evolui de forma isolada, mas através de uma enorme rede de relações.

W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?
Vasco Fonseca: Já tive muitos encontros especiais com a natureza, mas um dos que mais me marcou aconteceu durante o Natal de 2024, numa caminhada pelas serras do Porto. Ao levantar cuidadosamente uma rocha, encontrei um pequeno animal que não consegui identificar. Tirei-lhe uma fotografia, voltei a colocar a rocha na posição original e iniciei a pesquisa.
Mais tarde, descobri que o animal pertence ao género Opilioacarus, um grupo de ácaros muito diferente e pouco conhecido que possivelmente nunca foi registado em Portugal e poderá ser uma espécie nova. Foi esta descoberta que despertou verdadeiramente o meu interesse pelos ácaros.

W: De que forma a tua vida mudou e é mais rica por teres aprendido a reparar neste mundo? Consegues integrar este gosto por explorar a natureza no teu dia a dia?
Vasco Fonseca: A natureza mudou completamente a forma como vejo aquilo que me rodeia. Nunca me sinto aborrecido num espaço natural, porque há sempre alguma coisa para procurar, observar, fotografar ou tentar identificar.
Este interesse também me permitiu conhecer muitas pessoas, participar em festivais e noutras atividades, contactar especialistas e partilhar aquilo que vou aprendendo. Acima de tudo, ensinou-me a estar mais atento, ser mais paciente e curioso.
É impossível separar a natureza do meu dia-a-dia. Por onde quer que passe, encontro quase sempre alguma coisa interessante ou surpreendente. Mesmo dentro de casa já descobri espécies que nunca tinha observado, como aconteceu com uma borboleta noturna da espécie Mormo maura.
Na minha escola existe um pequeno espaço com alguma vegetação espontânea, onde já foi possível registar 545 espécies através do iNaturalist. Isto demonstra que até uma área pequena e urbanizada pode revelar uma grande biodiversidade quando é observada com atenção.
A BioDiversity4All, em parceria com o iNaturalist, tem desenvolvido um trabalho muito importante na promoção da Ciência Cidadã ligada à natureza. Utilizo frequentemente o iNaturalist para organizar os meus registos e, neste momento, seria difícil imaginar uma forma tão simples de reunir e consultar toda essa informação.
As observações podem transformar-se em dados utilizados na investigação científica e na conservação da biodiversidade. A minha geração beneficia muito destas aplicações e do acesso rápido à informação. Ainda assim, é fundamental selecionar cuidadosamente as fontes e confirmar se estamos a identificar corretamente o que encontramos.
W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?
Vasco Fonseca: Ensinaria essa pessoa a parar e a observar verdadeiramente.
Muitas pessoas pensam que precisam de conhecer os nomes de todas as espécies antes de começarem, mas isso não é verdade. O mais importante é ter curiosidade e aprender a fazer perguntas: o que é isto? Onde vive? De que se alimenta? Porque aparece neste local? Que relação poderá ter com as outras espécies?
Não é necessário saber imediatamente a resposta. Uma boa observação começa quando reconhecemos que temos algo interessante diante de nós e sentimos vontade de o compreender melhor.
W: O que pode estar a dificultar uma aproximação das pessoas à natureza?
Vasco Fonseca: Penso que existem vários fatores. Um deles é a falta de incentivo por parte das famílias e das escolas. Por outro lado, ainda existem muitos mitos e crenças populares que assustam as pessoas, em particular as crianças, e perpetuam o afastamento da natureza. Muitas crianças crescem sem oportunidades regulares para explorar espaços naturais, observar espécies ou participar em atividades de campo.

Outro problema é a ideia de que a natureza só existe em locais distantes, como grandes florestas ou reservas naturais. Na realidade, também está presente nos jardins, nos parques urbanos, nas bermas dos caminhos, nas praias, nos recreios das escolas e até nas paredes das nossas casas.
O excesso de tempo passado nos ecrãs também pode afastar-nos da observação direta. No entanto, a tecnologia não tem de ser inimiga da natureza. Aplicações como o iNaturalist e o Merlin Bird ID podem funcionar como uma ponte entre o mundo digital e a exploração do ambiente natural.
O medo e o desconhecimento também levam algumas pessoas a rejeitar insetos, anfíbios, répteis, aracnídeos e outros animais. A educação ambiental ajuda a substituir esse receio pela curiosidade e mostrar que até os organismos menos populares desempenham funções importantes nos ecossistemas.
W: Que conselhos dás a quem quer começar? Podes dar três ou quatro exemplos do que procurar? Que material poderá ser necessário?
Vasco Fonseca: O meu primeiro conselho é começar perto de casa, num jardim, num parque ou até no recreio da escola. Não é necessário conhecer um local extraordinário nem ter equipamento especializado para observar a natureza.
Podemos começar por procurar aves, insetos, aranhas, plantas ou fungos. Também é interessante observar polinizadores junto das flores, procurar sinais deixados por insetos nas folhas e nos troncos, escutar o canto das aves ou ver que pequenos animais se escondem debaixo de rocha e troncos. Neste último caso, devemos levantar esses elementos com cuidado e voltar a colocá-los exatamente na mesma posição.
O iNaturalist é uma excelente ferramenta para quem está a começar. Trata-se de uma plataforma de Ciência Cidadã onde podemos partilhar fotografias ou gravações de sons de seres vivos. A aplicação apresenta uma primeira sugestão de identificação e, posteriormente, outros membros da comunidade, incluindo naturalistas e especialistas, podem ajudar a confirmá-la ou a corrigi-la. Também permite descobrir as espécies que existem perto de nós ou em locais que pretendemos visitar.
Outra forma de aprender é participar em atividades promovidas pelas câmaras municipais e por organizações ligadas ao ambiente. Entre as iniciativas que considero mais interessantes estão o Festival de Observação de Aves e Atividades de Natureza de Sagres, o ObservaLagunas, o Naturcôa, os Bioblitzes, os workshops e as palestras.
Para encontrar estas atividades, podemos acompanhar os sites e as redes sociais de entidades como a SPEA, a Vita Nativa, a Almargem, o TAGIS, a LPN, a Palombar, a Rocha e a BioDiversity4All, entre outras, bem como as páginas das câmaras municipais dedicadas ao ambiente.
Quanto ao material, basta começar com roupa e calçado adequados, um telemóvel e, se possível, uma lupa. Uns binóculos podem ser úteis para observar aves, mas não são indispensáveis. Os guias de campo, em papel ou em formato digital, também podem ajudar bastante. Existem muitos guias de campo oferecidos pelas autarquias, muitas vezes apenas é preciso enviar um pedido por email e normalmente respondem positivamente, gratuito.
Acima de tudo, é fundamental respeitar os seres vivos e os seus habitats. Não devemos capturar animais, colher plantas ou interferir com os habitats sem necessidade. O objetivo deve ser observar, aprender e deixar cada local tal como o encontrámos.
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