O cortiçol-de-barriga-preta e o cortiçol-de-barriga-branca são espécies ameaçadas. Este ano, João Paulo Silva e Carlos Pacheco, do grupo do CIBIO – Steppe Birds Move ajudaram a colocar emissores GPS em 17 aves na Extremadura espanhola para descobrir mais sobre estas aves (agora) raras.
O cortiçol-de-barriga-preta (Pterocles orientalis) é uma das aves mais raras de Portugal. É uma das 33 espécies classificadas Em Perigo de extinção pela Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental (2022). Os indivíduos que restam vivem, sobretudo, no Baixo Alentejo, nomeadamente na região de Castro Verde e de Mértola.

Já o cortiçol-de-barriga-branca, também conhecido por ganga (Pterocles alchata), ainda está mais ameaçado, com estatuto de Criticamente Em Perigo de extinção.
Nesta altura do ano, os cortiçóis – que são espécies de reprodução tardia, iniciando a nidificação na segunda metade de maio – ainda estão em bandos, que se formam geralmente a partir do final do mês de setembro inícios de outubro, após o fim do período reprodutor.
Mas no campo já se conseguem detectar alguns comportamentos de paradas nupciais.
Desde 2021 que o grupo do CIBIO – Steppe Birds Move coordena um programa de marcação e seguimento destas aves, mediante a colocação de emissores GPS, numa parceria com a Junta de Extremadura, em Espanha, e com o investigador François Mougeot, do IREC (Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos). Em Portugal são capturados e marcados apenas cortiçóis-de-barriga-preta.

“Procuramos com os nossos programas de marcação de longo termo compreender não só sua ecologia, uso do habitat e movimentos, como também parâmetros demográficos, com destaque para a obtenção de parâmetros reprodutores e de sobrevivência”, explicaram à Wilder João Paulo Silva e Carlos Pacheco, pouco depois de ter terminado a época de marcações de 2026.
Desde o início deste programa de seguimento, a equipa já marcou mais de 70 indivíduos de cada espécie.
Este ano, as marcações de cortiçóis terminaram em meados de março. “Na presente temporada atingimos os objetivos para este ano em duas campanhas, com um total de 17 indivíduos marcados”, acrescentaram. Mais especificamente, a equipa conseguiu marcar nove cortiçóis-de-barriga-branca e oito cortiçóis-de-barriga-preta.
Os trabalhos com os cortiçóis-de-barriga-branca têm decorrido na Extremadura espanhola, essencialmente em La Serena (a principal área de estudo, em Badajoz) e Llanos de Brozas (Cáceres), onde ocorrem as populações mais significativas. Em Portugal, as marcações de cortiçóis-de-barriga-preta têm acontecido no Baixo Alentejo, na região de Castro Verde e Moreanes (Mértola).
“O nosso objetivo é caracterizar as diferentes populações e contextos nas áreas de estudo (Alentejo e Extremadura), pelo que procuramos cobrir algumas das diferentes áreas onde ocorrem”, explicaram.
Como se capturam e marcam cortiçóis
Nesta época, as capturas e marcações dos cortiçóis incidiram exclusivamente na região de Llanos de Brozas. Foram realizadas nos períodos de lua nova de fevereiro e março, sensivelmente a meio desses meses.

João Paulo Silva e Carlos Pacheco explicaram como tudo aconteceu. “As capturas são preparadas antecipadamente mediante prospeção do terreno durante a tarde, por várias equipas, com o objetivo de localizar os bandos e identificar as áreas prováveis dos seus dormitórios (são aves que dormem no solo). Depois a equipa, geralmente constituída por quatro a cinco elementos, regressa a esses locais já de noite e procede às capturas. Estas são feitas através de uma técnica de encandeamento (“dazzling“), em que dois elementos se deslocam à frente, no escuro, o mais silenciosamente possível e com binóculos térmicos detetam as aves. Uma vez detetadas e a uma determinada distância, é ligada uma lanterna forte para as encandear e as aves são capturadas com uma rede de mão. A restante equipa aproxima-se e as aves são processadas de imediato e libertadas uns minutos depois.”
Este tem de ser um “processo muito expedito, dado que os cortiçóis são extremamente sensíveis à manipulação e é de extrema importância que o tempo de manipulação não exceda os 10 minutos”.


Nas capturas deste ano participaram vários elementos da equipa do grupo de investigação Steppe Birds Move (Carlos Pacheco, João Paulo Silva, Irene Sánchez e os alunos de doutoramento Gonçalo Ferraz e Beatriz Saldanha, ambos a desenvolver as suas teses com aspetos que envolvem estas espécies) e dois elementos do grupo de Investigação do IREC, François Mougeot e Mário Fernández-Tizón. O projeto é coordenado pelo investigador responsável pelo Steppe Birds Move, João Paulo Silva. Os trabalhos de campo, tanto capturas como trabalho de campo complementar sāo coordenados por Carlos Pacheco. As capturas são também realizadas por François Mougeot.
Espécies em declínio
Desde o início do programa, em 2021, a informação recolhida “tem sido usada para compreender a biologia de reprodução, movimentos, ecologia ao longo do ciclo anual e agora também o uso de micro-refúgios, para compreender como estas aves lidam com eventos extremos de calor, por exemplo”, explicam os responsáveis.
Mas além do seguimento remoto, estas populações têm sido acompanhadas também por um “intenso trabalho de campo” que pretende descobrir, por exemplo, as principais causas de mortalidade e de insucesso reprodutor ou ainda estimar a dimensão dos grupos de indivíduos.
Todo este trabalho tem contado com vários tipos de financiamento, desde um projeto Interreg / Feder, protocolos de colaboração com a Junta de Extremadura e a financiamento de empresas privadas, geralmente relacionados com projetos ligados à energia e ao impacto das infraestruturas.
De momento, o cortiçol-de-barriga-branca poderá já estar extinto como reprodutor em Portugal. Segundo João Paulo Silva e Carlos Pacheco, ocorrem “apenas indivíduos de forma pontual em áreas fronteiriças na região do Tejo Internacional, confinantes com a população dos Llanos de Brozas”.
Por seu lado, o cortiçol-de-barriga-preta conta com uma “população de algumas centenas de indivíduos, distribuídos por diversos pontos do Alentejo. Os núcleos mais relevantes localizam-se na região de Castro Verde e Mértola, ocorrendo também na ZPE de Mourão/Moura/Barrancos, ZPE de Campo Maior e marginalmente na ZPE de Évora e na concelho de Alcoutim”. Existe ainda um pequeno núcleo reprodutor na Campina de Idanha-a-Nova. Mas, adverte Carlos Pacheco, este “está fortemente ameaçado pela enorme conversão de agricultura e pastorícia extensivas em amendoais e olivais intensivos”.
“Com os nossos estudos temos constatado que esta espécie tem um sucesso reprodutor muito baixo e uma elevada mortalidade adulta”, acrescentaram. “Contudo, constatamos que em Espanha, onde temos mais dados, excepcionalmente, há anos que podem ser melhores, e que possivelmente estes anos serão fundamentais para que o declínio populacional seja menos acentuado.”