Águia-gritadeira (Clanga clanga). Foto: Christoph Moning/Wiki Commons

Novo estudo revela que águias alteraram as suas rotas migratórias para evitarem a guerra na Ucrânia

Cientistas que seguiam um grupo de aves de rapina detetaram mudanças nos voos de migração e nos locais de descanso, devido ao conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Os resultados foram agora publicados.

Em causa estão águias-gritadeiras, uma espécie Vulnerável à extinção, que eram desde 2018 seguidas por GPS. Estas aves de rapina entram no território ucraniano todas as primaveras, vindas dos territórios de invernada na Europa do Sul e Leste de África, dirigindo-se então para a Bielorrússia, onde se reproduzem.

Quando a invasão da Ucrânia começou, em fevereiro de 2022, faltava cerca de um mês para a habitual passagem das águias-gritadeiras pelo território ucraniano, pelo qual se costumam demorar ao longo de março e abril. Dessa vez, os movimentos de 19 destas aves foram seguidos atentamente por investigadores da Universidade de East Anglia (UEA), da Universidade Estoniana para as Ciências da Vida e do British Trust for Otnithology, que compararam essa informação com a de anos anteriores.

Os resultados, agora publicados na revista científica Current Biology, mostram que “as águias fizeram grandes desvios” das rotas originais e também que passaram menos tempo nos locais habituais de paragem (‘stopover’), ou acabaram mesmo por evitá-los por completo, explica uma notícia publicada pela Universidade de East Anglia.

“Este tipo de perturbação pode ter impactos significativos no comportamento e mesmo na preparação física das águias. Para indivíduos que nidificam nessas áreas, ou outras espécies menos preparadas para responder aos distúrbios, é provável que os impactos sejam muito maiores”, comentou o primeiro autor do estudo, Charlie Russel, investigador na UEA.

Quando as águias seguidas por GPS começaram a chegar à Ucrânia a caminho da Bielorrúsia, no início de março de 2022, o conflito já se tinha estendido a várias cidades grandes no país, expondo as aves a fogo de artilharia, caças e outras armas.

Depois de examinar os dados obtidos, a equipa apercebeu-se de que as águias voaram maiores distâncias em direção aos seus territórios de reprodução, percorrendo cerca de 85 quilómetros a mais, em média. As migrações também demoraram mais tempo, com um total de 246 horas de viagem para as fêmeas, quando antes da guerra demoravam 193 horas, e 181 horas para os machos face às 125 horas antes do conflito. Houve menos águias-gritadeiras a parar na Ucrânia – apenas seis de um total de 19, quando antes da guerra tinham sido 18 de um total de 20, entre 2018 e 2021.

“Os nossos resultados mostram como a perturbação humana pode inadvertidamente ter impactos sobre a vida selvagem”, comentou Adham Ashton-Butt, investigador no British Trust for Otnithology. “Aves migradoras como as águias-gritadeiras estão em declínio por todo o mundo e é imperativo compreendê-las melhor e mitigarmos os nossos efeitos nestas espécies carismáticas.”

Inês Sequeira

Foi com a vontade de decifrar o que me rodeia e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista e que estou, desde 2022, a fazer um mestrado em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Comecei a trabalhar em 1998 na secção de Economia do jornal Público, onde estive 14 anos. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água”. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.