O aviso é feito pela União Internacional para Conservação da Natureza, com base na atualização mais recente da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, divulgada esta quinta-feira.
Existem agora 175.909 espécies de todo o mundo avaliadas pelos peritos que estão ligados à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), das quais 49.505 (28%) estão ameaçadas de extinção, incluindo mais de metade dos moluscos que vivem no mar profundo, junto às chaminés hidrotermais.
“A vida na Terra tem-se adaptado para sobreviver nos habitats mais invulgares e hostis, como os moluscos do mar profundo que vivem em redor de chaminés extremamente quentes ou a rã de chuva do deserto que se abriga na areia. À medida que as pressões sobre a biodiversidade aumentam no planeta, mesmo as criaturas com as estratégias de sobrevivência mais engenhosas estão sob ameaça”, comentou a diretora-geral da UICN, Grethel Aguilar, numa nota de imprensa divulgada esta quinta-feira pela organização internacional.
“Todavia, não nos podemos esquecer de que existe um caminho claro para sair desta crise de biodiversidade: a conservação da natureza resulta, tal como somos lembrados uma e outra vez. Ao protegermos a fantástica diversidade da biodiversidade no nosso planeta, podemos preservar um ambiente acolhedor tanto para os humanos como para a vida selvagem.”

De acordo com os dados agora divulgados pela UICN, 62% dos moluscos endémicos das chaminés hidrotermais, que sobrevivem apenas nestes locais do mar profundo, estão hoje ameaçados de extinção por operações de mineração de minerais valiosos.
Estas espécies habitam em profundidades superiores a 5000 metros abaixo da superfície do mar, em torno de chaminés que libertam água que está a temperaturas que pode ultrapassar os 450.ºC, explica a organização internacional que gere a Lista Vermelha. Muitos desses moluscos – que incluem caracóis, lapas, mexilhões e amêijoas – foram descobertos apenas nos últimos 10 anos, mas já enfrentam um risco de extinção devido à perturbação humana sobre o seu habitat.
Em causa está, desde logo, a exploração do leito marinho e a extração de minerais, cuja procura está a crescer devido ao uso crescente de novas tecnologias. Estas operações no fundo do oceano provocam “a formação de plumas de sedimentos que asfixiam os animais, prejudicando a sua capacidade de respirar e de absorver os nutrientes da água que os rodeia”.
Caracol “feliz” mais próximo da extinção
Uma das espécies mais afetadas é o caracol marinho Lirapex felix, que foi assim chamado devido à sorte que os cientistas tiveram de o descobrir. Devido à continuação da mineração no Oceano Índico, esta espécie passou de Em Perigo para Criticamente em Perigo, o degrau mais grave de ameaça antes da extinção na natureza.
“Muitas destas espécies passam por ameaças semelhantes, uma vez que as chaminés de fontes hidrotermais sem jurisdição nacional são exploradas para mineração, com o respetivo contrato controlado por muitos países diferentes.” A avaliação global dos moluscos endémicos das chaminés hidrotermais, cujos resultados foram revelados esta quinta-feira, mostra também que as áreas protegidas e de conservação, onde não é permitida a mineração, são importantes, acrescenta a UICN.
De facto, em todo o mundo, mais de 30 espécies destes moluscos têm o estatuto de Pouco Preocupante devido ao facto de habitarem em áreas marítimas protegidas, sublinha a mesma entidade. Um exemplo é a Provanna exquisita, um búzio que vive exclusivamente num refúgio de vida selvagem no Oceano Pacífico.
Os dados agora divulgados demonstram, segundo a organização internacional, que este grupo de moluscos oceânicos está entre “os mais fortemente ameaçados em todo o mundo, e isto numa altura crítica para o seu futuro” sublinha a organização, que acrescenta que estes impactos da mineração no mar profundo vão ser levados ao encontro da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, que acontece este mês na Jamaica.
“A posição da UICN é clara: em 2021, a União votou a favor de uma moratória quanto à mineração em mar profundo, enquanto todos os riscos não forem compreendidos e o ambiente marinho não for efetivamente protegido”, sublinha Julia Sigwart, membro do Grupo de Especialistas em Moluscos da IUCN e responsável pelo departamento de Zoologia Marinha da sociedade alemã Senckenberg Nature Research Society, parceiro que coordenou esta avaliação.

Também ameaçada por explorações mineiras, mas neste caso ao longo da costa ocidental da Namíbia e da África do Sul, a rã-de-chuva-do-deserto (Breviceps macrops) entrou no grupo das espécies em risco de extinção, passando de Quase Ameaçada a Vulnerável. Este anfíbio, além de pressionado pela exploração mineira de diamantes, é também afetado pela construção de infra-estruturas energéticas na área onde vive. Estas últimas, que incluem um projeto de hidrogénio verde, deverão afetar cerca de um terço da área de distribuição deste anfíbio na África do Sul e outros dois terços na Namíbia, ao longo dos próximos 20 anos.
Além das alterações climáticas e do stress associado ao calor e à aridificação, que poderão pressionar ainda mais esta rã, outra ameaça de que suspeitam os peritos que avaliaram o estatuto desta espécie é o aumento da sua procura como animal de estimação, na sequência de vídeos divulgados com os chamamentos que fazem estes animais quando ficam em stress. “Sem futuras ações de conservação, a população da rã-de-chuva-do-deserto deverá perder 20% na próxima década”, avisam.
Boas notícias para o numbat
Em contrapartida, o marsupial que é o símbolo da fauna da Austrália Ocidental está agora em melhor situação: o numbat (Myrmecobius fasciatus) passou de Em Perigo para Quase Ameaçado, saindo assim do grupo de espécies que na Lista Vermelha são consideradas em risco de extinção.
Durante muito tempo, o numbat esteve espalhado pelo sul australiano, mas o aumento do número de mamíferos invasores como o gato e a raposa, introduzidos no país por ação humana, fizeram com que restassem só cerca de 300 numbats no final dos anos 1970, explica a UICN.

Entretanto, graças a investigação sobre esta espécie, nos anos 1980, e ao arranque de um plano de recuperação na década seguinte, existem hoje entre 2000 e 3000 numbats em liberdade na natureza.
Todavia, a presença destes animais está limitada a apenas 0,4% da área original de distribuição, e continua a ser necessário controlar as populações de gatos e de raposas que ameaçam este pequeno marsupial, avisa a organização.