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Após 20 anos sob cuidados humanos, tartaruga-marinha volta ao oceano no Algarve

30.10.2026
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Molly, uma tartaruga-comum (Caretta caretta) com cerca de 120 quilos, foi devolvida ao mar ao largo da costa algarvia, depois de ter sido resgatada na Irlanda com lesões nas duas barbatanas anteriores, anunciou o Zoomarine.

A 28 de outubro, Molly, uma tartaruga-comum que foi resgatada na Irlanda há cerca de 20 anos, com lesões nas duas barbatanas anteriores, foi devolvida ao oceano, ao largo da costa algarvia.

Molly antes da devolução ao oceano. Foto: Zoomarine

Com cerca de 120 quilos, a tartaruga foi transportada a bordo do NRP Oríon, um navio da Marinha que partiu durante a manhã do Ponto de Apoio Naval de Portimão. A devolução ocorreu a cerca de dez milhas náuticas da costa, no âmbito de uma colaboração entre o Zoomarine Algarve, a TAP Cargo, o Dingle Oceanworld Aquarium, na Irlanda, e a Marinha Portuguesa.

Após ter sido resgatada na Irlanda, os peritos consideraram inviável o seu regresso ao oceano, pelo que ficou sob cuidados humanos no Dingle Oceanworld Aquarium.

Mas a evolução do conhecimento científico e novas avaliações veterinárias permitiram reavaliar o caso. Em maio de 2026, a tartaruga chegou ao Porto d’Abrigo do Zoomarine, no Algarve, para um processo de reabilitação centrado na recuperação e no reforço de comportamentos essenciais à sobrevivência em ambiente selvagem.

Durante a permanência no Porto d’Abrigo, uma equipa multidisciplinar acompanhou Molly e avaliou a sua capacidade para retomar uma vida independente.

Devolução de Molly ao oceano. Foto: Zoomarine

“A reabilitação da Molly foi um processo acompanhado de perto pela nossa equipa, com especial atenção à avaliação e ao reforço de comportamentos naturais essenciais à sua sobrevivência no oceano”, explicou, em comunicado, João Neves, diretor de Ciência e Conservação do Zoomarine. “Ao longo destes meses, procurámos garantir que reunia as condições necessárias para regressar ao seu habitat natural, respeitando sempre as suas características e necessidades individuais.”

Segundo o Zoomarine, a “decisão de devolver a Molly ao oceano teve por base uma avaliação clínica favorável, uma condição corporal adequada, e uma aptidão física e comportamental compatível com a vida no oceano”.

Entre os critérios avaliados estiveram a exploração ativa do ambiente, a alimentação autónoma, a coordenação dos movimentos natatórios e o afastamento das rotinas e dos cuidados humanos. A equipa procurou ainda confirmar que a tartaruga apresentava comportamentos naturais característicos da espécie.

A decisão foi também sustentada pelo conhecimento científico disponível sobre tartarugas-marinhas com lesões nas barbatanas. O comunicado do Zoomarine refere a existência de registos de animais com este tipo de lesões que regressaram às praias de Cabo Verde para nidificar, realizando desovas bem-sucedidas, bem como de tartarugas que sobreviveram na natureza após processos de reabilitação e devolução ao oceano.

Entre os casos mencionados está o de Cat, uma tartaruga com uma barbatana amputada que, depois de ter sido devolvida ao mar, viajou do Algarve até à costa brasileira.

A tartaruga-comum é uma espécie migradora (não reprodutora) visitante nos arquipélagos dos Açores e da Madeira. É nas águas oceânicas em redor destas ilhas que estas tartarugas passam grande parte da fase inicial do seu ciclo de vida, entre seis a 12 anos, com uma missão: procurar alimento nas frentes oceânicas. São animais que nasceram nas costas ocidentais do Atlântico Norte (Estados Unidos e México).

Estes animais, essencialmente juvenis, fazem parte de uma população mais ampla que abrange grande parte do Atlântico Norte Central e Ocidental.

Enquanto as tartarugas juvenis ocorrem exclusivamente em alto mar, os adultos têm hábitos costeiros.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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