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Há espécies únicas de fungos em risco de desaparecer para sempre

14.04.2026
leitura de 4 minutos
Foto: Thomas Læssøe_CC BY-AS

Uma equipa internacional de investigadores, liderada pela Universidade de Coimbra, fez um estudo que alerta para a urgência em preencher as falhas de conhecimento sobre os cogumelos e outras espécies do mesmo grupo.

Um novo estudo internacional identificou pela primeira vez espécies de fungos que são únicas em termos evolutivos e estão hoje globalmente ameaçadas de extinção, em risco de desaparecer para sempre do planeta.

“Estas espécies, com poucos ou nenhum parente próximo na árvore da vida, representam histórias evolutivas únicas, pelo que o seu desaparecimento corresponderia a uma perda insubstituível”, avisam Susana Cunha e Susana Gonçalves, investigadoras do CFE – Centro de Ecologia Funcional (Universidade de Coimbra) e co-autoras do artigo, numa entrevista escrita feita pela Wilder. 

Liderado pelo CFE, o estudo agora publicado pela revista científica Conservation Letters realizou-se em parceria com os Royal Botanic Gardens, Kew, do Reino Unido, e o IUCN SSC Fungal Conservation Committee, um grupo de peritos em fungos ligado à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

A espécie Gymnogaster boletoides, conhecida de florestas esclerófilas na Austrália, dominadas por eucaliptos. Foi avaliada como Vulnerável devido à perda de habitat esperada devido à alteração da intensidade e frequência de incêndios florestais. Foto: Ian Dodd_CC BY-SA

Com base na informação científica atualmente disponível e nos critérios da Lista Vermelha da UICN, a equipa de sete investigadores avaliou o risco de extinção de 94 fungos Agaricomycetes, uma classe taxonómica que engloba muitos dos cogumelos mais conhecidos, incluindo os boletos e os cantarelos. O alvo foram as espécies que estão sozinhas dentro dos seus géneros (géneros monotípicos), muitas das quais são por isso os únicos representantes das suas linhagens.

Oito desses fungos foram classificados como ameaçados de extinção – seis com estatuto Vulnerável e dois Em Perigo – e um outro fungo como Quase Ameaçado. Outras 28 espécies foram consideradas Pouco Preocupantes, ou seja, não estão em risco.

Mas houve outra conclusão, considerada inquietante: entre as 94 espécies, para mais de metade (60%) não havia dados necessários para os cientistas determinarem se estão ou não ameaçadas, pelo que ficaram classificadas como tendo informação insuficiente (categoria “DD”, de ‘data deficient’). Este é um problema bastante maior para os fungos do que para muitos outros grupos, afirma o estudo. Nas plantas de géneros monotípicos, por exemplo, apenas 4,5% estão atualmente classificadas como “DD”. 

“Confirmámos a falta de informação que existe sobre os fungos, nomeadamente graves lacunas de conhecimento na distribuição, ecologia e taxonomia destes organismos”, aponta Susana Cunha, que liderou a investigação e avisa para o perigo de estarmos “a perder espécies únicas sem sequer termos consciência disso”.

“A deficiência de dados reflete graves lacunas no conhecimento sobre estes organismos”, sublinha a investigadora do CFE, também ligada aos Royal Botanic Gardens, Kew. “Em muitos casos, as espécies são conhecidas apenas pela sua descrição original, feita há mais de uma década, sem qualquer registo desde então.”

A espécie Chlorogaster dipterocarpi é conhecida de poucos registos na ilha de Bornéu no Sudoeste da Ásia. Esta região constitui um importante hotspot global de desflorestação, levando à avaliação desta espécie como Vulnerável. Foto: Thomas Læssøe_CC BY-AS

Aliás, como lembra o artigo científico publicado, das cerca de 2,5 milhões de espécies de fungos que se estima existirem na Terra, “com papéis cruciais nos ecossistemas e em vários aspetos da vida humana”, cerca de 95% ainda são desconhecidas para a Ciência.

E apesar de na última década ter aumentado o número de fungos avaliados pela Lista Vermelha da UICN, que somam atualmente 1302 espécies, a grande maioria continua sem esse trabalho feito. Além do mais, uma vez que a prioridade dessa avaliação tem sido para os fungos sob suspeita de estarem em perigo, os resultados ficam enviesados, com um grande número de fungos classificados em categorias de risco.

EDGE, espécies únicas à beira da extinção

De acordo com os investigadores, as espécies avaliadas neste estudo “são candidatas potenciais” a uma futura lista EDGE (do inglês ‘Evolutionarily Distinct and Globally Endangered’) destinada aos fungos, que poderá ser construída à semelhança de listas que já foram compiladas para anfíbios, aves, mamíferos e outros grupos.

“EDGE é uma métrica usada para prioritizar espécies para conservação, tendo em conta não só o seu risco de extinção, dado pelas avaliações da Lista Vermelha da IUCN, mas também o quão isoladas estão na árvore da vida”, descrevem Susana Cunha e Susana Gonçalves, que explicam que “a extinção de uma espécie EDGE implica a perda de todo um historial e potencial evolutivos, sendo por isso uma consideração importante para a conservação de espécies”.

Esta métrica é também utilizada para medir o progresso da nova Estratégia Global para a Biodiversidade (Kunming-Montreal), adotada em 2022

Uma lista vermelha para Portugal

Das recomendações avançadas no estudo, as investigadoras destacam duas medidas. Em primeiro lugar, a realização de “ações de ciência cidadã direcionadas para espécies de interesse”, que envolvam as comunidades locais. “Espécies com poucos registos ou registos antigos são candidatas ideais para projetos participativos”, afirma Susana Gonçalves, para quem “o envolvimento dos cidadãos pode ser decisivo para colmatar lacunas de informação e apoiar a conservação.”

É importante também “que as espécies com poucos ou nenhum parente próximo na árvore da vida sejam sujeitas a análises moleculares para comprovar o seu posicionamento filogenético e, se ameaçadas, passem a ser prioridade na conservação”, avisam as cientistas do CFE. 

Quanto à situação a nível nacional, Susana Cunha e Susana Gonçalves notam que a Europa tem “uma tradição micológica considerável”, mas Portugal “carece de muita informação”, sendo que parte daquela que existe “está fechada em herbários (fungários, neste caso) cuja informação não está digitalizada”. Além do mais, o estado de conservação das muitas espécies de fungos que existem em território português está por conhecer, afirmam.

“Para acelerar o conhecimento micológico no nosso território, é necessário assumir esta lacuna de conhecimento e financiar a investigação micológica de base, com inventariações para estabelecer a distribuição das espécies e avaliar o estado das suas populações, digitalizar as coleções de referência, construir uma base de dados adequada e elaborar uma lista vermelha nacional, com o envolvimento de micólogos profissionais e amadores, tirando partido da ciência cidadã”, concluem. “Foi este o modelo seguido noutros países com bastante sucesso.” 

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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