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Reparar na natureza: Luísa Ferreira Nunes, os insetos e os cadernos de campo

23.10.2026
leitura de 4 minutos
Luisa Ferreira Nunes. Foto: D.R.

Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No quarto artigo da série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Luísa Ferreira Nunes, entomóloga e ilustradora de natureza.

Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.

Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.

Hoje, damos-lhe a conhecer Luísa Ferreira Nunes, ilustradora naturalista e professora de Entomologia e Ecologia na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Há várias décadas que esta autora de uma série de agendas ilustradas combina o conhecimento científico à ilustração para dar a conhecer a diversidade do mundo natural.

WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?

Luísa Ferreira Nunes: Não sei se consigo identificar uma primeira vez. Acho que foi uma aproximação gradual muito incentivada pelo meu pai. A natureza sempre esteve presente, mas houve um momento em que deixou de ser apenas um cenário e passou a ser a minha profissão e aí a observação era treinada diariamente. No caso dos insetos, a paixão começou nas aulas de Entomologia na universidade, determinando que viesse a ser professora de Entomologia. Como os meus amigos comentam quando vamos para o campo “lá vais tu a olhar para o chão”, força do hábito de observar insetos.

W: O que te incentivou a começar?

Luísa Ferreira Nunes: Foi sempre o meu pai que era um talentoso pintor e conhecedor de fauna e flora. Depois, a Ecologia e a Entomologia deram-me uma forma de olhar para o mundo natural com mais detalhe e perspectiva. O desenho também teve um papel importante, porque desenhar obriga-nos a parar e a ver realmente.

W: O que sabias antes de começar?

Luísa Ferreira Nunes: Muito menos do que pensava. Uma das coisas que se aprende rapidamente é que reconhecer uma espécie ou saber o seu nome é apenas o início. O essencial é perceber relações, ciclos, estratégias, adaptações, interações com outras espécies e com o ambiente.

W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhada?

Luísa Ferreira Nunes: Sempre me fascinaram os insetos pelas suas estratégias de sobrevivência. Durante o doutoramento trabalhei com coleópteros (escaravelhos) e fiquei impressionada com a complexidade das relações entre estes insetos e as mudanças do meio em que habitam. Mais tarde comecei também a trabalhar com libélulas, sobretudo espécies de montanha. A metamorfose continua igualmente a ser um dos fenomenos mais extraordinários que podemos observar na natureza.

W: O que é que vês hoje que, provavelmente, não terias visto quando começaste por te passar despercebido?

Luísa Ferreira Nunes: Hoje reparo sobretudo nas relações. Não vejo apenas um inseto numa planta. Pergunto porque está ali, o que está a fazer, de que se alimenta, quem depende dele, quem o pode predar, que sinais existem à sua volta. Também reparo muito mais em pequenas alterações: uma folha enrolada, um orifício na casca, uma exúvia, uma postura de ovos, uma mudança no comportamento de uma ave.

W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?

Luísa Ferreira Nunes: Na quantidade de vida que existe a poucos centímetros delas. Muitas pessoas procuram natureza em grandes paisagens e ignoram um muro, um tronco morto, uma poça de água ou a parte inferior de uma folha. Há mundos inteiros nesses lugares. E muitas vezes passam também ao lado dos sinais deixados pelos animais, porque estão à procura do animal propriamente dito.

W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?

Luísa Ferreira Nunes: Estava a conduzir de madrugada, perto de Monfortinho, e de repente estava um enorme veado no meio da estrada, parado. Era grandioso e altivo, olhou-me por uns segundos e saiu da estrada devagar como que dizendo “olha bem para mim”. Achei um comportamento incomum e por isso nunca mais me esqueci.

W: De que forma a tua vida mudou, e é mais rica, por teres aprendido a reparar no mundo natural?

Luísa Ferreira Nunes: Mudou completamente a forma como ocupo um lugar. Mesmo num sítio aparentemente banal há sempre qualquer coisa para descobrir. Aprender a reparar torna o mundo maior. Dá-nos também uma sensação muito clara de que fazemos parte de sistemas muito mais complexos do que nós. Para mim, ciência, ilustração e observação da natureza acabaram por se tornar inseparáveis.

W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?

Luísa Ferreira Nunes: A parar. Parece simples, mas não é. Não procurar imediatamente uma coisa extraordinária. Ficar num lugar durante algum tempo e observar o que muda. Quanto mais tempo damos a um sítio, mais ele começa a revelar.

W: Que conselhos dás a quem quer começar? O que começar a procurar? Que material poderá ser necessário?

Luísa Ferreira Nunes: Começaria por coisas muito simples: virar uma folha e observar o verso; procurar sinais de insetos em troncos e cascas; observar uma pequena poça ou ribeira durante alguns minutos; procurar exúvias, ovos, galerias ou folhas roídas. Também é interessante escolher uma planta e regressar a ela várias vezes ao longo do ano.

E não é preciso muito material. Uma pequena lupa, um caderno, lápis e, se possível, uma máquina fotográfica ou telemóvel para registar detalhes. Mas o instrumento mais importante é o tempo. É preciso permanecer o suficiente para que aquilo que parecia não ter nada comece a mostrar alguma coisa.


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Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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