Baleia-de-Bryde com golfinhos-comuns a navegar à cabeça. Foto: Luís Quinta

Martim Quinta ajuda a desvendar as viagens das baleias-de-Bryde

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Martim Quinta, biólogo e ilustrador científico, está a estudar as baleias-comuns ao largo de Lisboa, entre o Bugio e o Cabo Espichel. Durante o trabalho de campo para o seu mestrado fez uma importante descoberta sobre uma espécie que começa a aparecer nesta região mas sobre a qual ainda pouco se sabe.

Era uma manhã cinzenta, com algum nevoeiro e o mar parecia azeite. Ao largo da Fonte da Telha, entre a bruma, algumas aves apareciam voando em círculos, sempre na mesma zona. Gaivotas, pardelas baleares, cagarras e gansos patola, formavam um turbilhão imparável no ar.

Parámos o barco para observar o que se passava com tamanha agitação. Poucos segundos depois, um grande grupo de golfinhos-comuns juntou-se a nós, como que a dar-nos as boas-vindas para a festa. Eram dezenas deles em redor do barco.

Ia-se formando um alvoroço de grandes dimensões, com aves que se lançavam para dentro de água como mísseis e golfinhos que nadavam de forma explosiva em torno e contra um cardume de sardinha que se revelava debaixo de água. Com o mar calmo e sem vento, apenas se ouvia a respiração destes mamíferos e o chilrear das aves que apareciam de todos os lados. 

Depois de vários minutos de observação deste espetáculo da natureza e a pensar no regresso, ouvimos atrás de nós um estrondo que nos era familiar. Numa fração de segundos olhámos todos para trás em sintonia e de seguida, um rosto largo, escuro vê-se à superfície, com uma escolta de golfinhos que mais pareciam moscas ao pé desse novo ser que se revelava.

Era uma baleia que, em câmara lenta, mergulhava sem dar pistas para onde ia.

Muito intrigados com o aspeto negro, discreto e diferente desta baleia relativamente a outras que já tínhamos avistado anteriormente, deixámo-nos ficar mais algum tempo esperando que viesse respirar.

Passados alguns minutos, já a vários metros de distância, rompe à superfície uma nuvem vertical branca, longe do frenesim alimentar que ocorria naquela zona. Era a baleia, que lançava o seu bufo no ar e voltava a mergulhar rapidamente no imenso azul, dirigindo-se para sul, sem que nos pudéssemos aproximar mais.

Este jogo do gato e do rato perdurou vários quilómetros para sul, até que um novo banquete com aves, golfinhos e sardinhas chamou a atenção do leviatã. Aí, o comportamento do grande animal tornou-se mais previsível, possibilitando uma melhor aproximação.

Nesse momento, captamos várias imagens, que nos ajudaram a identificar a espécie. Não era um animal tão grande e possante como uma baleia-comum (o segundo maior animal do planeta), e o seu bufo vistoso também nos fazia descartar a hipótese de ser uma baleia-anã, que são ambas as espécies mais comuns nesta zona. Uma fotografia da cabeça do animal fez-nos escolher uma opção: baleia-de-Bryde (Balaenoptera edeni).

Cabeça da baleia, com três cristas longitudinais. Foto: Luís Quinta

A baleia-de-Bryde

A baleia-de-Bryde, também conhecida como baleia-tropical, é um mamífero marinho da família dos rorquais – como a baleia-azul, a baleia-comum ou a baleia-de-bossa -, de tamanho intermédio, que pode chegar aos 15 metros de comprimento e pesar mais de 20 toneladas.

O seu nome surge em homenagem ao empresário-baleeiro norueguês, Johan Bryde, pioneiro na caça à baleia na África do Sul na era moderna, onde esta espécie foi bastante explorada.

Muitas vezes difícil de identificar no mar e às vezes confundida com outras baleias, esta espécie tem algumas características subtis que permitem essa distinção. Desde logo, as três cristas longitudinais salientes ao longo da sua cabeça, pouco desenvolvidas em alguns indivíduos, assim como o seu comportamento errático e imprevisível.

Habitam regiões de águas mais quentes, tropicais e subtropicais, sendo que, não realizando grandes migrações como as suas espécies primas entre os trópicos e os polos, os seus padrões migratórios por esta zona são ainda desconhecidos.

Na Madeira e nos Açores têm sido registadas há vários anos. No continente, nos últimos cinco anos, têm sido avistadas sobretudo no Algarve e agora, também, na região de Lisboa, entre o cabo da Roca e o Espichel, assim como em Sesimbra. 

Este sítio, já sabido como um “hotspot” de muita megafauna marinha, tem chamado a atenção nos últimos tempos pela presença de diversas espécies de cetáceos, desde os pequenos golfinhos e orcas (o maior golfinho) até às grande baleias-comuns que, em anos de condições climáticas favoráveis, conseguem ver-se grandes agregações em atividade de alimentação.

Características distintivas da espécie. Ilustração: Martim Quinta

Um encontro muito especial

No ano passado, no final do verão, identificámos um indivíduo de baleia-de-Bryde, que permaneceu na região quase um mês e que se ia alimentando de sardinha. Foi um encontro inesperado e comunicado na 36ª Conferência Europeia dos Cetáceos de 2025, realizada nos Açores. 

Desde então já contabilizamos mais de uma dezena de indivíduos, desde animais em alimentação até um par mãe-cria, com alguns animais a serem re-avistados dias sucessivos, ou até semanas. Em 2024, a sardinha era abundante e foi a presa de eleição. No entanto, este ano de 2025, foram a cavala e o agulhão-do-Atlântico os mais caçados.

Este ano foi anormalmente quente, quer em terra, quer no mar, mas, surpreendentemente, tem sido bom para avistamento de baleias-de-Bryde, ao contrário de outras espécies como a baleia-comum. 

Através de técnicas simples como a foto-identificação – que consiste na fotografia de características distintivas e únicas em cada animal, como por exemplo as barbatanas dorsais, que funcionam quase como impressões digitais – podemos reconhecer indivíduos e entender os seus padrões de permanência ou migração e que nos podem ajudar a perceber a importância desta região na ecologia dos cetáceos. 

O facto de vermos os mesmos animais durante largos períodos, demonstrando alguma fidelidade ao local, e em alimentação, poderá ser uma pista que nos revela um potencial território de alimentação para grandes baleias. 

Mais tarde fará sentido, cruzar a informação catalogada das barbatanas dorsais de cada indivíduo, com informação de outras regiões do Atlântico, para perceber de onde vêm e para onde vão estes cetáceos.

Baleia-de-Bryde com Arriba Fóssil da Fonte da Telha em plano de fundo. Foto: Luís Quinta

O avistamento mais regular desta espécie nestas águas pode estar relacionado com diferentes fatores. 

Em primeiro lugar, é de salientar que, de ano para ano, há cada vez mais pessoas no mar, com mais atenção, interesse e conhecimento sobre o que as rodeia, partilhando vídeos de encontros com estes animais e que tornam o registo de ocorrência mais frequente ao longo do tempo.

No entanto, sendo esta uma baleia que ocorre, sobretudo, em clima tropical, a maior frequência das ondas de calor, por longos períodos, nos meses de verão, poderá estar na origem do aparecimento desta espécie em maiores números nesta altura. Na verdade, a ocorrência de baleias-de-Bryde poderá ser um indicador de como o nosso clima está em mudança e de como o aumento de eventos de calor extremo e prolongado pode alterar o nosso ecossistema marinho.

Baleia-de-Bryde com golfinhos-comuns a navegar à cabeça. Foto: Luís Quinta

Leia aqui o retrato naturalista de Martim Quinta.

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