Painho-de-cauda-quadrada (Hydrobates pelagicus). Foto: Victor Paris

Cientistas portugueses estudam as mais pequenas aves marinhas do mundo

O projeto internacional SEAGHOSTS vai juntar 16 parceiros de 14 países, com o objetivo de conhecer melhor e proteger as seis espécies de painho que se reproduzem no Atlântico Norte.

Do lado português, os trabalhos do novo projeto SEAGHOSTS vão ser assegurados por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do OKEANOS – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, da Universidade dos Açores, explica uma nota de imprensa destas duas entidades e também da Universidade de Barcelona, que coordena toda a equipa.

O objetivo é monitorizar e conservar as populações de painhos, as aves marinhas mais pequenas do planeta, representadas por seis espécies diferentes no Atlântico Norte – todas elas “são exclusivamente noturnas em terra, não pesam mais que 50 gramas e nidificam em pequenas cavidades em rochas ou solo”, descrevem os responsáveis do projeto. Como os painhos são “muito difíceis de estudar”, conhece-se ainda muito pouco sobre o seu modo de vida e mesmo sobre a sua taxonomia, ou seja, a forma como estão organizados por espécies.

No SEAGHOSTS participam um total de 16 parceiros de 11 países europeus e também de Cabo Verde, Estados Unidos e Canadá, que até 2027 vão trabalhar para compreenderem melhor o ciclo anual destas seis espécies de painhos, as áreas oceânicas que estas pequenas aves marinhas utilizam na reprodução durante a migração, e também para identificar as ameaças que as afetam no espaço europeu.

“Através deste trabalho, teremos a oportunidade de mapear a sensibilidade a ameaças com origem na ação humana no mar, e ajudar a identificar as áreas marinhas mais importantes para a conservação dos painhos que habitam os nossos mares”, explica José Pedro Granadeiro, investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e membro deste projeto.

Um painho exclusivo dos Açores

Entre as seis espécies de painhos, há duas endémicas: o pedreirinho (Hydrobates jabejabe), que nidifica exclusivamente em Cabo Verde, e o painho-de-monteiro (Hydrobates monteiroi), que se reproduz apenas nalgumas ilhas dos Açores e foi a Ave do Ano 2021.

De acordo com o Atlas das Aves Marinhas de Portugal, existe ainda outro painho que se reproduz em território nacional, tanto nas Berlengas (ao largo de Peniche) como nos Açores e Madeira, embora não de forma exclusiva: o roque-de-castro (Hydrobates castro).

A Ilha Selvagem, na Madeira, é um dos locais de nidificação do roque-de-castro (Hydrobates castro). Foto: José Pedro Granadeiro

Já o painho-de-cauda-quadrada (Hydrobates pelagicus) e o painho-de-cauda-forcada (Hydrobates leucorhous) são apenas migradores de passagem, em Portugal.

Verónica Neves, investigadora do Instituto OKEANOS, afirma que “esta será uma ótima oportunidade para aprofundar o nosso conhecimento sobre a ecologia espacial global dos painhos e contribuir para a preservação destas pequenas aves”, acrescentando que estes animais são fantásticas sentinelas do ecossistema marinho: “São altamente pelágicos, percorrem grandes distâncias no mar, têm uma vida muito longa e são extremamente sensíveis às ameaças antropogénicas em geral”. Resumindo, “são objetos de estudo ideais!”

A equipa pretende assim obter informação nova em toda a Europa, que irá ser combinada com os dados de monitorização resultantes de estudos anteriores.

Painho-de-cauda-quadrada (Hydrobates pelagicus), também conhecido por alma-de-mestre. Foto: Victor Paris

Uma das preocupações dos investigadores é o impacto da pegada humana sobre estas espécies e sobre o meio marinho em geral, uma matéria ainda pouco conhecida. Um exemplo: “O grande investimento em tecnologias de baixo carbono e a rápida transição para fontes de energia renováveis, como por exemplo parques eólicos e solares offshore, pode ter impactos muito prejudiciais nos ambientes marinhos”, adiantam, sublinhando que “o conhecimento das rotas migratórias de várias espécies de painhos permitirá a identificação de ameaças e de zonas prioritárias para a conservação das espécies.”

O projeto SEAGHOSTS foi um dos 33 selecionados no âmbito da iniciativa BiodivMon do programa Biodiversa+, sendo os parceiros portugueses financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.


Saiba mais.

Conheça melhor as espécies de painhos que se reproduzem ou são migradores de passagem em Portugal e ainda outras espécies, no Atlas das Aves Marinhas de Portugal.

Inês Sequeira

Foi com a vontade de decifrar o que me rodeia e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista e que estou, desde 2022, a fazer um mestrado em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Comecei a trabalhar em 1998 na secção de Economia do jornal Público, onde estive 14 anos. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água”. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.