Guarda-rios. Foto: Diogo Oliveira

Uma visita em busca de cinco aves aquáticas no Jardim Gulbenkian 

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Nesta visita orientada por João Eduardo Rabaça, investigador e professor da Universidade de Évora, vamos em busca de cinco espécies “magníficas” deste espaço verde no centro de Lisboa, presentes em muitos outros parques e jardins por todo o país.

É em torno do lago grande do Jardim Gulbenkian que passam os seus dias várias espécies de aves aquáticas. Este “elemento estruturante do jardim”, como lhe chama João Eduardo Rabaça, que se junta a outros pontos de água e pequenos riachos nos 7,5 hectares deste espaço verde, permite que aqui se observem “algumas espécies de aves que não encontramos noutros locais de Lisboa com tanta regularidade”.

O facto de haver cada vez mais pessoas a viverem em meio urbano – cerca de 56% da população mundial, hoje em dia – tem levado ao aumento da desconexão com a natureza, lamenta o professor de Évora. No entanto, garante, “mesmo numa cidade é possível mantermos essa ligação e termos noção do que se passa no mundo natural”. E para isso, João Eduardo Rabaça faz uma sugestão: podemos acompanhar o ritmo das estações num espaço verde como é o Jardim Gulbenkian, fazendo visitas regulares para identificar as mudanças da paisagem e as diversas espécies de animais, plantas e cogumelos que aparecem e desaparecem com o avançar dos dias.

E que tal começar já? Com a ajuda das explicações dadas por João Eduardo Rabaça durante uma visita organizada, em junho, neste jardim, aproveite agora para, ao longo do ano, procurar as aves aquáticas do grupo que o professor de Évora apelida de “cinco magníficas”, numa alusão às excursões em grandes parques naturais africanos:

1. Ganso-do-egipto (Alopochen aegyptiaca)

Ganso-do-egipto (Alopochen aegyptiaca). Foto: Diogo Oliveira

Apesar do nome que lhes dão e do seu tamanho, estas aves de origem africana não são consideradas verdadeiros gansos, estando mais próximas dos patos em termos taxonómicos. Introduzido na Europa no século XVII com critérios ornamentais, em Portugal o ganso-do-egipto foi registado pela primeira vez em liberdade em 2002.

Desde então, a presença desta ave em Lisboa e noutras cidades do país tem vindo a aumentar, e hoje está legalmente classificada como espécie invasora. Estas são aves “muito territoriais”, em que “o casal reprodutor expulsa as crias jovens quando estas já são autónomas”, explica João Eduardo Rabaça.

Foi há cerca de uma década, vários anos antes de ganharem o estatuto de espécie invasora, que um casal reprodutor chegou ao Jardim Gulbenkian com o objetivo de ajudar a conter o grande aumento de patos-reais que já então se fazia ali sentir. Sem grande sucesso. Por estes dias de Verão, vêem-se alguns gansos-do-egipto a passear neste espaço verde, mas continuam a ser muitos mais os patos-reais que por aqui se bamboleiam, tanto nos lagos e riachos como nos relvados.

2. Pato-real (Anas platyrhynchos)

Pato-real (Anas platyrhynchos). Foto: Diogo Oliveira

O pato-real é o pato mais comum em Portugal e uma presença certa em muitos dos jardins, desde que tenham um pequeno lago. Mas porque é que há tantas destas aves no Jardim Gulbenkian? Desde logo, adianta o professor da Universidade de Évora, porque neste espaço verde urbano “não há predadores” para esta espécie, mas também porque “habituaram-se a ser alimentados” pelos visitantes. “O alimento natural que aqui existe é suficiente para um ecossistema equilibrado”, nota João Eduardo Rabaça, que alerta que os alimentos processados, como bolachas e pedaços de pão, também “não são saudáveis” para estas aves.

