Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No terceiro artigo da série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Mateus Godinho e porque as aranhas o deixam maravilhado.
Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.
Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.
Hoje, damos-lhe a conhecer Mateus Godinho, estudante de 17 anos, fascinado por aranhas. Quando não está nas aulas, está a explorar a natureza, em especial aranhas. Recentemente também tem entrado no mundo das orquídeas silvestres. Mas claro, acrescenta, “também há aquelas coisas que toda a gente faz; de vez em quando jogo basquete, videojogos, desenho ou convivo com amigos”.

WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?
Mateus Godinho: Desde muito pequenino que sempre gostei de ver bichos. Mas foi mais ou menos no início da pandemia que comecei realmente a interessar-me pelo lado mais científico da coisa. Comecei a aprofundar a parte de identificar aranhas e também foi mais ou menos nessa altura que comecei a ler artigos científicos.
W: O que te motivou a começar a reparar na natureza?
Mateus Godinho: Sinceramente, não sei. É algo com que as pessoas sempre me associaram e é algo que sempre fez parte de mim. Desde os 2 anos de idade que ando à procura de bichos. Nessa altura via muito a National Geographic e acho que isso me inspirava para procurar cada vez mais animais diferentes.

W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhado?
Mateus Godinho: Há dois grupos em específico que me fascinam imenso: as aranhas-joaninha (Eresus, Stegodyphus, Loureedia, Adonea) e as aranhas-de-alçapão (principalmente Nemesiidae). Adoro o dimorfismo sexual que as aranhas-joaninha apresentam e também gosto dos seus hábitos de caça e das suas teias. No caso das aranhas-de-alçapão gosto muito da diversidade de formas de tocas que elas têm. O meu fascínio por estes dois grupos é grande também porque são muito pouco estudados em Portugal; estou constantemente a encontrar espécies muito interessantes ainda por descrever.
W: O que é que vês hoje que, provavelmente, não terias visto quando começaste por te passar despercebido?
Mateus Godinho: Hoje em dia tenho noção de que, muitas vezes, os animais que ando à procura não respeitam os critérios escritos em artigos, muitas vezes por serem grupos pouco estudados. É muito interessante andar no campo sem qualquer objetivo e ir descobrindo aos poucos que “Ah, afinal este bicho também existe aqui”. Muitas vezes é mais fácil ver os bichos que se quer quando não se está à espera.

W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?
Mateus Godinho: Eu penso que as pessoas não têm noção da pura diversidade de animais que temos, nomeadamente de aranhas. Temos centenas de bichos tão diferentes uns dos outros e as pessoas só conhecem meia dúzia. Quando falo dos animais que encontro às pessoas, a maior parte fica surpreendida, perguntam como e onde é que consigo encontrar aquilo que vejo.
W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?
Mateus Godinho: Nunca vou esquecer a primeira vez que vi uma aranha-joaninha. Estava com dois amigos, o Tiago e o Afonso, num terreno no Seixal há duas horas à procura. Estavam uns 35°C nesse dia. Já estávamos de rastos quando levantámos uma pedra que tinha uma teia perfeita por baixo. Quando inspecionámos a teia saiu de lá uma fêmea adulta lindíssima. Uma das fotos que mando é dessa precisa fêmea.

W: De que forma a tua vida mudou, e é mais rica, por teres aprendido a reparar neste mundo? Consegues integrar este gosto por explorar a natureza no teu dia-a-dia?
Mateus Godinho: O conhecimento que tenho é uma boa forma de estabelecer comunicação. As pessoas da minha idade que vou conhecendo têm sempre interesse em ouvir aquilo que tenho a dizer. É sempre engraçado quando estou com alguém e passa um bicho e digo “Olha este é um não sei das quantas”, isso depois gera sempre um bom momento de conversa. Acho que hoje em dia conheço muita gente precisamente por causa disso.

W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?
Mateus Godinho: Acho que o mais importante para alguém que está a começar é deixar a curiosidade crescer mas ao mesmo tempo ter paciência. Quando comecei a expandir aquilo que sabia sobre aranhas estava sempre a 1000 à hora. Descobria uma espécie que achava interessante e queria logo ir procurá-la onde quer que estivesse. É preciso ter paciência e pesquisar boa informação sobre aquilo que se quer procurar, porque se formos às cegas e não encontrarmos nada é muito desmotivador.
W: O que pode estar a dificultar uma aproximação das pessoas à natureza? Falta de tempo, de conhecimento, de uma comunidade que as ajude?
Mateus Godinho: Penso que grupos como as aranhas, opiliões, escorpiões e vários insetos recebem pouca atenção devido à falta de conhecimento. É simplesmente algo a que as pessoas não ligam, e se ligam é para lhes pôr um pé em cima ou ter medo.

W: Que conselhos dás a quem quer começar? O que começar a procurar? Que material poderá ser necessário?
Mateus Godinho: Acho que não há nada de difícil em começar, é simplesmente ir ao campo e ter um pouco de atenção. Virar pedras e outros objetos também ajuda. Há muitas vezes um mundo escondido por baixo de objetos pelos quais passamos. Penso que até dentro de casa é um bom sítio para explorar, os cantos mais escondidos às vezes têm espécies muito interessantes. Acho que grupos como as aranhas saltadoras (Salticidae), as tecedeiras orbitelares (Araneidae) e as aranhas de funil (Agelenidae) são grupos muito interessantes para se procurar no início, são simples de encontrar e têm espécies muito giras.
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