A candidatura da Rewilding Portugal à votação da European Outdoor Conservation Association (EOCA), quer conseguir 30 mil euros para recuperar ribeiras, plantar milhares de árvores autóctones e melhorar os habitats para o regresso natural do castor. As votações estão abertas até 17 de novembro.
Todos os anos, a European Outdoor Conservation Association (EOCA) escolhe dois projetos de conservação da natureza para financiar com 30 mil euros cada um.
A votação pública arranca a 5 de novembro, às 12h00, e decorre até 17 de novembro, estando aberta à participação do público.
Este ano há nove finalistas, entre eles o projeto “The Beaver’s Return: Preparing Rivers for Their Expansion”, da Rewilding Portugal, previsto para o Parque Natural do Douro Internacional.
O grande objetivo é, segundo a Rewilding Portugal, “preparar os rios do Douro Internacional para o regresso natural do castor-europeu, uma espécie que desapareceu do território nacional há séculos”.
A organização explica, em comunicado, que quer “recuperar três ribeiras na região do Douro Internacional, através da remoção de árvores invasoras, da plantação de 5.000 árvores autóctones e da construção de duas pequenas estruturas inspiradas nos diques dos castores, destinadas a favorecer a retenção de água e a recuperação dos ecossistemas ribeirinhos”.
A candidatura surge numa altura em que o castor-europeu está a expandir naturalmente a sua distribuição na Península Ibérica, existindo registos recentes nas proximidades do Parque Natural do Douro Internacional.
Em junho de 2025, biólogos da Rewilding Portugal anunciaram ter conseguido o primeiro registo de castor-europeu (Castor fiber) no nosso país em 500 anos. Na altura, Pedro Prata, líder de equipa da Rewilding Portugal, contou à Wilder que em maio desse ano tinham encontrado “os primeiros indícios, que eram árvores e troncos roídos na margem do lado português, em frente ao estuário do Tormes”. Depois, as câmaras de foto-armadilhagem captaram vídeos e fotografias de, pelo menos, um indivíduo.
Agora, a organização quer “antecipar a possível chegada destes animais, melhorando as condições ecológicas dos cursos de água e permitindo que a espécie encontre habitats mais favoráveis à sua expansão”.
Preparar os rios para o regresso dos engenheiros da natureza
A Rewilding Portugal salienta que “os castores desempenham um papel fundamental na dinâmica dos rios e das zonas húmidas”. Com os seus diques nos cursos de água, estes animais “podem criar novos habitats, aumentar a retenção de água na paisagem e favorecer a biodiversidade”.
“A sua atividade pode beneficiar inúmeras outras espécies, incluindo anfíbios, aves, peixes e invertebrados, contribuindo simultaneamente para a recuperação de processos naturais e para uma maior resiliência dos ecossistemas perante períodos de seca.”
O problema é que muitos dos cursos de água que poderão vir a acolher o castor têm sinais de degradação, como espécies arbóreas invasoras e a perda de vegetação ribeirinha autóctone.
Por isso, este projeto da Rewilding Portugal pretende intervenções de restauro ecológico em três ribeiras do Douro Internacional. “Além da plantação de 5.000 árvores autóctones e da remoção de espécies invasoras, serão construídas duas pequenas estruturas inspiradas nos diques dos castores, procurando reproduzir algumas das suas funções ecológicas, nomeadamente a retenção de água.”
A organização esclarece que não está prevista a introdução ou libertação de castores em Portugal, mas sim a recuperação das condições naturais que poderão facilitar a sua futura expansão no território.
O regresso do castor
Tempos houve em que o castor vivia por toda a Europa, incluindo nos grandes rios da Península Ibérica, e era considerado uma espécie chave.
Em Portugal, o castor ter-se-á extinguido no século XV devido à destruição de zonas húmidas e à caça excessiva. No resto da Europa, o desaparecimento deste mamífero chegou mais tarde, no final do século XIX. A espécie viu-se reduzida a poucas populações fragmentadas devido, principalmente, à caça intensiva (por causa da carne, pêlo e óleo de castor).
A sorte do castor começou a mudar no início do século XX graças a projectos de reintrodução e translocação (movimentação de indivíduos de uma área para outra, para ajudar a restabelecer populações e recuperar territórios históricos).
O castor regressou à Península Ibérica em 2003, quando 18 animais foram libertados, de forma não oficial, no rio Aragão (comunidade de Navarra), vindos do Norte e Sudoeste da Europa. Em 2018, a Comissão Europeia declarou o castor uma espécie historicamente nativa e, depois disso, o Governo espanhol declarou o castor como espécie protegida.
“O regresso do castor a Portugal é um símbolo de esperança e de mudança. Mostra que, se deixarmos espaço e tempo à natureza, ela responde. Cabe-nos agora garantir que este regresso seja bem acolhido e protegido”, reforçou, em 2025, Pedro Prata.
A candidatura portuguesa integra um conjunto internacional de projetos finalistas que procuram responder a alguns dos principais desafios de conservação da biodiversidade.
Entre os restantes candidatos estão iniciativas para trazer de volta a lontra a Itália; recuperar Doñana em Espanha; proteger a hirola, um dos antílopes mais ameaçados do mundo, no Quénia; recuperar zonas húmidas essenciais para a sobrevivência do gato-pescador, no Nepal; restaurar florestas submarinas de algas na Noruega; proteger pangolins ameaçados pelo tráfico ilegal no Laos; e recuperar florestas amazónicas no Peru, através da plantação de espécies nativas e do envolvimento das comunidades locais.
A European Outdoor Conservation Association é uma organização internacional que reúne empresas do setor das atividades ao ar livre e apoia financeiramente projetos de conservação da natureza em diferentes regiões do mundo.
A votação pública decorre entre 5 e 17 de novembro de 2026 e está aberta à participação de todos os interessados. A Rewilding Portugal apela “à mobilização dos cidadãos portugueses e da comunidade internacional”, sublinhando que “cada voto válido pode contribuir para assegurar o financiamento necessário à recuperação destes ecossistemas”.