Em vez disso, os patos devem alimentar-se de “vegetação aquática, pequenos moluscos e crustáceos e insetos”. Se acontecer o contrário, “havendo alimento suplementar” fornecido por quem ali passeia, há uma tendência para haver “patos em excesso”. E isto tem consequências para o próprio jardim, como aconteceu há alguns anos: “Mal se semeavam novos talhões de relva os patos iam logo comê-los”, o que fez com que nessa época os relvados estivessem “em mau estado”.

Desde então as coisas melhoraram e muitos dos que visitam o jardim já estão mais bem informados, graças aos apelos para que não se alimentem estas aves, contidos em pequenos cartazes ilustrados colocados em vários pontos do jardim.

3. Galinha-de-água (Gallinula chloropus)

Galinha-de-água (Gallinula chloropus). Foto: Diogo Oliveira

As minúsculas crias da galinha-de-água nem sempre são avistadas no Jardim Gulbenkian, pois são vários os perigos que as espreitam, desde gatos a gaivotas, mas quando acontece, é impossível passarem despercebidas. Estas pequeninas aves irrequietas, sempre a chilrear, passeiam-se ao pé do lago, mas sempre perto da mãe, não vá outro animal mais atrevido apanhá-las para o almoço.

Quanto às galinhas-de-água já adultas são facilmente reconhecidas por quem estiver mais atento: basta reparar nos seus bicos vermelhos e amarelos, afilados, que contrastam com a penugem preta, e nas patas esverdeadas que terminam nuns dedos compridos e espaçados, bem diferentes das patas dos gansos e dos patos. As galinhas-de-água costumam fazer os seus ninhos de forma tosca e bem escondidos de possíveis predadores, tapados pela vegetação.

4. Guarda-rios (Alcedo atthis

Guarda-rios (Alcedo atthis). Foto: Diogo Oliveira

Num momento de sorte, por vezes é possível avistar um guarda-rios, quase sempre de fugida e pelo canto do olho. Quando observada em movimento, esta pequena ave aquática faz lembrar uma flecha azul, tamanha é a velocidade com que voa para caçar as suas presas dentro dos lagos ou dos rios.

No Jardim Gulbenkian, os guarda-rios alimentam-se de pequenos peixes e moluscos, ficando imóveis e praticamente invisíveis no cimo de um papiro ou caniço, enquanto estão à espreita, explica João Eduardo Rabaça. Conseguem “lidar muito bem com a luz polarizada”, o que lhes permite localizarem muito bem onde estão os peixes e outros pequenos animais que pretendem apanhar. No Jardim Gulbenkian estas aves são visitantes ocasionais e ali perto é também possível observá-las no Parque Eduardo VII e na Estufa Fria.

5. Garça-noturna ou goraz (Nycticorax nycticorax)

Garça-noturna ou goraz (Nycticorax nycticorax). Foto: PierreSelim/Wiki Commons


Estas garças conseguem permanecer completamente imóveis por longos momentos, o que torna a sua presença completamente despercebida para quem passa mesmo ali ao seu lado, enquanto aguardam pacientemente que um peixe, rã ou crustáceo mais desprevenido se aproxime da superfície da água. Podem ver-se regularmente neste espaço verde de Lisboa, em especial de Maio a Outubro, e é na época de reprodução que é mais fácil avistá-las também durante o dia, explica o livro “As Aves do Jardim Gulbenkian”, escrito por João Eduardo Rabaça e publicado em 2016.

Tanto aqui como no Jardim da Estrela, as garças-noturnas que se observam têm origem num pequeno grupo de aves desta espécie que nidificam em liberdade no Jardim Zoológico, em Sete Rios, indica também este ornitólogo.


Este artigo insere-se na série “Jardins para a Vida Silvestre”, uma parceria entre a Wilder e a Fundação Calouste Gulbenkian.

Inês Sequeira

Foi com a vontade de decifrar o que me rodeia e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista e que estou, desde 2022, a fazer um mestrado em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Comecei a trabalhar em 1998 na secção de Economia do jornal Público, onde estive 14 anos. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água”. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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