Pedro Salgado no Vale do Sabor. Foto: Joana Bourgard

O curso que Pedro Salgado criou para ensinar a desenhar a natureza faz 10 anos

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Arranca esta semana, a 12 de Outubro, no Jardim Botânico de Lisboa, a 11ª edição do curso livre de desenho de natureza que convida amadores ou profissionais a aprenderem a desenhar a natureza ao longo de um ano. O ilustrador e biólogo Pedro Salgado faz o balanço de uma década desta sua iniciativa, 300 alunos depois.

WILDER: Quantas pessoas frequentaram este curso ao longo dos últimos 10 anos?

Pedro Salgado: Tivemos mais de 300 alunos desde 2013, quando iniciámos o curso. Alguns foram ficando nos anos seguintes para continuar a trabalhar em projetos mais complexos, dando continuidade aos seus interesses em temas ou técnicas particulares. A dada altura criámos uma turma de alunos mais avançados. Chamámos-lhe 2º ano – turma de Projeto, mas como houve alunos que se inscreveram em três ou quatro edições seguidas, o nome passou somente a “turma avançada” (ou, na brincadeira, a dos “repetentes”), sendo frequente juntarem-se com as outras turmas e acompanhar os trabalhos uns dos outros. Os avançados servem de lebre para os iniciados.

Caderno de campo de Sandra Lopes

W: O que queria fazer com esta iniciativa, quando começou, e que balanço faz? 

Pedro Salgado: Dou aulas de ilustração científica desde 1989, quando regressei dos Estados Unidos. Gosto de dar aulas e fui professor em várias universidades ao longo mais de 30 anos. Mas no meio académico fui acumulando algum desconforto em lidar com uma série de condicionantes, inúmeras questões administrativas, regras pouco flexíveis, turmas superlotadas, equipamento deficitário, para não falar de um número, para mim excessivo, de alunos interessados sobretudo nas avaliações do fim do semestre.

Neste curso, tudo é mais simples, as aulas têm os conteúdos e a dinâmica que me parecem ser as mais interessantes, que idealizei e fui afinando a partir das boas experiências que fui retendo em diversos contextos, como professor e como aluno. 

Aqui, trata-se de ganhar competências em vez de colecionar cadeiras aprovadas. Não há época de avaliações, não há faltas, o número de alunos é limitado, todos se interessam, todos partilham, é um ambiente diferente. O curso é livre, informal, flexível; pode ser encarado simplesmente como atividade lúdica ou, com a indispensável disponibilidade e dedicação, como um complemento ou via profissional.

Polvo. Ilustração: Martim Kinta

Gosto da diversidade do grupo, da descontração e de algum improviso. Com um ano inteiro à frente para trabalhar, temos um tempo muito considerável para evoluir e consolidar práticas e conhecimentos. Além disso, temos as saídas mensais para o campo; é um bom hábito visitar regularmente espaços naturais (melhor ainda se levarmos os sentidos bem abertos e um caderno para desenhar). E, nas aulas, trabalhamos numa sala equipada em pleno Jardim Botânico, onde só se ouvem passarinhos. 

Estou satisfeito com o ambiente de trabalho que temos no museu, divirto-me mais e tenho mais liberdade para gerir as aulas à minha maneira, do que alguma vez teria sido possível, por exemplo, durante os 20 anos em que estive a dar aulas na Faculdade de Belas Artes.

Temos tido adesão, as turmas têm estado cheias e, todos os anos, há sempre alunos que ficam para o ano seguinte. Nesta edição, que começa em outubro, inscreveram-se, de novo, 22 pessoas de anos anteriores. O balanço é positivo, superou largamente as minhas expectativas.

Lince-ibérico. Ilustração: Filipa Caires
Lince-ibérico. Ilustração: Filipa Caires

W: Que tipo de pessoas são os seus alunos, o que procuram neste curso?

Pedro Salgado: Todos os anos temos uma enorme diversidade. A idade mínima é 16 anos, temos portanto, desde alunos do fim do secundário e universitários, até alunos já reformados. Pessoas sem experiência de desenho e outras com prática profissional. De diferentes áreas do conhecimento, das Artes Plásticas à Biologia, passando por muitas outras, com interesses muito diversos mas, na sua maioria, com interesses em comum, em particular, pelo desenho e pela natureza.

Penso que, de início, o que todos procuram é aprender a desenhar melhor, o que é válido tanto para quem não desenha, como para quem tem muitos anos de experiência. 

Há alunos que vêm para desenhar porque gostam, de forma genérica. Outros estão particularmente interessados em desenhar plantas ou insetos, por exemplo, outros querem sobretudo trabalhar com aguarela, outros estão mais virados para o desenho de campo em cadernos, com uma prática mais livre do que a do rigor e o foco do desenho científico, ou o contrário …

O desenho de observação é sempre o ponto de partida, figurativo, apoia-se numa forma diferente de ver, mais importante do que saber traçar uma linha direita. Para quem já desenha, a exploração de abordagens, metodologias, técnicas e materiais, é ilimitada.

Por outro lado, a componente do curso que cruza com a biologia, sobretudo no que diz respeito à perceção da biodiversidade e das características morfológicas dos principais grupos, traz para as aulas uma ligação fértil entre Arte e Ciência. O desenho ajuda a entender e apreciar formas, descobrir e distinguir estruturas e texturas naturais, ou seja, simplificando, os que vêm das artes aprendem um pouco mais de biologia, e vice-versa.

Ilustração: Luísa Crisóstomo

W: Como está organizado o curso e o que inclui? Que técnicas ensina?

