Foto: Joana Bourgard

Porque devemos optar por plantas perenes num jardim?

Neste novo artigo da série “Abra espaço para a natureza”, Carine Azevedo explica-nos o que são afinal plantas perenes e quais os motivos por que as prefere, em detrimento de outras com uma vida mais curta.

Os jardins são espaços que refletem a harmonia entre o homem e a natureza, proporcionando beleza, tranquilidade e um refúgio da rotina diária. Criar um jardim que seja esteticamente agradável e ecologicamente responsável é um dos meus principais objetivos em cada projeto que desenvolvo. Uma das melhores maneiras para alcançar esse equilíbrio é através da utilização de plantas perenes.

As plantas perenes são aquelas que apresentam um ciclo de vida longo, com uma duração superior a dois anos. Caracterizam-se por manter as suas estruturas vegetativas – raízes, caules e folhas – durante todo o ano, mesmo que algumas partes, como as folhas, morram e sejam renovadas periodicamente. Além das árvores, arbustos e uma variedade de plantas herbáceas, também as plantas bolbosas e rizomatosas, que possuem estruturas subterrâneas de reserva, como bolbos e rizomas, são consideradas perenes.

Quais são as vantagens?

Estas plantas oferecem uma série de benefícios que as tornam uma escolha ideal para quem procura um espaço verde bonito e de baixa manutenção.

Desde logo, requerem menos trabalho de manutenção, uma vez que não precisam de ser replantadas todos os anos. Uma vez estabelecidas, continuam a crescer e a florescer, ano após ano, reduzindo significativamente a necessidade de investir na compra regular de novas plantas. Além disso, a maioria é mais resistente a condições adversas, como secas ou geadas, e menos exigentes em fertilizantes e cuidados, resultando numa economia valiosa de recursos.

Murta em floração. Foto: Grey Geezer/Wiki Commons

Outro benefício importante é a conservação de água. Com sistemas radiculares profundos, muitas espécies perenes conseguem aceder à água em camadas mais profundas do solo, diminuindo a necessidade de rega frequente. Isso por sua vez promove a conservação dos recursos hídricos, tornando o jardim mais sustentável e resistente à seca.  Além disso, as raízes profundas e permanentes ajudam a prevenir a erosão do solo, mantendo a sua estrutura e fertilidade ao longo do tempo, e contribuem também para que este tenha uma estrutura saudável.

Rosmaninho. Foto: Joana Bourgard

Estas plantas também desempenham um papel significativo na promoção da biodiversidade e na sustentabilidade do ecossistema. Elas fornecem habitats estáveis para a fauna, oferecendo alimento e abrigo para uma variedade de vida selvagem, incluindo insetos benéficos, aves e outros animais durante todo o ano, contribuindo para manter o equilíbrio natural do jardim e a biodiversidade local. 

Além disso, desempenham um papel importante no apoio aos polinizadores – abelhas, borboletas e outros insetos auxiliares – que são atraídos pelas flores destas plantas e encontram nelas uma fonte constante de néctar e pólen. Plantar de espécies perenes que florescem em diferentes épocas garante um fluxo contínuo de alimento para estes insetos, contribuindo para a saúde e diversidade do ecossistema local. 

Assim, ao criar um ambiente diversificado e equilibrado, as plantas perenes desempenham um papel fundamental na sustentação dos ecossistemas naturais e na promoção de um jardim sustentável.

Plantas perenes nativas

Assim, se queremos criar um jardim sustentável e de baixa manutenção, escolher plantas perenes nativas é uma excelente opção. Estas espécies estão adaptadas ao clima e solo locais, o que lhes permite prosperar com menos intervenção. Com uma ampla variedade disponível, desde árvores de grande porte até herbáceas e bolbosas delicadas, as plantas perenes nativas oferecem uma solução versátil e sustentável para qualquer tipo de jardim. 

Das espécies nativas perenes que tenho no meu pequeno jardim destaco:

Pilriteiro. Foto: Helge Klaus Rieder/Wiki Commons
Bonina. Foto: m.dolores paderne sanchez/Wiki Commons
  • Arruda (Ruta chalepensis)
  • Alecrim (Salvia rosmarinus)
  • Roselha (Cistus crispus)

Mas existem muitas outras espécies nativas perenes que podem ser usadas em espaços verdes, que incluem árvores de pequeno, médio e grande porte, arbustos, herbáceas, bolbosas e rizomatosas:

Dedaleira. Foto: Aimaras/Wiki Commons
Cila. Foto: Xemenendura / Wiki Commons

Esta lista de plantas é apenas uma amostra, pois não incluí todas as espécies nativas perenes de Portugal. Além disso, a distribuição e adaptação das plantas podem variar significativamente de acordo com a região do país devido às diferentes condições climáticas e ambientais. Recomendo a consulta de um especialista em botânica ou de jardinagem local para obter orientações específicas sobre as plantas mais adequadas para cada área. Também pode encontrar informações sobre outras espécies perenes nativas aqui.

