A maior parte de uma das matas mais antigas que ainda restavam na região Centro foi destruída pelo incêndio que atingiu a Serra da Lousã, revelou a associação Milvoz, que faz a gestão desta reserva para preservar a floresta autóctone.
Em comunicado divulgado hoje, a Milvoz – Associação de Protecção e Conservação da Natureza, criada em 2019 para preservar o património natural da região de Coimbra, contou que o fogo que entrou no bosque a 15 de agosto afetou “uma porção maioritária da sua área”.
“O incêndio que deflagrou no passado dia 14, no Candal, aldeia de xisto da Serra da Lousã, assumiu em poucas horas uma dimensão e violência avassaladoras. Ganhando corpo em áreas florestais de elevada perigosidade, num contexto de acacial, eucaliptal e pinhal denso, a frente de fogo cresceu rapidamente e deu origem a novos focos, tornando a situação incontrolável”, descreveu a associação.

Ao final da manhã do dia seguinte, a Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira encontrava-se já cercada pelas chamas.
Esta Reserva com 70 hectares é uma área composta por florestas antigas onde crescem soutos com dezenas de árvores centenárias, medronhais climácicos e bosques reliquiais de azereiros. Ali também existem azinheiras, carvalhos-alvarinhos, azevinhos, cerejeiras-bravas, adernos e aveleiras. Serve de refúgio a inúmeras espécies, entre elas o veado-vermelho, o corço, a águia-cobreira, o melro-d’água, a salamandra-lusitânica, o lagarto-d’água e a víbora-cornuda.
Agora, a Milvoz revelou que “o quadro após a passagem do incêndio é devastador”. “Os danos no seu coberto vegetal são severos, naquela que é uma verdadeira calamidade ecológica que compromete de forma irreversível o futuro dos seus ecossistemas.”

“Grande parte dos habitats maduros sucumbiu ao fogo ou ficou gravemente afetada: o medronhal climácico, os azinhais, os adernais, parte dos bosques de azereiro e inúmeros castanheiros centenários. As perdas ecológicas são imensuráveis nesta que era uma das poucas matas antigas que ainda resistiam até aos dias de hoje na região Centro de Portugal.”
Ainda assim, nem tudo se perdeu. O que resistiu ao fogo está nos vales e alcantilados desta área de conservação e linhas de água adjacentes, que arderam com muito menor intensidade e travaram localmente o avanço do fogo.
“Desleixo perante este património natural”
A Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira é uma das quatro bio-reservas da região Centro nas mãos desta associação de conservação, ao lado da Senhora da Alegria, Serra da Pescaria e da Morena.
Desde Agosto de 2022 que a Milvoz é comodatária daquela área natural, pelo período de 30 anos, através de contrato estabelecido com os proprietários dos terrenos e cujo objetivo foi o de garantir a sua preservação, acompanhamento e gestão ambiental.
O controlo de espécies vegetais invasoras nas zonas adjacentes à Reserva tem sido uma prioridade de ação sobre aquela que é a maior ameaça à conservação dos valores naturais.

Na verdade, a associação diz ter alertado repetidamente para a intensa proliferação de acácias na Serra da Lousã, um problema que “alcançou dimensões colossais, fruto da apatia e inoperância do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), bem como das sucessivas más práticas dos operadores florestais”.
Agora, essa invasão comprometerá ainda mais a recuperação dos ecossistemas da serra, receia a associação. “O vasto banco de sementes desta espécie invasora, acumulado ao longo de décadas, foi ativado pela passagem do fogo e germinará também nas áreas que ainda se mantinham preservadas, colocando em risco a sua regeneração ecológica.”
“Esta tragédia tem culpados, que irão ser chamados à sua responsabilidade.”
A Milvoz acusa o Estado Português de estar em incumprimento há mais de 10 anos numa área integrada na Rede Natura 2000. “Ao longo desse tempo deveriam ter sido implementadas medidas de gestão ativa para a preservação desta Zona Especial de Conservação e para evitar tragédias como as que acabam de acontecer. O desleixo perante o património natural do país reflete-se no estado de abandono a que foi votada a serra, que agora vê profundamente afetados alguns dos seus últimos redutos mais valiosos.”
A Milvoz garante que vai apresentar em breve uma reação mais detalhada. Além disso vai fazer um levantamento no terreno para identificar as áreas prioritárias para o desenvolvimento de um plano estratégico de restauro ecológico, dirigido às zonas de maior valor natural.

“Apelamos à união de cidadãos e entidades que partilham a vontade de agir por um futuro mais sustentável para a Serra da Lousã, para que juntos possamos impulsionar iniciativas sólidas de recuperação do património natural da região.”