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Estamos todos convidados a fotografar os cogumelos da cidade

10.12.2025
leitura de 3 minutos
Foto: Susana Cunha

Em canteiros, jardins, velhas árvores e terrenos baldios, participe nesta campanha europeia de ciência cidadã, que quer conhecer e divulgar os cogumelos urbanos.

A campanha “Missão: Cogumelos Urbanos” desafia quem habita em vilas e cidades a procurar e fotografar cogumelos e a disponibilizar essas imagens para que possam ser identificadas e os resultados utilizados em estudos científicos.

Coordenada por Susana Gonçalves, que lidera o laboratório MyCoLAB (Universidade de Coimbra), a nova iniciativa está ligada ao projeto FunDive, que é financiado por fundos comunitários e junta 120 cientistas ligados a mais de 40 universidades, laboratórios e outras unidades de investigação, de 24 países. Inspira-se na campanha Cogumelos na Cidade, lançada no final de 2018 e focada na cidade de Coimbra, mas realiza-se a uma escala muito mais vasta: o objetivo é mapear a diversidade de cogumelos urbanos na Europa, ajudando também a que mais pessoas se apercebam da existência e importância dos fungos. Para muitos destes, os cogumelos são uma parte importante da sua reprodução.

Gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber). Foto: Susana C. Gonçalves / Biodiversity4All

Quem quiser participar, pode fazê-lo através da plataforma iNaturalist/Biodiversity4All (ou na app com o mesmo nome), registando-se e inserindo as suas fotografias de cogumelos urbanos na página da campanha, seguindo as instruções. Desde 15 de setembro até agora, foram registadas 7420 observações de cogumelos urbanos por 1026 observadores, que resultaram na identificação de possivelmente 888 espécies de fungos. Destas, estão para já validadas 363 espécies, que correspondem a 1528 observações – incluindo 72 espécies diferentes em localidades portuguesas.

Cogumelo Helvella solitaria. Foto: Susana C. Gonçalves / Biodiversity4All

“A biodiversidade urbana é o primeiro ponto de contacto de muitas pessoas com a natureza”, nota Susana Gonçalves, para quem as zonas urbanizadas, apesar de afetarem negativamente a biodiversidade, albergam ecossistemas que podem ser “surpreendentemente notáveis”. Outra razão para esta campanha é que os cogumelos são “elementos notáveis da paisagem urbana”, são “visíveis e atrativos” – explica a mesma responsável – o que os torna muito interessantes para campanhas de ciência cidadã. Por fim, os resultados desta iniciativa “podem influenciar políticas locais de biodiversidade”.

Grupo de cogumelos. Foto: Susana Cunha

Além de colocarem os cogumelos e os fungos no mapa europeu, os investigadores querem testar algumas hipóteses científicas. Por exemplo, será que as cidades na Europa são dominadas por um grupo de fungos cosmopolitas que são comuns a todas elas, devido às condições semelhantes que podemos encontrar em meio urbano, de país para país? E será que as cidades com mais espaços naturais e com mais vegetação autóctone são mais ricas e biodiversas no que respeita aos cogumelos? As respostas a estas e outras questões vão receber ajuda dos resultados obtidos nesta época de outono/inverno e nas épocas de primavera e de outono/inverno do próximo ano.

Dicas para tirar boas fotos de identificação

No entanto, muitas vezes não é fácil reconhecer uma espécie de cogumelo apenas através de fotografias, em especial se estas forem tiradas sem determinados cuidados. Para ajudar com essa tarefa, Susana Gonçalves e Susana Cunha, estudante de doutoramento no Centro de Ecologia Funcional (Universidade de Coimbra), dão algumas pistas, num ‘flyer’ da campanha, sobre o que devemos fazer:

  • Certifique-se de que as fotografias ficam bem focadas e iluminadas, mas evite o uso do flash;
  • Procure que o cogumelo fique relativamente grande na imagem, para que os detalhes possam ser claramente visualizados;
  • Utilize um objeto para fazer escala, como por exemplo uma moeda escura, colocando-o junto ao cogumelo para também aparecer na fotografia;
  • Fotografe todas as características morfológicas relevantes, como o chapéu e respetiva parte inferior (superfície com poros/lamelas) e também o pé do cogumelo, incluindo a base do mesmo;
  • Documente quaisquer alterações de cores ou exsudação (libertação de um líquido), depois de cortar o cogumelo;
  • Nas imagens mostre o cogumelo in situ (no local onde foi encontrado) e inclua o seu hospedeiro ou substrato. Por exemplo, se crescer sob uma determinada árvore, mostre a folha ou agulhas da mesma, ou então tire uma fotografia em separado;
  • Fotografe os esporos, se os encontrar depositados sobre folhas ou outros cogumelos;
  • Nas suas notas, adicione detalhes que não podem ser capturados em fotografia, como um odor, sabor ou textura que sejam distintos.

Quem pretender ir mais longe, poderá cortar pelo pé o cogumelo que fotografou e secá-lo em seguida com o ar quente de um secador, guardando-o num pequeno saco de plástico hermético. Pode ser que os cientistas do projeto lhe peçam para enviar esse exemplar, para em laboratório sequenciarem o ADN e conhecerem a fundo essa espécie.


Agora é a sua vez.

Para participar nesta campanha de ciência cidadã, procure por exemplo estes seis cogumelos urbanos, que podem ser observados em cidades e vilas durante o inverno. E participe também numa outra campanha dedicada aos cogumelos que são potencialmente invasores a nível europeu, ajudando a encontrar seis espécies.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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