Plantas anuais vs. plantas perenes

As plantas anuais, quando comparadas com as plantas perenes, têm algumas desvantagens. As anuais, como o nome indica, completam o seu ciclo de vida numa única estação, e por isso necessitam de ser replantadas todos os anos, o que aumenta o trabalho e os custos. Frequentemente, requerem mais fertilizantes e uma rega constante para manterem o seu vigor ao longo da estação. Além disso, a necessidade de replantio anual pode perturbar o solo e não oferece a mesma estabilidade ecológica que as perenes.

No entanto, as plantas anuais têm a vantagem de permitir alterações na estética do jardim a cada ano, proporcionando flexibilidade e experimentação com diferentes cores e formas. Muitas destas espécies também têm longos períodos de floração, oferecendo cor e interesse visual contínuo durante a estação de crescimento.

Como contribuir para um jardim sustentável

Para maximizar os benefícios das plantas perenes num jardim, é importante planear adequadamente, e por isso a escolha de plantas bem adaptadas à região é fundamental.

Além disso, para melhorar a estrutura do solo, deve incorporar-se matéria orgânica. A utilização de coberturas mortas (‘mulching’) como palhas, cascas de árvores ou até folhas caídas e relva cortada é recomendada para reter a humidade do solo, além de contribuir para reduzir o crescimento de ervas daninhas e proteger as raízes das plantas durante os meses mais quentes. A fertilidade do solo deve ser melhorada sempre que necessário.

Além disso, sistemas de rega eficientes, como a rega gota-a-gota, devem ser adotados para fornecer água diretamente às raízes e reduzir o desperdício. Para manter as plantas saudáveis e promover o seu crescimento contínuo, é aconselhável realizar podas e fertilizações sazonais leves e remover as ervas daninhas que possam surgir e competir com as plantas que pretendemos preservar.

Pervinca. Foto: Luis Fernández García/Wiki Commons

Para além de usarmos espécies nativas e colher todos os seus benefícios, integrar práticas como a compostagem, o controlo natural de pragas, o aproveitamento de água e a minimização do uso de produtos químicos também é essencial para criarmos um jardim verdadeiramente sustentável e equilibrado. 

A compostagem, por exemplo, é uma maneira eficaz de reciclar resíduos orgânicos resultantes da cozinha ou da limpeza do jardim, criando um composto rico em nutrientes para o solo. Aproveitar a água, seja através de sistemas de captação de água da chuva ou de rega eficiente, é essencial para reduzir o consumo de recursos.

Já o controle natural de pragas, incentivando a presença de predadores naturais, é uma abordagem sustentável para manter o equilíbrio ecológico sem recorrer a pesticidas nocivos. Por fim, a minimização do uso de produtos químicos protege a qualidade da água e a saúde dos organismos do solo, contribuindo para um ambiente mais saudável e equilibrado. 

Jardins em varanda

As espécies perenes também são uma excelente escolha para jardins em varandas e outros espaços pequenos, como terraços ou pequenos pátios, transformando estes espaços em verdadeiros oásis. Estas plantas são particularmente adequadas para estes ambientes devido à sua resistência e baixa manutenção.

Erva-cidreira. Foto: Bff/Wiki Commons

Devemos ter o cuidado de escolher os vasos e floreiras mais adequados para cada tipo de planta, garantindo uma boa drenagem e suficiente espaço para as raízes se desenvolverem. 

Entre as plantas perenes que se adaptam bem a recipientes, temos, por exemplo, o alecrim (Salvia rosmarinus), a carvalhinha (Teucrium chamaedrys), o cebolinho (Allium schoenoprasum), a erva-cidreira (Melissa officinalis), o marcetão (Santolina rosmarinifolia) e o rosmaninho (Lavandula stoechas). Além disso, também pode considerar-se o uso de plantas verticais ou trepadeiras perenes, como a hera (Hedera helix), para maximizar o uso do espaço vertical.

Já publiquei anteriormente alguns textos que ajudarão a criar um jardim num apartamento com plantas aromáticas e com plantas insectívoras e jardins verticais.

Foto: Cherry Laithang/Unsplash

Com escolhas conscientes e informadas, podemos criar um jardim ecológico e encantador, que proporcionará uma beleza duradoura e também promoverá a sustentabilidade ambiental e a harmonia com a natureza. 

Na série “Abra espaço para a natureza” encontrará mais alguma informação que ajudará na escolha das espécies e nos cuidados a ter com as suas plantas. E se explorar a série “O que procurar: espécies botânicas”, irá encontrar um vasto leque de espécies nativas que se poderão adequar às diferentes condições do seu jardim.

Aproveite para partilhar as fotos do seu jardim nas redes sociais com #jardimtemático e no Instagram, comigo (@biodiversityinportuguese) e com a Wilder (@wilder_mag).


Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

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