Os incêndios deste verão terão afectado mais de 60% do território atribuído a várias alcateias, incluindo os seus locais de reprodução, por exemplo na Peneda-Gerês e no Alvão, alertou Francisco Álvares, investigador do CIBIO-Inbio.
O lobo-ibérico (Canis lupus signatus) é uma espécie protegida e o único membro que resta da família dos grandes predadores de Portugal.
Esta espécie Em Perigo de extinção estará reduzida a cerca de 300 animais distribuídos por 58 alcateias (56 confirmadas, 2 prováveis).
Até aos anos 30 do século XX, o lobo-ibérico distribuía-se por todo o país, até ao Algarve. Com o passar dos anos, o lobo foi sendo empurrado, concentrando-se hoje em quatro grandes núcleos populacionais: Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro.

Depois dos incêndios deste verão, a situação desta espécie ter-se-á agravado.
“Temos conhecimento que os recentes incêndios afetaram uma grande parte (+ 60%) do território atribuído a várias alcateias, incluindo os seus locais de reprodução, como é o caso da Alcateia da Amarela (na Peneda-Gerês) e de outras alcateias situadas a Sul do rio Douro (p.e. alcateias da Arada, Trancoso e Lapa) e na região do Alvão”, disse à Wilder Francisco Álvares, doutorado em Biologia da Conservação e investigador no BIOPOLIS-CIBIO, dedicado ao lobo há 30 anos.
“No caso da alcateia da Amarela, temos conhecimento que o local onde se encontravam as crias ardeu completamente em Agosto, e após os incêndios já foram observados vários lobos adultos mas sem deteção de crias, apesar de poderem ter sobrevivido.”
Contudo, até ao momento não haverá registo de mortalidade de lobos que seja claramente atribuído a incêndios, como por exemplo animais carbonizados.
Ainda esta semana, o secretário de Estado do Ambiente espanhol, Hugo Morán, admitiu que os incêndios florestais no Norte de Espanha neste verão tiveram um impacto que não se deve menosprezar nas populações de lobo-ibérico.
E de que forma os incêndios afetam esta espécie de carnívoro?
Segundo Francisco Álvares, a curto prazo, o fogo destruiu as condições de refúgio”, um problema “mais relevante quando atingem locais de reprodução ativos”. Consequentemente, os animais ficam mais expostos à perseguição ilegal por parte dos humanos.

“Esta ameaça poderá ser mais preocupante na área de alcateias instáveis, que apresentam um reduzido tamanho de grupo e sucesso reprodutor, como se verifica por exemplo na região do Alvão e a sul do rio Douro. Neste sentido, os extensos incêndios ocorridos este verão nestas duas regiões, terão seguramente contribuído para fragilizar ainda mais as alcateias locais.”
Ainda assim, este investigador salienta a “elevada resiliência” do lobo-ibérico aos incêndios, “tendo em conta que persiste numa paisagem com um intenso regime de fogos desde há séculos”. “Mesmo quando são afetados os locais de reprodução com crias, temos evidências – com base em lobos marcados por telemetria GPS – que a alcateia consegue transportar as crias para locais seguros, situados a 2 ou 3 kms de distância.”
“Além disso, locais de reprodução afetados pelos incêndios, são geralmente utilizados em anos seguintes, embora isso dependa do nível de intensidade do fogo; normalmente, a vegetação nativa ao longo de linhas de água não é destruída pelos incêndios.”
Mas na sua opinião, o principal impacto dos incêndios na conservação do lobo é a “diminuição das condições adequadas de habitat para as suas presas naturais, os ungulados silvestres como o corço e o veado”. Francisco Álvares lembrou que as populações destes animais “são ainda bastante limitadas devido à caça ilegal e à escassez de florestas nativas”.
“Os grandes incêndios em Portugal constituem uma forte ameaça ao fomento das florestas nativas e das condições adequadas de refúgio, que são cruciais para um aumento dos ungulados silvestres, os quais são mais exigentes do que o lobo, em termos de habitat.”
Se o lobo-ibérico perder as suas presas naturais é provável que procure outras fontes de alimento, como cabeças de gado. A agência de notícias Lusa avançou esta semana que se terá registado um aumento do ataque de lobos a rebanhos na região de Miranda do Douro, em Bragança.

Mas os incêndios trazem outra ameaça indireta ao lobo. “Os trabalhos de gestão de combustíveis para redução do risco de incêndios (como a limpeza de matos e a abertura de caminhos) são, muitas vezes, realizados no interior de locais de reprodução ativos, onde se encontram as crias de lobo, levando a uma elevada perturbação humana e destruição do habitat, durante o período mais sensível da reprodução das alcateias”, lembrou Francisco Álvares.
Este investigador defende uma “maior e melhor articulação entre as entidades competentes, de forma a que os trabalhos de gestão florestal e minimização do risco de incêndios não sejam realizados no interior de locais de reprodução conhecidos, durante o período de nascimento e dependência das crias de lobo (Maio a Setembro)”.
Também considera “crucial apostar no fomento e restauro das florestas nativas (como carvalhais e bosques ripícolas), uma vez que são mais resilientes aos incêndios e apresentam condições mais adequadas para refúgio do lobo e suas presas naturais”.
Terminou ontem o período de consulta pública do Programa Alcateia 2025-2035 que já identificou algumas das necessidades apontadas por este investigador.
Até 2035, o novo Programa Alcateia quer reverter a dominuição do número de lobos-ibéricos em Portugal, assegurando que esta espécie Em Perigo de extinção passa a estar em situação de conservação favorável. Para concretizar essa ambição, estão para já assegurados cerca de 5 milhões de euros ao abrigo do Fundo Ambiental, afirmou a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em declarações aos jornalistas no final da apresentação do novo programa, no início de julho. Em 2025, aliás, serão destinados deste mesmo Fundo quase 3,3 milhões de euros que terão como destino principal o novo Alcateia, disse também a governante.