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Cemitérios de Lisboa: paraísos verdes no meio da cidade

04.11.2026
leitura de 6 minutos
Observação de aves no Cemitério de Carnide. Foto: Ana Paula Costa

Desde 2024 que a Câmara Municipal de Lisboa está a fazer o levantamento das aves que ocorrem nos cemitérios da cidade. Conheça esta iniciativa e junte-se a uma das visitas guiadas que a autarquia organiza para observar as aves selvagens nestes refúgios de biodiversidade urbana.

Antes das dez horas da manhã de uma terça-feira de outubro, um grupo de pouco mais de doze curiosos aguarda junto à entrada do Cemitério de Carnide, no limite entre os concelhos de Lisboa e Odivelas. Apesar do local fúnebre, o motivo é feliz: uma visita guiada para explorar o espaço e observar a avifauna que ali habita.

Visita guiada para observação de aves no Cemitério de Carnide. Foto: Ana Paula Costa

À chegada, cada participante recebe um par de binóculos e uma breve instrução de como os ajustar para observar melhor as aves. Antes mesmo de a caminhada começar, já é possível ver pássaros ao longe e ouvir os seus cantos, que muitas vezes são rapidamente identificados por Luís Gordinho, biólogo e técnico superior da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que orienta a visita. 

Durante a caminhada, todos estão atentos às características das aves que aparecem, como as suas cores, tamanho e padrões. Com a ajuda da aplicação Collins Bird Guide no seu telemóvel, que inclui ilustrações e sons de mais de 900 espécies de aves, Luís Gordinho mostra no ecrã as espécies que se vêem no cemitério. 

“Melhor do que todas essas características das aves, claro, é o barulho que elas fazem e que nós vamos estar a ouvir durante todo o caminho”, diz Luís ao iniciar a visita. O canto delas é essencial para quem tenta avistá-las ou mesmo contabilizá-las. Afinal de contas, muitas vezes estão no meio de arbustos e quase não se mostram, explica o investigador.

Refúgios no meio da cidade

A ideia de andar no cemitério fora de momentos de luto pode causar estranheza. Há mais de uma década, no entanto, a CML organiza visitas guiadas aos cemitérios da cidade, e não faltam outros motivos para atrair visitantes a estes locais.

“Nasci praticamente em frente ao Cemitério dos Prazeres e nunca o vi como um cemitério, mas sim como um museu a céu aberto”, conta Susana Morais, uma das participantes da visita ao Cemitério de Carnide e assídua frequentadora destes espaços. Após enfrentar um divórcio difícil, diz que o local se tornou ainda mais importante para si. “Na época, a minha filha mais nova tinha dez dias, e ali tornou-se o meu refúgio. Punha a bebé no carrinho e podia andar e chorar ali à vontade. Ninguém me ia questionar.”

Visita guiada para observação de aves no Cemitério de Carnide. Foto: Ana Paula Costa

Alguns anos depois, Susana descobriu as visitas guiadas da CML e nunca mais olhou para trás. “É uma atividade diferente, pela qual nem todo o mundo se interessa”, admite. Susana diz que muitos dos seus amigos não entendem o seu interesse e chegam a perguntar se é “gótica”, ao que responde: “Não, não é a morte em si o que me atrai. É que em cada visita aprendemos imenso”. 

Conhecer a arquitetura, visitar jazigos e túmulos históricos ou mesmo refletir sobre a morte são algumas das razões que têm atraído cada vez mais pessoas aos cemitérios de Lisboa. Avistar aves, no entanto, é uma atividade recente na cidade e faz parte de uma visão que encara estes espaços como locais de biodiversidade, os quais devem estar incluídos em estratégias de conservação.

“Pode parecer curioso que os cemitérios de Lisboa estejam integrados numa direção dedicada ao ambiente, à estrutura verde, ao clima e à energia”, comentou Margarida Castro Martins, diretora Municipal do Ambiente, Estrutura Verde, Clima e Energia da CML, na abertura da 2.ª Jornada Interdisciplinar Sobre Cemitérios, evento que ocorreu alguns dias depois da visita em Carnide. “Em conjunto, [eles] são parte relevante da estrutura verde da cidade. São espaços arborizados, tranquilos e que funcionam também como refúgios climáticos e reservatórios de biodiversidade”, acrescentou.

