Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No segundo artigo da nova série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Henrique Afonso e como o fascínio pela natureza o tornou mais feliz.
Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.
Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.
Hoje, damos-lhe a conhecer Henrique Afonso, 22 anos, aluno do mestrado em Biologia da Conservação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Além disso, trabalha como guia e realiza cursos e workshops de fotografia de vida selvagem para várias instituições e municípios.

Atualmente está a trabalhar na monitorização da migração das aves de rapina em Sagres e é responsável pelas contagens mensais de aves e de mamíferos marinhos do Cabo Espichel, Sesimbra.
WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?
Henrique Afonso: Lembro-me perfeitamente. Foi em 2021, quando tinha 16 anos. Estava a fotografar no meio do Sapal de Corroios, deitado na lama, ao pôr do sol. Já todo molhado e sujo, decidi, pela primeira vez, parar de fotografar e contemplar apenas as aves limícolas. Umas voavam por cima de mim e outras estavam a alimentar-se ao meu lado, nomeadamente borrelhos-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) e tarambolas-cinzentas (Pluvialis squatarola).
W: O que te motivou a começar a reparar na natureza?
Henrique Afonso: Sempre adorei animais e aos 15 anos ganhei um gosto especial pela fotografia. No dia 04/01/2020, acordei e pedi aos meus pais para me levarem a Alcochete para tentar fotografar animais. Deparei-me com uma espécie que se tornou a minha favorita, o pernilongo (Himantopus himantopus).

Fotografei-a, juntamente com outras aves aquáticas que se encontravam ao redor e nesse momento percebi que tinha de misturar o meu fascínio pelos animais com a fotografia e tinha que mostrar as espécies que eu via às restantes pessoas. Creio que posso dizer que foram estas aves que me fizeram começar a observar e a estar mais atento ao mundo natural.
W: O que sabias antes de começar?
Henrique Afonso: Não sabia nada. Na verdade, achava que ninguém observava ou fotografava aves ou animais no geral. Talvez por ser muito novo, achava que era algo que apenas acontecia se, na universidade, as pessoas frequentassem o curso de Zoologia.

W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhado?
Henrique Afonso: Muitos! Lembro-me dos gansos-patola (Morus bassanus) a mergulharem como se fossem foguetes, ursos-pardos (Ursos arctos) a sentarem-se a comer as suas bagas, gaviões (Accipiter nisus) a atacarem buteos-vespeiros (Pernis apivourus), pernilongos (Himantopus himantopus) a fingirem-se magoados para desviarem os predadores das suas crias, golfinhos-roazes (Tursiops truncatus) a saltarem de costas para limparem os parasitas entre muitos…
W: O que é que vês hoje que, provavelmente, não terias visto quando começaste por te passar despercebido?
Henrique Afonso: O mundo ecológico menos apreciado, algas, plantas e artrópodes… Antigamente passava no meio de um habitat e não prestava atenção às algas/plantas ou aos insetos, aracnídeos, miriápodes etc…. Hoje em dia tenho esse cuidado e atenção pois, no fundo, tudo está ligado. Além disso, no início, as aves mais pequenas que se escondem nos arbustos ou caniços escapavam-me bastante. Hoje presto sempre bastante atenção às vocalizações das aves e muitas vezes isso leva-me a encontrar estes “fantasmas”.

