Lince-ibérico. Foto: MITECO

Nasceram seis crias de lince-ibérico no CNRLI em Silves

26.03.2025

Até 20 de Março tinham nascido seis crias de lince-ibérico (Lynx pardinus) no Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI), em Silves. Este mês, este centro recebeu luz verde para continuar a trabalhar pelo menos até 2037.

Tal como para tantas outras espécies, a primavera é, para o lince-ibérico, a época dos nascimentos.

Lince-ibérico, cria. Foto: Programa Ex-situ (arquivo)

A temporada de reprodução acontece tanto nos campos, em plena natureza, como nos cercados do CNRLI, peça crucial para a conservação deste felino que chegou a estar virtualmente extinto em Portugal. Hoje, estima-se que existam mais de 350 linces na natureza no nosso país.

Desde a sua inauguração em 2009 até hoje, este centro já “deu” um total de 112 linces para a reintrodução na natureza em vários pontos da Península Ibérica. A estes juntam-se as crias que ficaram órfãs e foram capturadas no campo em Castela-la Mancha, Espanha, e treinados no Complexo de Treino e Recuperação de Lince Ibérico (CTRLI), no CNRLI, para reintrodução.

Nesta temporada de reprodução, até 20 de Março, tinham nascido seis crias, duas crias de Queratina e Galeno, e quatro crias de René e Hermes. As seis crias “estão a desenvolver-se normalmente”, disse à Wilder Rodrigo Serra, director do Centro e coordenador do Programa de Conservação Ex-Situ para a espécie. “As crias da Queratina já têm os olhos abertos, com 21 dias de vida, e as da René mantêm-se ainda no interior da caixa ninho com apenas 6 dias de vida.”

Esta temporada fica marcada pela reativação das tentativas de inseminação artificial (IA). Para isso foram constituídos dois casais. “Uma das fêmeas destinadas a IA não permitiu a organização dessa tentativa, atendendo à data em que esteve em cio; e a outra, Jabaluna, acabou por copular naturalmente (e surpreendentemente) com o macho com quem estava emparelhada, o Odiel“, contou o responsável. “Não foi o desejado para a inseminação artificial, mas representa a primeira temporada em que este evidenciou comportamento reprodutivo já aos seus 8 anos de idade.”

Odiel chegou a Silves na temporada reprodutora de 2020/2021, vindo do centro de El Acebuche, em Doñana (Andaluzia) para conseguir maior diversidade genética. “É um dos machos mais importantes do programa ibérico de reprodução em termos genéticos, pelo que esta sua evolução comportamental, conseguindo copular adequadamente, suscita muita esperança para se poder obter crias deste macho, este ano ou nos seguintes.” Como “Jabaluna entrou novamente em cio, existe a expectativa para verificar se o Odiel mantém o comportamento e deixa finalmente descendência”, acrescentou.

Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves. Foto: Joana Bourgard/Wilder

A época dos nascimentos no CNRLI é o culminar de um ano de trabalho para a equipa que garante o funcionamento do centro e para os voluntários. O grande objectivo é conseguir crias saudáveis, treiná-las para a liberdade e, meses depois, soltá-las na natureza, para que novas populações de linces voltem aos territórios de onde se extinguiram há décadas.

Por estes dias vivem no Centro de Silves um total de 36 linces-ibéricos. A maioria, 27, está nos cercados de reprodução. A estes 27 linces juntam-se as seis crias nascidas esta primavera. E no CTRLI estão três linces juvenis nascidos em 2024, ainda a aguardar solta, para breve, nas comunidades autónomas espanholas de Extremadura e Castela e Leão.

Até hoje já nasceram 176 crias no CNRLI, sendo que 132 sobreviveram até aos 6 meses (o que quer dizer que as seis crias nascidas este ano ainda não estão consideradas neste número).

