Quinze íbis-eremitas juvenis chegaram a Cádis depois de uma viagem de 2500 quilómetros, guiados por uma equipa em paramotor. A operação faz parte de um projeto europeu para criar uma rota migratória entre a Europa Central e a Andaluzia e reforçar a recuperação de uma das aves mais ameaçadas da Europa.
Quinze jovens íbis-eremitas (Geronticus eremita) chegaram a 2 de outubro a San Ambrosio, em Barbate, na província espanhola de Cádis, depois de percorrerem cerca de 2500 quilómetros desde a Alemanha.
Segundo a Junta da Andaluzia, a viagem foi feita sob a orientação de uma equipa que acompanhou as aves em paramotor, numa operação destinada a ensinar-lhes uma rota migratória que poderão vir a repetir sozinhas.
Os juvenis são provenientes da colónia do Tierpark Rosegg, na Áustria, e iniciaram a viagem a 18 de agosto, a partir do aeródromo de Binningen, em Hilzingen, na Alemanha. Depois de cerca de duas semanas de aclimatação em San Ambrosio, deverão começar a adaptar-se ao ambiente de Cádis.
A viagem integra uma iniciativa europeia que junta o Projeto Eremita, desenvolvido pela Junta da Andaluzia e pelo Zoobotánico de Jerez, e o programa europeu LIFE Northern Bald Ibis. O objetivo é criar uma ligação migratória entre a população de íbis-eremita da Europa Central e a população existente no sul de Espanha, criando simultaneamente novos locais seguros para estas aves passarem o inverno.
A operação começou com 30 juvenis. Quinze foram recebidos a 13 de setembro pela Fundação Alive, em Girona, na Catalunha, onde deverão contribuir para o estabelecimento de uma população intermédia entre a Europa Central e Cádis. Os restantes prosseguiram viagem em direção a Valência, entrando depois na Andaluzia por Jaén até chegarem a Barbate.
Para aprenderem a rota, as aves são acompanhadas desde pequenas por cuidadoras que desempenham o papel de mães adotivas. O treino e a migração são realizados no âmbito do programa desenvolvido pela Waldrappteam Conservation & Research, dirigido por Johannes Fritz.
“A chegada destas aves reflecte aquilo que a colaboração entre administrações, equipas científicas e entidades conservacionistas pode conseguir quando se mantém no tempo”, comentou, em comunicado a conselheira para a Sustentabilidade e Meio Ambiente da Junta da Andaluzia, Fina Martínez.
A responsável lembrou que “a Andaluzia tem mais de 20 anos de experiência e uma população selvagem que está a ajudar a abrir novas oportunidades para a recuperação da íbis-eremita em outros territórios”.
Uma espécie quase desaparecida da Europa
O íbis-eremita, actualmente classificada como espécie Em Perigo de extinção pela Lista Vermelha da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), desapareceu de grande parte da sua antiga área de distribuição. No passado, esta espécie distribuía-se pelo Norte de África, sul da Europa e leste da Ásia. Chegou inclusivamente a reproduzir-se na Europa Central, nomeadamente na Áustria, Hungria e Suíça, até ao século XVIII.
Atualmente, as populações selvagens são muito mais reduzidas. A principal população encontra-se no sudoeste de Marrocos, nas proximidades de Agadir. Existem ainda populações muito pequenas na Síria, no deserto de Palmira, e na Turquia, em Birecik.
Em Espanha, a recuperação da espécie começou com o Projeto Eremita, lançado em 2003 na província de Cádis. O projeto recorreu a aves criadas em cativeiro para estabelecer uma população reprodutora em liberdade. Desde então, vários casais começaram a reproduzir-se e já nasceram aves em liberdade.
A população, contudo, ainda não é totalmente autossuficiente. A elevada mortalidade dos juvenis durante o primeiro ano de vida obriga a continuar a reforçá-la com indivíduos criados em cativeiro.
Em 2021, eram estimados 129 íbis-eremitas em Espanha. Desde então, a população de Cádis continuou a crescer.
A recuperação da íbis-eremita em Espanha está agora a entrar numa nova fase, que passa não só pelo reforço da população existente, mas também pela criação de novos núcleos.
Em Medina Sidonia está previsto uma nova zona de libertação na propriedade Poca Sangre, pertencente à Iberdrola. Com cerca de 1200 hectares, a propriedade inclui espaços abertos e habitats considerados adequados à alimentação dos íbis-eremitas.
O projeto dispõe de mais de 90.000 euros de financiamento, provenientes de medidas de compensação associadas às instalações de energias renováveis do grupo na Andaluzia.
Está prevista a construção de uma jaula de aclimatação onde serão aclimatados entre 25 e 30 juvenis provenientes de jardins zoológicos europeus antes da sua libertação gradual. O projeto inclui ainda a instalação de caixas-ninho e medidas de proteção nas linhas elétricas, uma das formas de reduzir o risco de acidentes.
As aves serão marcadas com anilhas e dispositivos GPS, permitindo acompanhar os seus movimentos e perceber se conseguem integrar-se no ambiente envolvente.
A aposta é de longo prazo: transformar populações criadas e treinadas por humanos em núcleos selvagens capazes de sobreviver e reproduzir-se por si próprios.
No caso de uma espécie que desapareceu como reprodutora de grande parte da Europa, cada nova colónia representa mais uma possibilidade de regressar a territórios onde o seu voo deixou de ser visto há séculos.