W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?
Henrique Afonso: Muitas pessoas não reparam nos comportamentos dos animais. Temos a tendência de “colecionar espécies” (ver o maior número de espécies) em vez de prestarmos atenção aos comportamentos de todos os seres.
W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?
Henrique Afonso: O meu último encontro mais marcante foi observar o urso-pardo-ibérico (Ursos arctos), o meu mamífero ibérico favorito e que já desejava observar há muitos anos. Não foi à primeira, segunda nem terceira mas sim à sétima tentativa. Consegui observar tudo o que desejava, um macho a explorar território e a alimentar-se e uma mãe com crias. Foi fantástico.
W: De que forma a tua vida mudou, e é mais rica, por teres aprendido a reparar neste mundo? Consegues integrar este gosto por explorar a natureza no teu dia-a-dia?
Henrique Afonso: Tornei-me uma pessoa muito mais paciente pois em muitas das minhas observações tive de esperar várias horas/dias até conseguir observar/fotografar o que desejava. Descobri também que com pouco consigo ser feliz. Às vezes basta-me ir a um parque ou a uma praia ou floresta e observar a natureza e o meu dia torna-se logo melhor. Tornei-me uma pessoa super alegre que adora comunicar o que sabe e que repara nas coisas mais pequenas e discretas.

W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?
Henrique Afonso: Creio que ensinaria a diferença entre espécies migradoras e residentes. Temos muitas espécies – não só em aves, mas também em insetos e mamíferos marinhos – que conseguimos observar durante todo o ano. Mas há outras que apenas podem ser observadas em certas alturas do ano, como os grous-comuns (Grus grus) e as baleias-comuns (Balaenoptera physalus), e que muitas vezes escapam às pessoas.
W: O que pode estar a dificultar uma aproximação das pessoas à natureza? Falta de tempo, de conhecimento, de uma comunidade que as ajude?
Henrique Afonso: Bem, creio que seja um pouco de tudo. No que toca ao conhecimento, de facto, desde que somos novos a natureza não nos é incutida. Pelo menos quando andei na escola, poucos eram os professores que falavam de natureza, apenas davam a matéria que estava nos manuais…

Outro grande problema são as redes sociais. Podem ser boas para umas coisas (por exemplo partilha de natureza e de conhecimento) mas para outras não são, nomeadamente ficar horas e horas agarrado ao telemóvel a ver vídeos. Creio que seja um dos principais problemas de hoje em dia. Os jovens preferem ficar no telemóvel em vez de tirar uma hora do dia para passear e procurar alguma natureza. Além disso, ter comunidades é super interessante. Criar uma comunidade que una escolas para fazer com que os jovens comecem a prestar mais atenção a natureza seria uma iniciativa incrível.
W: Que conselhos dás a quem quer começar? O que começar a procurar? Que material poderá ser necessário?
Henrique Afonso: Vai para o campo! Quando digo “campo” (linguajar de naturalista) digo um parque, uma floresta, um bosque, uma praia, uma lagoa, qualquer lado que não tenha betão. Observa a natureza, contempla todos os comportamentos e tenta depois perceber o que observaste. Não tenhas medo de perguntar às pessoas que já têm algum conhecimento, é muito bom aprender com a experiência dos outros. Tens um amigo que também gosta de natureza? Vai com ele para o campo!

Conselhos:
1- Começa a reparar nas aves, nos bicos, patas, envergadura das asas, padrões de penas (vais ver que só no nosso país conseguimos observar centenas de espécies).
2- No inverno, a chuva pode-nos fazer ficar em casa, mas depois de um dia de chuva vai a uma floresta e procura por anfíbios. Não, não temos só rãs e sapos, temos também tritões, salamandras e relas!
3- Ao amanhecer vai dar um passeio a um parque e repara nas zonas onde bate o sol. Muitas vezes podemos observar répteis como lagartixas ou até o maior lagarto do nosso país, o sardão (Timon lepidus) a aquecerem-se.
4- Faz todas estas observações, perturbando o mínimo possível os animais. Não te esqueças de que eles estão no seu habitat natural e não estão acostumados a ter um mamífero bípede atrás deles.
Material necessário:
1- Interesse e curiosidade. São os principais materiais.
2- Binóculos. Hoje em dia arranja-se binóculos super baratos e que nos permitem ver animais que estão distantes de nós.
3- Calçado apropriado.
4- Livros/Guias, se bem que hoje em dia tens muita informação gratuita online! Os guias são bons para tê-los no campo e confirmares as espécies que vês.
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