Pedro Salgado: Partindo do desenho de observação, o curso aborda duas vertentes que se desenvolvem em paralelo ao longo do ano: o desenho científico e o desenho de campo. No primeiro caso, desenvolve-se mais o trabalho de domínio técnico, a interpretação morfológica e estrutural dos modelos, a representação rigorosa, indispensável à ilustração científica. No segundo, o trabalho é feito em cadernos que levamos para as saídas de campo, mais experimental e criativo, mais solto e expressivo, uma espécie de urban sketchers, mas em versão nature sketchers.

Ambas são importantes e complementam-se. Habitualmente, as pessoas sentem-se mais confortáveis numa delas, mostrando alguma resistência em relação à outra, mas penso que é vantajoso alternar e não se limitar à zona de conforto. É bom ter a capacidade de foco e controle do desenho científico e conseguir mudar o “chip” para esboço, expressão, improviso, marcas pessoais. 

Os que tendem a ser “sketchers” também ganham muito em afinar as suas capacidades de observação, em conseguir concentrar-se, sem pressa, a observar e desenhar com atenção as formas dos modelos naturais, bem como em dominar as técnicas e materiais. Só desta forma desenham melhor aquilo que pretendem, em vez de só conseguirem chegar onde a técnica limitada lhes permite. 

No entanto, os alunos que assim o entenderem têm a liberdade de se dedicarem mais a uma das vertentes, de acordo com os seus interesses.

Caderno de campo de Luís Frasco

Os cadernos são usados nas saídas de campo e, sempre que possível, no quotidiano, mesmo que seja para um apontamento de 10 minutos. As saídas são mensais, normalmente ao sábado, e as residências artísticas são trimestrais; ficamos três a quatro dias instalados em áreas protegidas, imersão total em desenho e percursos na natureza.

Nas aulas começamos por trabalhar a preto e branco, essencialmente grafite em diferentes superfícies e aplicações, depois vem a tinta-da-china. Entramos nos projetos de cor, habitualmente no fim do primeiro trimestre, com a aguarela, aproveitando para pedir ao pai natal uns pincéis especiais e aqueles pigmentos e papéis mais caros, que fazem toda a diferença. 

Continuamos depois com lápis de cor e, no último trimestre desenvolvemos técnicas mistas, projetos mais elaborados, temas mais específicos e começamos a preparar material para a exposição de fim de ano.

As aulas de cada turma têm uma duração de 3 horas, mas a sala é espaçosa e há sempre pessoas que ficam a trabalhar, podem ficar todo o dia, e sempre que tenham um impedimento, têm a possibilidade de assistir a outra turma. 

Camaleão. Ilustração: Sofia Sousa Dias
Camaleão. Ilustração: Sofia Sousa Dias

W: Para esta nova edição, o que podem as pessoas esperar? Há novidades?

Pedro Salgado: As pessoas que não têm experiência de desenho podem esperar um ano com um ritmo diferente do habitual, espero que a regularidade do tempo dedicado ao desenho lhes proporcione períodos mais atentos, menos apressados. Quem desenha habitualmente, já sabe que o desenho nos altera a perceção do tempo, é um estado mental distinto, faz-nos estar mais ligados à terra (pelo menos enquanto o telemóvel não toca…).  

Para os que já desenham, e também para os “repetentes”, continuaremos a desenvolver competências, a trabalhar em projetos que cruzam desenho com natureza. Os campos para explorar são inesgotáveis. Poderíamos, se quiséssemos, estar todo o ano a trabalhar numa só técnica, por exemplo em tinta-da-china, há imenso espaço para explorar e progredir. O mesmo se poderia dizer de um tema em particular, as aves, alguns grupos de plantas ou de invertebrados, por exemplo. 

Este ano também vamos ter a oportunidade de trabalhar com material biológico disponibilizado pelo museu e desenvolver projetos especiais com ilustrações para publicação.

Ilustração: Carolina Correia

W: Qual a mais-valia deste curso?

Pedro Salgado: As saídas frequentes para desenhar no campo e a forma como cruzamos o desenho com a biologia, podem ser as características mais relevantes do curso. Mas penso que é também de referir a flexibilidade dada aos alunos para trabalhar preferencialmente em projetos específicos, havendo interesse particular em alguma técnica ou tema, bem como a possibilidade de trabalhar ao ritmo que cada um, em função da sua disponibilidade ou nível de competência.

Ilustração: Sílvia Escarduça

W: O que mais o tem surpreendido? E o que tem aprendido?

Pedro Salgado: Tenho aprendido imenso com os alunos. Fazer críticas e sugestões em milhares de desenhos e ajudar a procurar soluções para questões que eles me colocam e que nunca me tinham ocorrido, obrigam-me a entender o desenho de outra forma, mais a montante; faz-me pensar naquilo que, no meu trabalho, faço intuitivamente, o que, para mim, tem sido muito enriquecedor.

Também posso referir algo que já não me surpreende, e que aprendi com os grandes mestres que tive nos EUA. Para o aluno, a autoconfiança, em particular no domínio de desenho, é muito mais importante do que eu pensava, é crucial para evoluir. Uma má crítica, sem valorizar o esforço que foi feito e sem sugerir caminhos alternativos, pode ter efeitos nefastos para quem está a tentar superar-se. Por outro lado, o reconhecimento na aula pelos bons resultados obtidos numa determinada peça que apresentava dificuldades, pode fazer milagres na motivação e na qualidade do trabalho que se segue. Já discutimos isso nas aulas, acontece constantemente, chamamos-lhe “peça catapulta”. 

W: Qual o papel do desenho de natureza na aproximação das pessoas ao mundo natural?

Pedro Salgado: O desenho de natureza obriga-nos a olhar de forma atenta, pausada, para lá do que chamamos observação. Com a descoberta e um melhor entendimento do mundo natural, é inevitável criarem-se empatias. O velho chavão “conhecer para proteger” também se revê nos olhos do desenho. 

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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