Leopardo-da-arábia. Foto: Unsplash

Resgate genético traz esperança ao último grande felino da Arábia

Calcula-se que cerca de 120 leopardos-da-arábia, a mais pequena subespécie de leopardo do mundo, sobrevivem atualmente na natureza em Omã, no Iémen e na Arábia Saudita, segundo o Arabian Leopard Fund.

Uma equipa internacional de investigadores decidiu instalar câmaras de foto-armadilhagem e procurar vestígios deste felino classificado como Criticamente em Perigo de extinção, para perceber quantos vivem efetivamente na natureza em Omã. Os resultados indicaram que haverá cerca de 51 leopardos selvagens neste sultanato da península Arábica, divididos em três subpopulações isoladas mas geneticamente empobrecidas.

Ao analisar leopardos-da-arábia mantidos em cativeiro na região, em contrapartida, a equipa encontrou altos níveis de diversidade genética, em especial entre vários animais do Iémen, país vizinho, que ajudaram a fundar a população que é hoje reproduzida em cativeiro.

A pesquisa dos investigadores, publicada na revista científica Evolutionary Applications, concluiu que as populações selvagens deste grande felino em Omã podem ser recuperadas com recurso a um “resgate genético”. Ou seja, a introdução de descendentes da população em cativeiro, que têm mais diversidade genética, entre os leopardos que vivem em liberdade na natureza.

Os autores do estudo avisaram também que os benefícios que esses novos genes podem trazer devem ser avaliados com cuidado, em especial porque os leopardos em cativeiro podem ser resultado de relações de consaguinidade.

“O problema é que todos estes indivíduos estão de alguma forma relacionados uns com os outros. São descendentes de uns poucos ancestrais que conseguiram sobreviver a uma enorme quebra populacional”, explicou Cock van Osterhout, co-autor do estudo e professor na Universidade de East Anglia. “Torna-se virtualmente impossível travar a consaguinidade e isso dá origem a mutações ‘más’, a que chamamos de carga genética. Por sua vez, isso pode aumentar a taxa de mortalidade, causando um colapso da população ainda maior.”

Este investigador acrescentou ainda que a carga genética pode ser “aliviada por resgate genético”, sendo que o estudo “projetou a melhor forma de o conseguir”. “Os leopardos [criados em cativeiro] são geneticamente mais diversos e podem ajudar a reduzir o nível de consaguinidade e a carga genética. Todavia, existe um risco de introduzirmos outras más mutações da população cativa para a salvagem, por isso precisamos de um equilíbrio cuidadoso.”

Neste estudo participaram cientistas ligados a várias universidades britânicas, incluindo Kent, East Anglia, College London e Nottingham-Trent, e ainda do Gabinete para a Conservação do Ambiente, em Omã.

Inês Sequeira

Foi com a vontade de decifrar o que me rodeia e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista e que estou, desde 2022, a fazer um mestrado em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Comecei a trabalhar em 1998 na secção de Economia do jornal Público, onde estive 14 anos. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água”. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.