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Do Douro ao Alentejo, e pela primeira vez no Vale do Coa, abutres-pretos ganham mais 26 plataformas-ninho

27.02.2026
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abutre em voo
Abutre-preto. Foto: Artemy Voikhansky/Wiki Commons

É possível que o maior abutre da Europa se venha a expandir nos próximos anos para a região do vale do Coa, com a ajuda dos seis ninhos artificiais que foram agora ali colocados.

Todos os anos, a instalação de ninhos artificiais para o abutre-preto (Aegypius monachus) é uma tarefa a várias mãos executada a contra-relógio, por vezes a grandes alturas que equivalem a um quarto ou quinto andar, numa corrida de setembro a janeiro para tudo ficar concluído a tempo de não se perturbar a reprodução desta espécie ameaçada.

Nesta última época de trabalhos, entre setembro e o início de janeiro, foram colocadas 26 novas plataformas-ninho e reconstruídos ou reforçados um total de 18 ninhos, distribuídos pelas áreas do Douro Internacional, Vale do Coa, Herdade da Contenda e ainda Sierra de Gata y Valle de las Pilas. Estes números foram divulgados pelo projeto luso-espanhol LIFE Aegypius Return (2022-2027), que trabalha para a recuperação do abutre-preto em território português e no oeste de Espanha.

Ninho artificial de abutre-preto construído na área da colónia do Douro Internacional. ©Palombar

Classificado como Em Perigo de extinção em Portugal, de onde esteve ausente durante cerca de 40 anos, este que é o maior abutre da Europa só voltou a nidificar no país em 2010. Hoje, conhecem-se cinco colónias da espécie – Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional, e Vidigueira e Herdade da Contenda, estas duas últimas no Baixo Alentejo. O número de casais reprodutores tem vindo a crescer, mas ainda com futuro incerto. Uma das questões é o baixo sucesso reprodutor: apenas cerca de metade das posturas – normalmente um ovo por casal – resultaram em crias que sobrevivem até deixarem o ninho.

Em resposta a este último problema, no âmbito do LIFE Aegypius Return, foram colocadas 89 plataformas-ninho desde 2022, tanto em território português como nas áreas espanholas abrangidas. As equipas trabalharam também no reforço e reconstrução de 73 ninhos destas grandes aves.”Trata-se de uma medida de conservação essencial para esta espécie de grande porte que constrói o ninho sobre árvores, gregária e com populações limitadas”, explica à Wilder a coordenadora do LIFE Aegypius Return, Milene Matos.

abutre-preto em voo
O abutre-preto (Aegypius monachus), a maior ave planadora da Europa, pode atingir uma envergadura de asas de três metros. Foto: Artemy Voikhansky/Wiki Commons

O reforço de ninhos, por exemplo através da reconstrução de ninhos naturais com apoios artificiais, tem sido “fundamental” para diminuir as falhas na reprodução. Isso porque impede o colapso dessas estruturas, que pode resultar “na quebra do ovo ou no esmagamento da cria ou mesmo dos adultos”, nota a bióloga, que é também professora na Universidade de Aveiro.

Já as plataformas-ninho, além de aumentarem a segurança, ajudam a alargar a presença da espécie para novas áreas do país e criam condições para que aquela se mantenha nas zonas mais fragilizadas, acrescenta a coordenadora, que dá como exemplo a situação no Parque Natural do Douro Internacional, após o incêndio de agosto de 2025.

No caso da colónia nesta área protegida de Trás-os-Montes, que se prolonga pelo lado espanhol da fronteira, foi necessário repor-se o que tinha ardido: as equipas reconstruíram quatro plataformas-ninho e contruíram outras três, enquanto outras três tiveram manutenção. Milene Matos avança que a colónia do Douro Internacional é uma das que recebeu mais plataformas-ninho desde 2022, até para ajudar ao seu crescimento. De facto, é a segunda mais pequena do país, apenas maior do que a da Vidigueira.

