A campanha de ciência cidadã “Eyes on Alien Mushrooms” quer seguir o rasto a essas espécies, por toda a Europa. Susana Gonçalves, coordenadora, explicou à Wilder os cuidados a ter para travarmos a propagação destes fungos que podem ser problemáticos para a biodiversidade.
Esta iniciativa está ligada ao projeto FunDive, que é financiado por fundos comunitários e junta 120 cientistas ligados a mais de 40 universidades, laboratórios e outras unidades de investigação, de 24 países. O objetivo é “colocar a biodiversidade dos fungos no mapa, para melhorar os esforços de conservação a nível europeu”, explica a página online do projeto.
No caso desta campanha de ciência cidadã, realizada na plataforma iNaturalist, foram definidas seis espécies-alvo de macrofungos potencialmente invasores, ou seja, que estão presentes em territórios fora da sua área nativa de distribuição, onde poderão ser um grande risco para a biodiversidade local. Destas seis, “só a espécie Aureoboletus projectellus é que não estou a contar que apareça no território português”, alertou Susana Gonçalves, que lidera também o laboratório MyCoLAB, dedicado à investigação sobre fungos e ligado à Universidade de Coimbra.
Assim, tanto neste outono/inverno como na mesma época do próximo ano, em 2026, o objetivo é conseguir o máximo possível de registos – incluindo em Portugal – destas seis espécies:
1. Cogumelo-ostra-dourado (Pleurotus citrinopileatus)

Estes cogumelos de origem asiática são hoje em dia vendidos em Portugal, em kits para serem cultivados em casa, o que aumenta fortemente o risco de escaparem do cultivo para a natureza. Aí estabelecidos, Susana Gonçalves teme que causem problemas graves, semelhantes aos que foram já detetados nos Estados Unidos. “Na Europa já temos algumas observações na natureza, mas temos esperança de que seja possível evitar que se espalhem mais”, afirma esta responsável, que apela a que as empresas apostem em alternativas. Até porque em Portugal existe na natureza um cogumelo nativo, comestível, que pertence ao mesmo género dos cogumelos-ostra-dourados: o Pleurotus ostreatus, também chamado de repolga.
2. Favolaschia claudopus



Este cogumelo de cor amarela ou laranja, de aspeto poroso, habita na madeira das árvores. Foi observado pela primeira vez em Madagáscar. Tem sido detetado como invasor em vários países do mundo, incluindo Itália, Espanha e Portugal.
3. Stereum illudens

“Está associado a madeira de eucalipto, deve ter sido assim que chegou a Portugal”, explica a coordenadora do MyCoLAB. “Queremos perceber por onde anda.”
4. Clathrus archeri

Conhecida também em inglês por “dedos do diabo”, devido ao seu estranho formato, esta espécie de fungo está presente em Portugal, nomeadamente mais a norte.
5. Leratiomyces ceres

Observado de norte a sul do país e nos Açores e Madeira, no âmbito desta campanha de ciência cidadã, este cogumelo já foi identificado também no consultório “Que Espécie é Esta?”, fotografado por Darya Sevastópolska na serra de Sintra. No Brasil, chamam-lhe chapéuzinho-vermelho, devido à cor encarnada do chapéu.
6. Aureoboletus projectellus

Esta espécie está associada como invasora ao Leste da Europa. Em Portugal, a sua presença não é conhecida.
“Uma ameaça para as espécies nativas”
“Ouve-se falar mais de fungos invasores patogénicos (causadores de doenças), como aqueles que dizimam os anfíbios, pois têm efeitos que são mais notórios”, refere Susana Gonçalves, que nota que todavia “existem muitos macrofungos invasores não patogénicos que são disseminados inadvertidamente através da importação de madeiras exóticas, ou de propósito porque se cultivam para serem consumidos”, e que são também eles muito problemáticos.
Uma análise realizada permitiu concluir que “as espécies invasoras de fungos são uma ameaça para as espécies nativas, desde logo porque competem pelos mesmos nichos ecológicos”, sublinha a mesma responsável.
Uma vantagem destas espécies, para quem as procura, é que são cogumelos muito fáceis de identificar. “Têm um aspeto meio alienígena, daí o nome que demos ao projeto, ‘Eyes on Alien Mushrooms'”, comenta a investigadora, referindo-se ao trocadilho usado. ‘Em inglês, ‘alien’ significa tanto “estrangeiro”, “proveniente de fora”, mas também “alienígena”.
Uma das metas desta campanha é, desde logo, permitir que estas espécies sejam detetadas logo de início, quando chegaram recentemente a um novo território, para que seja possível travar a sua expansão. “Ainda que, quando observamos os corpos frutíferos (cogumelos), isso significa que já estão por cá há algum tempo e que se estão a adaptar. É muito difícil eliminar estes invasores, pelo que o melhor mesmo é a prevenção”, avisa.
Quais são os cuidados a ter
Mas como é que espécies invasoras de fungos chegam a Portugal e a outros países de onde não são naturais? Não sendo comum que passem naturalmente de um continente para outro, o problema tem vindo a crescer devido à globalização, com o aumento das viagens e do comércio internacional. “Muitas espécies chegam cá à boleia de madeiras exóticas”, descreve Susana Gonçalves, que acrescenta que “os fungos micorrizas podem chegar em raízes de árvores e em solo provenientes de outros locais”. Quanto aos esporos, que estão associados à reprodução dos fungos e são muitas vezes invisíveis a olho nu, “podem ser transportados nos pés de pessoas.”
É por isso necessário muito cuidado para não trazermos plantas vivas, por exemplo, provenientes de outros países. Quanto às madeiras importadas, que muitas vezes chegam em paletes, a investigadora lembra que o seu tratamento já é obrigatório.
Por fim, de forma a evitarmos que estes e outros fungos invasores entrem em território nacional, Susana Gonçalves sublinha que é importante que essas espécies não constem de kits para cultivo. “Quanto aos cogumelos de cultivo importados, as companhias devem optar por espécies locais, domesticá-las e comercializá-las”, apela, dando como exemplo o caso dos cogumelos-ostra-dourados.
E se encontrar uma das espécies da campanha? Antes de tudo, é importante fotografar esse ou esses cogumelos e fazer o registo na plataforma iNaturalist, no âmbito do projeto. Se quiser ir mais longe, também pode remover o cogumelo e transportá-lo com muitíssimo cuidado para que os seus esporos não se espalhem para outros locais, e secá-lo rapidamente com ar quente. Por fim, deve guardá-lo num pequeno saco de plástico hermético, pois pode acontecer que os gestores da campanha o contactem, por terem interesse em fazer a sequenciação do DNA desse cogumelo que guardou.
Alteração realizada a 7/11/2025: Título alterado de “Estamos todos desafiados a procurar estes 6 cogumelos invasores” para “Estamos todos desafiados a procurar estes 6 cogumelos potencialmente invasores”.
Agora é a sua vez.
Se tiver dúvidas sobre como fotografar o cogumelo exótico que encontrou, siga estas instruções (em inglês), aqui.