Mais de 2 mil aves mapeadas na capital

Lisboa tem dez cemitérios, dos quais sete são municipais e três (o britânico, o alemão e o israelita) não-municipais. Para a fauna da capital, em especial as aves, estes espaços são sinónimo de refúgio: alheias aos objetivos fúnebres destes locais, encontram neles oásis verdes no meio da cidade, essenciais tanto para as aves residentes quanto para as espécies invernantes.

Melro-preto (Turdus merula). Foto: Manfred Richter/Pixabay

Em 2024, iniciou-se um levantamento da avifauna presente em nove dos cemitérios de Lisboa (o israelita não foi tido em conta por não possuir área verde). Coordenado por Luís Gordinho, o projeto está a recolher dados nos três momentos mais críticos do ano para as aves: a primavera, o inverno e durante a migração pós-nupcial (de agosto a outubro). 

Para o investigador, os resultados obtidos até agora “mostram que os cemitérios são locais a ter em consideração na monitorização e promoção da biodiversidade urbana”.

As amostragens de inverno identificaram 2.281 aves de 57 espécies distintas, nativas ou naturalizadas em Portugal, sendo o Cemitério de Carnide precisamente o local com o maior número de espécies diferentes identificadas, num total de 40. Logo a seguir surgem os cemitérios do Alto de São João e do Lumiar com 37 e 36 espécies, respetivamente.

“Carnide está naquilo que nós chamamos o Corredor Verde Periférico, portanto tem muito mais aves do que propriamente no centro da cidade”, assinala Luís Gordinho.

A visita em busca da avifauna do cemitério segue com paragens constantes para observar e conversar sobre as aves que aparecem nos céus ou mesmo na relva. Este é o cemitério mais novo de Lisboa, com apenas 30 anos – enquanto outros, como o dos Prazeres, têm mais de 100 – e encontra-se num local privilegiado. 

O trabalho de inventariação das aves nesta época do ano foi feito em períodos noturnos e diurnos, e teve em conta animais que foram avistados ou apenas ouvidos. Estorninhos-pretos, melros e rabirruivos-pretos foram algumas das espécies mais identificadas. Destacam-se também aves ameaçadas ou quase-ameaçadas de acordo com a Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental de 2022: açores, peneireiros-de-dorso-malhado, garças-boieiras e maçaricos-bique-bique.

Garça-boieira. Foto: Alexis Lours/WikiCommons

Proteger a fauna urbana e diminuir os impactos de sua coexistência com os humanos é essencial para o bem-estar animal. Durante a visita em Carnide, Luís Gordinho exemplifica como a proximidade com humanos tem afetado as aves. “Elas estão a subir um bocadinho a frequência do seu canto, estão a cantar um bocadinho mais agudo para que não haja uma sobreposição tão grande com o ruído da cidade e para facilitar a sua comunicação”, exemplificou.

À medida que o turismo cemiterial aumenta, torna-se ainda mais necessário desenvolver e promover ações para garantir que estes espaços sejam protegidos e que as visitas aconteçam de forma sustentável para humanos e animais. Edite Queiroz, psicóloga e autora do livro “A Morte Já Não É o Que Era”, defende na sua obra que o turismo cemiterial tem um papel “importante, se não indispensável, na preservação dos cemitérios históricos”.

A visita guiada em Carnide termina pouco depois das 11 horas, com participantes satisfeitos e entusiasmados a continuar a conversar com Luís Gordinho e a equipa da CML presente no local. Ao fundo, as aves lá estão a encher os céus e as árvores e arbustos, prontas a encantar os que por lá passam com os olhos e os ouvidos atentos.


Agora é a sua vez.

Saiba como colaborar na catalogação da biodiversidade dos cemitérios de Lisboa

Para expandir a catalogação da biodiversidade, a Câmara Municipal de Lisboa está a recorrer à Ciência Cidadã. No portal iNaturalist, foi criado o projeto Cemitérios de Lisboa que reúne os dados da biodiversidade dos cemitérios alfacinhas.

Quem quiser contribuir só precisa descarregar a aplicação e submeter as espécies identificadas no local. Assim, com um simples toque no ecrã do telemóvel, residentes e visitantes podem auxiliar na proteção e conservação destes refúgios de biodiversidade no coração de Lisboa.

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