CNRLI a trabalhar até 2037

O CNRLI, começado a construir em Junho de 2008 e terminado em Maio de 2009, resulta de uma medida de compensação pela construção da barragem de Odelouca, imposta pela União Europeia, e é financiado pela empresa Águas do Algarve, S.A. Esta é a proprietária da Herdade das Santinhas, onde está localizado o centro, e dos diversos componentes que constituem o CNRLI, com exceção do CTRLI, já construído pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e em operação desde dezembro de 2019.

CNRLI em Silves. Foto: Joana Bourgard/Wilder

Originalmente, o CNRLI tinha funcionamento assegurado até 2025. Mas a 14 de março deste ano foi assinado em Faro um memorando de entendimento entre o ICNF e a Águas do Algarve, S.A. que prevê a formalização até ao final de 2025, da sua prorrogação até 2037.

Até porque ainda há muito trabalho a fazer para que o lince consiga atingir o estatuto de conservação favorável. Para que isso aconteça é preciso chegar às 700 fêmeas reprodutoras e a um total de 3500 linces na Península Ibérica até 2035.

Uma das formas para lá chegar é criar oito novas áreas de reintrodução em Portugal e em Espanha. Esta meta terá de contar com o reforço de linces nascidos nos quatro centros de reprodução que trabalham em exclusivo com esta espécie, como o CNRLI.

“Até à data os centros do Programa de reprodução em cativeiro (4 centros exclusivos e 1 não-exclusivo) continuam a reproduzir o maior número possível de exemplares, emparelhando o máximo possível de casais para obter o número aproximado de 40 crias sobrevivas ao ano”, explicou Rodrigo Serra.

Destas 40 crias, têm sido mantidas cerca de 10 nos centros, por ano, para reposição de reprodutores desde 2023. “Será assim previsível que durante os próximos cinco a seis anos se continue a manter cerca de 10 animais por ano em cativeiro. Isto implicará que entre 20 e 30 animais serão reintroduzidos nas áreas de solta ‘ativas’ – Múrcia, Sierra Arana (Andaluzia), Castela e Leão e nas novas zonas de Extremadura e Castela-la Mancha. Por enquanto não estão ainda confirmadas soltas na Comunidade Autónoma de Madrid, na Catalunha ou em Aragão”, adiantou o coordenador do Programa de Conservação Ex-Situ.

Foto: Programa de Conservação Ex-situ/Arquivo

Além do desafio de conseguir novos linces para reforçar as populações selvagens, os centros de reprodução em cativeiro têm pela frente um desafio ainda maior, o envelhecimento dos seus linces reprodutores.

Rodrigo Serra estima que nos próximos cinco a seis anos cerca de 60 animais geriátricos terão de ser substituídos por outros mais novos para fazer face a esse envelhecimento. “Esse é, e continuará a ser, o desafio mais sério que está identificado.”

Entre 2007 e 2012, o número de linces em cativeiro aumentou, “concentrando nesses cinco anos uma enorme quantidade de reprodutores no programa”. Mas não de animais mais novos; esses têm outro destino, a natureza. “A necessidade de reintroduzir uma muito alta percentagem dos animais nascidos em cativeiro desde essa data, levou à inversão da pirâmide demográfica do programa”, notou Rodrigo Serra.

Para agravar o problema, os centros de reprodução têm falta de espaço e “faltam espaços em parques zoológicos, centros de exibição ou santuários para os animais considerados excedentários ou geriátricos, sem capacidade de reprodução ou de reprodução indesejada”.

O lince-ibérico tem tido uma história atribulada. No século XIX a população mundial da espécie estava estimada em cerca de 100.000 animais, distribuídos por Portugal e Espanha; mas no início do século XXI restavam menos de 100. Então, os dois países juntaram-se para recuperar habitats e reproduzir animais. O CNRLI é uma das peças deste quebra-cabeças conservacionista que ainda hoje não está resolvido.

Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ

Desde 22 de Junho de 2015, esta espécie foi classificada como Em Perigo de extinção, depois de anos na categoria mais elevada atribuída pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Criticamente em Perigo.

Em Junho de 2024 voltou a descer de categoria, passando a Vulnerável.  Esta espécie viu a sua população aumentar de 62 indivíduos adultos em 2001 para mais de 2000 em 2024.



Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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