Pelo menos 12 ninhos para o Vale do Coa

Mais a sul, na região do Vale do Coa, que se estende desde o Douro à serra da Malcata, estão em curso várias medidas para incentivar a fixação de uma nova colónia reprodutora de abutres-pretos, “uma aposta articulada com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas”. Aqui, foram para já colocadas seis plataformas-ninho, e até 2027 está prevista a instalação de pelo menos outras seis. “Esta é uma potencial área de expansão para a espécie, apresentando manchas de habitat favorável”, nota Milene Matos, que destaca também o valor da zona “ao nível da conectividade entre as colónias do Douro e Malcata, mas também com as do outro lado da fronteira”.

Instalação de uma das novas plataformas-ninho no Vale do Coa. Foto: © Faia Brava

Ainda assim, avisa, nesta época de reprodução é pouco provável que os ninhos artificiais ganhem ocupantes, pois a instalação fez-se “algo tarde” e os abutres-pretos precisam de tempo para se habituarem às novas estruturas. Além do mais, “a população é também ainda limitada e como a espécie é gregária, uma área de assentamento completamente nova leva algum tempo a estabelecer-se.”

As áreas espanholas abrangidas pelo projeto foram também das que receberam desde o início mais ninhos artificiais – como aconteceu por exemplo na Sierra de Gata, próxima da Serra da Malcata. Aqui, ao contrário do Tejo Internacional, onde estas aves preferem sobreiros e azinheiras para nidificar, os abutres-pretos constroem os seus ninhos no topo de grandes pinheiros, e é preciso trabalhar a muitos metros do solo, contou à Wilder Samuel Infante, um dos técnicos envolvido nestas ações.

Trabalhos em altura, para construção de plataformas-ninho de abutre-preto na Sierra de Gata. Foto: ©FNYH

Efeitos das tempestades já avaliados

Para já, nestas últimas semanas as várias equipas do LIFE Aegypius Return, do Douro ao Alentejo, andaram a fazer contas às árvores caídas ou partidas pelas tempestades de fevereiro, principalmente aquelas que continham ninhos da espécie.

“Consideramos que as zonas das colónias foram bastante poupadas”, esclarece Milene Matos. Por exemplo, na Herdade da Contenda, no concelho alentejano de Moura, apesar de algumas zonas onde caíram muitas árvores, “felizmente só se registou a queda de uma árvore com ninho do lado português e de outra com ninho do lado da Contienda espanhola”. O mesmo aconteceu no Tejo Internacional e nas colónias espanholas monitorizadas. “Houve danos, mas relativamente reduzidos”, sublinha a mesma responsável. Além do mais, como tudo aconteceu no início da época de reprodução, casais eventualmente afetados ainda terão tempo para corrigir os danos. Nesta altura do ano, já não é permitido este tipo de intervenções humanas.

Por estes dias, os técnicos ligados ao projeto andam a contar casais reprodutores e a monitorizar a situação nas colónias, sempre à distância e com cuidado para não perturbar as aves. Dentro de alguns meses, no verão, quando as crias que entretanto nascerem já tiverem entre 85 a 95 dias, é altura de outra corrida contra o tempo para estas serem marcadas com anilhas e emissores GPS – uma tarefa difícil e delicada. Finalmente em setembro, as últimas aves a nascer tornam-se autónomas e começam os seus voos de dispersão juvenil. Será o ponto de partida para o arranque de mais uma curta temporada de instalação de ninhos artificiais, a última ao abrigo do LIFE Aegypius Return.

Iniciado no final de 2022, este projeto é co-financiado por fundos comunitários e liderado pela Vulture Conservation Foundation. Além dessa ONG europeia, estão envolvidos outros nove parceiros beneficiários, incluindo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, a Liga para a Proteção da Natureza, a Palombar e a espanhola Fundación Naturaleza Y Hombre.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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