Aos 14 anos, este adolescente de Azeitão descobriu uma espécie de escorpião que poderá ser nova para Portugal, guia saídas de campo e faz o levantamento da biodiversidade na sua escola. Tudo começou com caracóis magoados.
Desde muito pequeno, Vasco Fonseca via no chão, nas árvores e até nas pedras do recreio, um mundo por descobrir. Enquanto outros meninos enchiam os bolsos de berlindes, Vasco trazia caracóis magoados em caixinhas para os ajudar a recuperar. “Andava sempre com as mãos fechadas, guardando qualquer coisinha pequenina, ou para proteger ou para guardar”, recorda a mãe, entre risos.

Hoje, aos 14 anos, este jovem naturalista de Azeitão é uma presença habitual em festivais de natureza, saídas de campo ou bioblitzs. Fala com um brilho nos olhos sobre artrópodes, ácaros, escorpiões e orquídeas. E transmite o que aprende a quem quiser ouvir, muitas vezes a grupos de adultos que se surpreendem ao ver um miúdo a liderar atividades sobre biodiversidade.
“Sou uma pessoa que gosta muito de natureza. Gosto de transmitir o pouco que sei às outras pessoas”, conta à Wilder durante o Festival de Birdwatching, que aconteceu em Sagres de 2 a 5 de outubro.
O gosto pela natureza tem sido alimentado com saídas de campo e estudo. “Ele pesquisa e estuda muito”, diz a mãe. “Passa muitas horas a fazer pesquisas, a enviar emails a biólogos. E eles respondem, muitos já o conhecem. Por exemplo, há dois anos interessou-se por orquídeas selvagens. Queria muito um livro de orquídeas selvagens. Encontrámos um livro do Armando Frazão e ele, no mesmo dia, mandou-lhe uma mensagem para perguntar onde se via determinada espécie, porque ele também morava na Arrábida. Começaram logo a trocar contactos.”
Uma paixão que nasceu cedo
Os pais garantem que o gosto pela natureza “é mesmo dele”. Desde a creche que se encantava com flores, insetos e pequenas criaturas. As caminhadas em família foram o primeiro palco desta curiosidade. “Desde pequeno que ele se interessa muito por ver coisas na natureza e quão espectaculares elas são”, conta o pai.

Há oito anos, participaram pela primeira vez no Festival de Observação de Aves e Atividades de Natureza de Sagres. “Chegámos com chuva, o irmão era pequeno e andávamos com o carrinho pelo meio do mato. Foi espetacular”, lembra o pai.
Têm vindo todos os anos. Na opinião do pai, este festival tem sido “super importante” e o Vasco “tem aprendido muito nas saídas de campo, com os guias das actividades”. “Nas primeiras vezes, saímos mais cansados do que vínhamos mas muito mais enriquecidos.”
“Conhecemos pessoas que sabem muito e observamos muitos bichos que aparecem aqui e que não aparecem em mais lado nenhum”, diz o Vasco. “É muito giro este Festival.”
Foi em Sagres que Vasco viveu algumas das experiências mais marcantes: “Lembro-me de quando vimos uma cegonha-negra pela primeira vez. Foi espectacular. E noutro festival deixaram-me libertar uma águia-calçada.”

A curiosidade de Vasco, que começou pelos insetos e se estendeu a outros grupos de animais e plantas, parece não ter limites. Já participou em bioblitzes, colabora com biólogos e até se envolveu na identificação de um escorpião negro, um Euscorpius sp., que encontrou, por acaso, numa saída de campo sobre borboletas noturnas.
“É uma espécie nova para Portugal. Agora não se sabe é se existe noutro sítio, se o trouxeram para cá ou se é uma espécie nova mesmo. Tem as pinças maiores e o bicho é todo preto. É muito giro”, conta Vasco. “Os escorpiões não são fáceis de identificar, são bichos muito próximos uns dos outros; são espécies crípticas que, mesmo ao microscópio, são muito difíceis de identificar. É preciso recorrer a ferramentas genéticas para os distinguir”, explica.
Na Escola Secundária do Bocage, criou o projeto “Liceu Secreto”, onde estuda a biodiversidade num pequeno terreno de 30 por 30 metros. Já registou mais de 500 espécies; destas, cerca de 200 já estão submetidas na plataforma iNaturalist. “É incrível o que aparece ali — plantas, insetos, cogumelos. É espectacular porque aparece de quase tudo”. Sobre esta biodiversidade local fala a colegas e professores. As reacções não são todas iguais. Há amigos que gostam, “outros não tanto”, diz a sorrir.

O interesse pela investigação levou-o também à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), onde participou, no ano passado, em atividades de verão. “Experimentou e gostou bastante; eles convidaram-no para ir lá fazer preparações de insetos”, diz o pai.
“Eles põem umas armadilhas em Grândola (na Herdade da Ribeira Abaixo), para inventariação de tudo o que aparece de insetos e artrópodes. Depois, separam tudo por grupos, para depois separar por espécies. E eu fui lá ajudar a fazer esse trabalho”, explica Vasco.
A mãe recorda com orgulho a primeira vez que entrou num laboratório da FCUL. “Ligou-me e disse: ‘mãe, é isto que eu quero fazer’. Então vamos lá!’, respondi.”
Ensinar os outros a ver o que sempre lá esteve
Além de explorar, Vasco gosta de partilhar o que aprende.
“A primeira vez que guiou uma visita foi na Lagoa Pequena, em Sesimbra, perto de casa”, conta o pai. No ano passado, “fez a sua segunda saída aqui no Festival de Sagres e a terceira no ObservaLagunas, na Lagoa de Santo André. Além disso, tem vindo a fazer algumas saídas na sua escola, nos dias abertos.”

Na mais recente edição do Festival de Birdwatching de Sagres, que aconteceu de 2 a 5 de outubro, Vasco foi o guia de um passeio naturalista com 24 participantes. “A atividade era bilingue”, recorda o pai. “Havia só dois portugueses. Ele estava um pouco apreensivo por ter de fazer a saída em inglês, mas acabou por correr tudo bem”, conta a mãe.
As reações são sempre entusiásticas. A mãe recorda uma senhora que quase desistiu ao ver que o guia daquela saída de campo sobre dunas era um miúdo. “Mas no fim disse: ‘Fiquei impressionada. O puto sabe mesmo do que fala.’”
Com crianças, o efeito é ainda mais forte. “Havia uma menina que tinha fobia de aranhas e acabou a apanhá-las com as mãos”, diz a mãe. “Entre miúdos, a comunicação é mais fácil.”

Olhar o mundo com curiosidade
Apesar da idade, Vasco já pensa no futuro: quer estudar Biologia, especialmente na área dos artrópodes. Fascinam-no os ácaros, seres minúsculos e fundamentais no equilíbrio dos ecossistemas. “São decompositores e predadores. Há mais de 100 ácaros por metro quadrado de solo! É espectacular.”
Mas acima de tudo, o que o move é o prazer de descobrir e mostrar. “Se as pessoas virem os bichos ao vivo, gostam mais. Uma foto é uma foto. Mas ver o bicho ali, a mexer-se, é outra coisa.”

No meio das dunas, nas rochas da Arrábida ou no pátio da escola, Vasco Fonseca continua a procurar e a ensinar os outros a ver. Porque, como ele próprio diz, “só podemos proteger o que conhecemos.”