Depois de “Casa” (2020) e de “Aires e Candeeiros: Campo de Orquídeas Silvestres” (2023), o novo livro de Luís Afonso é uma porta de entrada para o mundo deste fotógrafo e para a forma como pensa as paisagens e o mundo natural em redor.
Entre fotos e textos, visitamos os momentos mais importantes dos 20 anos de fotografia de paisagens e natureza que Luís Afonso festeja em 2026. Por exemplo, viajamos da praia da Malhada, em Sintra, para Terras de Bouro, damos um pulo a Santana, na Madeira, e umas páginas depois chegamos à paisagem líquida e dourada do Paul do Boquilobo na época das chuvas, mas antes já tínhamos passado por uma tímida rã-ibérica, nas margens do Côa (Sabugal), e por um pernilongo nas salinas do Grelha, em Olhão.
No total, são 60 fotografias, quase todas em grande plano, que retratam sobretudo paisagens e pedaços de natureza que podemos encontrar em Portugal e Espanha. Mas tão importantes como as imagens são as crónicas que as acompanham, que lhes acrescentam uma outra camada criada pela voz e histórias do autor.

Ainda assim, não se trata de uma cronologia, sublinhou Luís Afonso no lançamento do livro, em Lisboa, explicando que se esforçou para pôr de lado a tendência que tem para organizar de forma muito estruturada todos os seus projetos criativos. Nesta que é até hoje a sua obra mais pessoal, quis fugir à tradição.
Para nos inspirar a navegar livremente por estas 248 páginas com a mesma atitude com que lemos “um livro de poesia ou de ensaios”, textos e fotografias não seguem uma ordem cronológica nem estão agrupados por capítulos, e não existe um índice ou um marcador. “Pode-se começar pelo princípio, ler ao calhas, fazer-se o que se quer, tal como fazemos quando lemos poesia”, sugeriu o autor e formador de fotografia enquanto falava numa sala cheia de amigos, alunos, família e seguidores – isto no mesmo dia e hora em que Portugal se estreou no Mundial.

Por outro lado, também não se trata de um “best of” dos últimos 20 anos ou de uma antologia. “Estas 60 fotografias dizem-me algo que muitas outras, eventualmente mais “perfeitas” do ponto de vista técnico ou expressivo, não dizem: falam de momentos de viragem”, sublinhou alguns dias depois, questionado pela Wilder.
“O critério principal foi outro: o que é que esta imagem me ensinou, ou o que é que ela marca em termos de evolução de olhar, de decisão ou de relação com o lugar. O que estas imagens me permitem partilhar com os outros que os ajude a fazer o seu próprio percurso.”

Já os textos que acompanham cada foto contam “histórias que ligam decisões de escrita fotográfica e decisões de pertença e de caminho, porque toda a criação é uma expressão daquilo que somos, do que nos move e daquilo que queremos dizer ao mundo”, acrescenta no texto de introdução. [Nalguns casos, uma segunda fotografia mais pequena complementa o que está escrito.]
“Na realidade, as fotografias funcionam como ponto de partida – quase como pretexto – para contar o que está por trás delas: decisões, dúvidas, aprendizagens e mudanças de abordagem ao longo do tempo”, complementa o autor. “São elas que sustentam o relato de um percurso em construção, mais do que um percurso concluído.”
Seguimos o conselho de há pouco e abrimos o livro ao acaso. Deparamo-nos com uma árvore solitária em primeiro plano, os ramos quase despidos numa planície pontuada por grandes calhaus esbranquiçados e ervas douradas e secas. Um céu carregado de nuvens escuras cobre este pedaço do planalto de Santo António, onde o autor aprendeu quase tudo o que sabe sobre natureza e fotografia, explica-nos nas duas páginas que se seguem a esta imagem captada em 2018 em Porto de Mós, com o título “Resiliência II”. De facto, descobriremos depois, esta é uma das imagens preferidas de Luís Afonso.

Vamos depois ao encontro de outra foto favorita, uma ode à simplicidade registada em São Pedro do Sul: “um ramo pendente de uma bétula no final do outono”, enfeitado por algumas pequenas folhas amarelas que identificam esta época do ano, explica o autor.
Algumas páginas atrás, “Alien” é o título da crónica que acompanha uma outra fotografia, esta abstrata, algo que Luís Afonso adora fazer mas que reconhece como “o patinho feio das artes visuais”. Captada no Rio Tinto, em Berrocal (Huelva, Espanha), local que quando se visita “é como entrar num cenário de fantasia”.

Decidimos então retroceder até à primeira crónica e deparamos com a primeira fotografia de natureza, a “primogénita” do arquivo de Luís Afonso, tirada em março de 2006, numa “tarde de revelações” passada em Sintra, na Malhada do Louriçal.
“Este livro é uma espécie de manual esquizofrénico sobre o autor, porque ficamos com quase todas as dúvidas esclarecidas sobre o Luís Afonso, mas é uma esquizofrenia boa”, afiança Rúben Neves, amigo e também fotógrafo, que escreveu o prefácio e acompanhou a construção da obra desde o início.
E assim, enquanto deambulamos entre imagens e textos, entramos na cabeça de Luís Afonso e ficamos a saber o que ali acontece quando este pensa uma determinada imagem. Que histórias entreviu? O que nos quis contar o fotógrafo? Está tudo nestas páginas.

“Ser Criativo – Vinte anos de Fotografia de Natureza”
Fotografias e texto: Luís Afonso
Preço: 35 euros
Saber mais.
Conheça mais sobre o novo livro de Luís Afonso, “Ser Criativo”, e sobre este fotógrafo, aqui e aqui.