Os cavalos selvagens do Noroeste Peninsular podem representar até 80% da dieta do lobo-ibérico em algumas regiões, conclui um estudo da Universidade do Porto. Investigadores alertam para a necessidade de proteger uma raça autóctone cada vez mais ameaçada.
Os garranos, uma das mais antigas raças de cavalos da Península Ibérica, podem ter um papel importante na redução dos conflitos entre o lobo-ibérico e a pecuária. A conclusão resulta de uma investigação desenvolvida na Universidade do Porto, que revela que estes cavalos em regime extensivo chegam a representar até 80% da dieta dos lobos em algumas áreas do Noroeste de Portugal e de Espanha. O estudo foi publicado no final de abril na revista Mammal Review (Wiley).
Ao funcionarem como uma presa alternativa, os garranos contribuem para diminuir a pressão de predação sobre animais de elevado valor económico, como vacas, cabras e ovelhas. No entanto, esta função ecológica poderá também agravar a situação de uma raça autóctone que enfrenta um declínio acentuado.
O estudo foi desenvolvido por Joana Freitas, estudante de doutoramento da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), no âmbito de uma investigação realizada no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO).
Segundo a investigadora, os resultados mostram que os garranos funcionam como uma espécie de “presa tampão” para o lobo-ibérico, ajudando a reduzir os prejuízos económicos associados aos ataques ao gado doméstico.
Apenas cerca de 2.000 animais puros
A importância ecológica desta relação contrasta com a situação vulnerável da raça.
De acordo com os dados mais recentes da Associação de Criadores de Equinos da Raça Garrana, existem actualmente apenas cerca de 2.000 garranos puros em Portugal, distribuídos entre animais criados em regime extensivo nas serras e exemplares mantidos em estabulação.
“Precisamos urgentemente de os proteger. Têm um elevado valor cultural e prestam importantes serviços aos ecossistemas”, afirma Joana Freitas, em comunicado.
Os garranos são frequentemente apontados como aliados da conservação da natureza, dado que se alimentam de plantas altamente inflamáveis, como o tojo, a urze, ou a giesta, contribuindo assim para a redução do risco de incêndios. “Ao contrário das cabras, por exemplo, o cavalo está permanentemente na serra e não precisa de acompanhamento”, notou a investigadora.
“A presença dos garranos pode ter um impacto económico importante, porque, segundo estudos recentes na vizinha Galiza, consegue-se poupar entre 8 mil e 10 mil euros anualmente, por animal, na limpeza de terrenos”, exemplificou.
Encontrar um equilíbrio entre conservação e conflitos
A investigação alerta, contudo, para a necessidade de gerir cuidadosamente a coexistência entre os lobos, os garranos e as comunidades rurais.
Embora a presença dos cavalos possa ajudar a reduzir os ataques a outros animais domésticos, os proprietários de garranos continuam a sofrer perdas devido à predação, o que pode alimentar tensões em relação à conservação do lobo.
“Temos de encontrar um equilíbrio e conseguir uma gestão sustentável da coexistência entre o lobo-ibérico, os cavalos em regime extensivo e as comunidades rurais. Caso contrário, os conflitos, que também existem entre o lobo e os proprietários dos garranos, irão continuar”, alertou a investigadora.
O trabalho integra um projecto de doutoramento dedicado ao estudo da relação entre o lobo-ibérico e esta raça autóctone, procurando compreender de que forma a conservação de ambas as espécies pode ser compatibilizada.
Os investigadores sugerem a aplicação de medidas de “compensação indireta”, já aplicadas, por exemplo, em países como a Finlândia. “O objetivo é atribuir apoio monetário, de acordo com o risco calculado de predação pelo lobo, sendo que os proprietários dos cavalos têm de coexistir com o predador para poderem ser compensados”, concretizou. “Desta forma, protegemos as duas espécies.”
Os autores deste trabalho defendem também o reforço de populações de presas selvagens nativas, como o veado e o corço, para promover o retorno da dieta do lobo às suas presas naturais e reduzir a pressão sobre espécies domésticas.
Os resultados reforçam a ideia de que os grandes predadores e os herbívoros semi-selvagens desempenham funções ecológicas interligadas nos ecossistemas de montanha do Noroeste Ibérico.