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Já podemos descobrir as fantásticas tartarugas-marinhas da África Ocidental

18.05.2026
leitura de 5 minutos
Colocando um emissor satélite numa tartaruga-verde, na Guiné-Bissau. Foto: Miguel Varela

Livro coordenado por investigador português, disponível gratuitamente, dá-nos a conhecer as tartarugas-marinhas que desovam nas praias de Cabo Verde, Guiné-Bissau e outros países da costa ocidental africana, e o trabalho de investigação e conservação que as envolve.

“Num céu de nuvens carregadas, há uma réstia de luz e relâmpagos no horizonte. O oceano marulha sem sobressaltos. Na praia pouco se vê, mas sobre a areia clara moldam-se rastos na cauda de rochas negras em movimento lento: são tartarugas.”

Começamos por ler a introdução do novo livro “Tartarugas Marinhas da África Ocidental” e, sem darmos por isso, sentimo-nos também nós à espreita numa praia distante, agarrados ao mundo destes animais fascinantes e das suas breves idas a terra para desovar, e espantados com o pouco que sabemos sobre essas criaturas. É que afinal, “[…] as lentas tartarugas, quando estão no seu meio, são vivas e atentas, olham e nada lhes escapa, rápidas quando querem, voam sob as ondas, gráceis”, esclarecem-nos as primeiras páginas desta obra lançada em português, e também inglês e francês, disponível gratuitamente em formato digital.

Capa do novo livro

Coordenado por Paulo Catry, investigador e professor ligado ao MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e ao Ispa – Instituto Universitário, este livro contou com muitos outros co-autores, todos eles cientistas e conservacionistas que trabalham com tartarugas marinhas nos sete países abrangidos pela Parceria Regional para a Conservação da Zona Costeira e Marinha da África Ocidental (PRCM) – uma vasta área que se estende da Mauritânia à Serra Leoa e passa por Cabo Verde e Guiné-Bissau, além do Senegal, Gâmbia e Guiné.

Aqui, nidificam cinco das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no mundo: a tartaruga-comum (Caretta caretta), a tartaruga-verde (Chelonia mydas), a ameaçada tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), a tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), esta última “um dos maiores répteis atualmente existentes no planeta”.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) a escavar o ninho, em Poilão. Foto: Paulo Catry

É sobre essas tartarugas e a sua biologia, os desafios que enfrentam e muitas outras matérias, que escrevem estes autores, mas sem tropeçar em palavras só usadas por cientistas – até porque o objetivo é alcançar um leque variado de públicos e de interesses: “Este livro quer chegar um pouco a toda a gente, desde o cidadão com curiosidade sobre história natural aos investigadores e professores que acompanham estas áreas”, explica Paulo Catry.

Outra das ambições foi fazer o retrato do conhecimento atual sobre estas espécies de tartarugas-marinhas, incluindo as descobertas científicas mais recentes. “Trata-se de informação que tem andado um pouco dispersa em vários artigos científicos. Aqui, passa a estar disponível de uma forma mais sistematizada e acessível”, diz também o coordenador. Embora com algumas pausas pelo meio, há quase 30 anos que este investigador estuda as tartarugas-marinhas da África Ocidental, em especial aquelas que desovam na Guiné-Bissau.

Rastos de tartarugas-marinhas, em Poilão. Foto: Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas – Guiné-Bissau

Entre textos e mapas, ilustrações e muitas fotografias, podemos ler também sobre os aspetos que fazem destes animais seres “extraordinários e únicos”. Apenas dois exemplos, entre vários apontados: os machos passam todo tempo no mar, desde que deixam o ninho e entram pela primeira vez no oceano; as fêmeas, mais de 99,9% da vida. E fazem grandes migrações, atravessando o Atlântico mas também oceanos maiores, em rotas que são cada vez mais estudadas e conhecidas.

“Já começa a haver muita informação sobre a migração de tartarugas, ligando esta costa ocidental africana ao continente americano, especialmente à América do Sul. Algumas chegam ao Mediterrâneo”, diz Paulo Catry. “Isto mostra, mais uma vez, que está tudo ligado e que não são apenas as aves que fazem migrações, até porque as rotas das tartarugas são bastante diferentes: costumam fazer-se de Leste para Oeste ou no sentido oposto, enquanto que as aves se deslocam entre o Norte e o Sul.”

Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata). Foto: Paulo Catry

Ficamos também a conhecer o risco de extinção de cada uma das cinco espécies da costa africana ocidental. A bonita tartaruga-de-pente, por exemplo, foi durante muito tempo perseguida (e morta) devido ao aproveitamento das suas escamas para o fabrico de muitos objetos, antes de começarem a ser substituídas por plásticos e por outros materiais sintéticos. Hoje, é uma nidificante muito rara nesta região do mundo, onde os investigadores acreditam que se encontra Criticamente em Perigo.

Entre as maiores ameaças que hoje pesam sobre esta e outras espécies, estão a pesca acidental e as alterações climáticas, com o aquecimento das águas e a subida dos níveis do mar, que pode vir a submergir os locais de desova.

Cabo Verde e Guiné-Bissau

No que respeita ao público português, além de satisfazer os mais curiosos ou interessados nestes animais marinhos, o novo livro tem um atrativo adicional para quem gosta de viajar. Cabo Verde, por exemplo, recebe hoje muitos turistas portugueses, incluindo aqueles que aproveitam para observar as tartarugas marinhas, nota Paulo Catry. O arquipélago é especialmente valioso para a tartaruga-comum (Caretta caretta), que na África Ocidental desova regularmente apenas nestas ilhas de língua oficial portuguesa.

Tartaruga-comum (Caretta caretta) na lha de Santa Luzia, Cabo Verde. Foto: Paulo Catry

Já na Guiné-Bissau, ficamos a saber também durante a leitura, há uma pequena ilha arenosa situada no arquipélago das Bijagós, a ilha (ou ilhéu) de Poilão, que é preciosa para as tartarugas-verdes (Chelonia mydas). De facto, trata-se do mais importante local de desova em toda a África para esta tartaruga de grande porte (pode pesar de 200 a 300 quilos), e também o terceiro maior local de desova desta espécie a nível mundial.

Ilhéu de Poilão, no arquipélago das Bijagós. Foto: Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas – Guiné-Bissau

E onde será mais fácil observarmos tartarugas? “Nas ilhas da Boavista e do Maio, em Cabo Verde”, responde o investigador. Aí, já existe “uma pequena indústria de observação de tartarugas com guias, que vão ver estes animais desovar à noite e visitar centros de conservação”. Alguns projetos de conservação também recebem voluntários.

Mais adiantados que na Europa

As ações de conservação dedicadas às tartarugas-marinhas, em cada um dos sete países da PCRM, são precisamente outro dos temas tratados neste livro.

De facto, do ponto de vista do engajamento, é interessante o que estão a conseguir algumas dessas iniciativas, comenta Paulo Catry, que destaca o trabalho do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP), na Guiné-Bissau, e do Parque Nacional do Banc d’Argan, na Mauritânia. “Por vezes, em certos aspetos, alguns países até estão mais adiantados do que na Europa, como acontece com a criação e o controlo da pesca em áreas marinhas protegidas”, explica.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas) com um emissor, para ser possível monitorizar os seus movimentos. Foto: Paulo Catry

Quanto ao trabalho de Paulo Catry e da equipa a que pertence com as tartarugas-marinhas, cresceu bastante na última década. Além da Guiné-Bissau já têm trabalhado também na Mauritânia ou no Senegal, pois como explica o investigador do MARE e do Ispa, “as ‘nossas’ tartarugas fazem migrações, e nós vamos seguindo os destinos para onde se deslocam”. Todos os anos, esse estudo tem sido feito graças à ajuda de pequenos emissores GPS com ligação por satélite transportados por alguns destes animais, e suportado por financiamento internacional.

Dentro de aguns meses, em agosto, é possível que esta equipa esteja de regresso à África Ocidental, a tempo de participar nas contagens das muitas tartarugas que nessa altura do ano chegam às praias de Poilão para desovar. E talvez se repitam, uma vez mais, as boas notícias destes últimos anos, relativas ao aumento do número de tartarugas-verdes (e de tartarugas-comuns em Cabo Verde, também). Entre outras causas, os investigadores acreditam que pelo menos em parte, esses resultados animadores podem dever-se aos esforços de conservação.


Saiba mais.

Recorde as crónicas publicadas por Paulo Catry na Wilder, incluindo os textos onde nos deu a conhecer o trabalho realizado com tartarugas marinhas, aqui e aqui.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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