Fungos micorrízicos observados por um microscópio Morrison. A imagem original é a preto e branco. Foto: Tomas Munita

Cientistas mapeiam as vastas e importantes redes de fungos que vivem sob os nossos pés

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Cerca de mil milhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol. É esse o tamanho total das redes de fungos micorrízicos que percorrem o subsolo da Terra, estima um novo estudo. Investigadores desenharam os primeiros mapas dessas gigantescas estruturas.

São muito pouco faladas e quase sempre ignoradas, mas as redes subterrâneas formadas pelos fungos micorrízicos, que percorrem uma boa parte do subsolo debaixo dos nossos pés, asseguram a vida das plantas e ajudam a regular o clima do planeta.

Simulação da estrutura de uma rede subterrânea de fungos micorrízicos. Vídeo: D.R./SPUN

Num estudo publicado esta semana pela Science, uma equipa internacional de 24 cientistas divulgou os primeiros mapas globais que estimam a distribuição e a massa destas redes, dando a conhecer como têm uma dimensão incrível. A nova informação publicada permite também entender em que locais estão mais ameaçadas ou em melhores condições, contribuindo para a tomada de decisões políticas quanto à conservação da biodiversidade.

“É difícil sobrestimar a importância e a enormidade destes fungos”, afirmou o primeiro autor do estudo, Justin Stewart, ligado à Sociedade para a Proteção das Redes Subterrâneas (SPUN), num comunicado desta entidade. “Podemos encontrar até 10 metros de rede micorrízica contidos numa colher de chá de solo.”

Os boletos são cogumelos muitas vezes associados a fungos micorrízicos. Foto: Holger Krisp/Wiki Commons

Na base destas estruturas está um grupo de fungos conhecidos por fungos micorrízicos arbusculares, que formam relações simbióticas com cerca de 70% das plantas do planeta, ou seja, com benefícios para as duas partes: os fungos fornecem nutrientes e água a estas plantas, enquanto que por sua vez recebem carbono produzido por elas.

Alguns dos cogumelos que encontramos em Portugal, como os boletos e os cantarelos, são aliás os sinais visíveis de estruturas subterrâneas associadas aos fungos micorrízicos e a plantas folhosas como os carvalhos, explicou à Wilder a investigadora Susana Gonçalves, num artigo sobre o que todos podemos fazer para assegurar a biodiversidade de fungos num espaço verde.

É através dessas redes no subsolo que se deslocam uma parte da água, do carbono e dos nutrientes. Calcula-se que em solos saudáveis, a sua presença multiplica até 100 vezes a capacidade que as raízes de plantas têm para encontrar alimento, fornecendo-lhes ao mesmo tempo mais de 80% do fósforo.

Fluxo de carbono tornado fluorescente, dentro de uma estrutura de fungos micorrízicos. Vídeo: Rachael Cargill, Loreto Oyarte Gálvez (VU Amsterdam, AMOLF) & Justin Magness

“Como engenheiras de ecossistemas, estas redes formam uma infraestrutura viva crítica, que capta carbono para os solos e suporta muita da vida na Terra”, detalha também a SPUN, fundada em 2021 para o estudo científico e a proteção desta parte da biodiversidade terrestre.

Contas feitas, a equipa de cientistas estima que os solos por toda a Terra contêm cerca de 110.000 biliões de quilómetros de redes fúngicas micorrízicas arbusculares, formadas por umas células em torma de tubo, muitíssimo finas, conhecidas como hifas. Para termos uma ideia da escala imensa desse número, se esticarmos todas estas redes subterrâneas formando um longo caminho com elas, o percurso resultante será igual à distância entre a Terra e o Sol multiplicada quase 1000 milhões de vezes.

Fungos micorrízicos observados num microscópico Morrison, no AMOLF Instituto de Materiais Complexos, em Amesterdão. As estruturas circulares são os esporos. A imagem original é a preto e branco, mas a cor foi alterada para melhor compreensão. Foto: Tomas Munita

Pastagens naturais e grandes áreas agrícolas

Além da importância que têm para a vida da maioria das plantas, estas infraestruturas transportam anualmente cerca de 4000 milhões de dióxido de carbono para os solos – o equivalente a 11% das emissões humanas deste gás de estufa – indicam também os investigadores.

É nos ecossistemas de pastagens naturais, incluindo prados e pradarias, que estas redes formadas por hifas estão mais presentes, conclui também o mesmo estudo. Aqui, abriga-se cerca de 40% da biomassa mundial de estruturas de fungos micorrízicos arbusculares – com destaque para as savanas inundadas do sul do Sudão, a região das Everglades, na Flórida, ou o planalto do Tibete, onde aquelas estão presentes numa densidade “excecionalmente elevada”, estimam os investigadores.

Uma das investigadoras da equipa, em trabalho de campo no Butão. Foto: D.R.

Apesar disso, estes ecossistemas encontram-se entre os menos protegidos do planeta, transformados em terras de cultivo quatro vezes mais depressa do que as florestas, concluiu um estudo recente.

Em contrapartida, nas grandes áreas agrícolas, estima-se que a densidade destas redes será em média cerca de 50% mais baixa. “É necessário mais trabalho para ligar práticas agrícolas específicas à saúde micorrízica”, acrescenta a SPUN, mas “os cientistas preocupam-se que redes menos densas diminuam a capacidade de um solo para armazenar carbono, assegurar os ciclos de nutrientes e resistir ao stress.”

“Ignorados há demasiado tempo”

“Os fungos têm sido ignorados nas áreas do clima e da conservação há demasiado tempo”, considera Toby Kiers, diretora executiva da SPUN, que recebeu em 2026 um dos mais importantes prémios internacionais na área do Ambiente, o Tyler Prize, pela sua investigação ligada às simbioses entre plantas e fungos.

“Os fungos micorrízicos moldam a vida na Terra há milhões de anos, mas anda sabemos muito pouco sobre como é que a infraestrutura destes sistemas vivos de transporte está distribuída por todo o planeta”, nota Merlin Sheldrake, co-autor do novo estudo e biólogo.

“Este estudo é um passo excitante para compreendermos como é que este sistema circulatório planetário opera e para sugerirmos formas de trabalhar melhor com os fungos, para ajudarmos a lidar com muitos dos desafios dos nossos tempos, da segurança alimentar às alterações climáticas.”

As montanhas do Peru foram um dos muitos locais do mundo cujo solo foi analisado, em busca de fungos micorrízicos. Foto: D.R.

O estudo agora publicado, além de traduzir em números estas vastas redes de fungos, aponta também os locais do planeta onde é necessária mais investigação. Para que fosse realizado, a equipa juntou dados sobre a densidade destas estruturas em mais de 16.000 amostras de solo que foram recolhidas por todo o planeta.

Foram depois desenvolvidos modelos de ‘machine learning’, que incorporaram várias camadas de dados relativos a desertos, tundras e florestas, para estimar a densidade das redes fúngicas em ecossistemas cujo solo não tinha sido analisado.

Em julho de 2025, os investigadores tinham publicado um outro estudo, na revista Nature, com análises de diversos padrões de comunidades destes fungos micorrízicos e um Atlas Subterrâneo, para auxiliar os decisores políticos a localizarem hotsposts de biodiversidade no subsolo.


Agora é a sua vez.

Recorde como é que cada um de nós pode contribuir para a conservação da biodiversidade de cogumelos e outros fungos num espaço verde, aqui. E já agora, sabe como é que os cogumelos se reproduzem?

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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