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As estratégias das plantas: invasoras, quando vencer significa desequilibrar

08.08.2025
leitura de 7 minutos
Erva-das-Pampas (Cortaderia selloana). Foto: Forest & Kim Starr/Wiki Commons

Nem todas as estratégias de sobrevivência resultam em equilíbrio. Na natureza, vencer pode significar crescer mais depressa, ocupar mais espaço, resistir melhor, mas também substituir outras espécies, transformar habitats e reduzir a diversidade. E, neste caso, o sucesso de uma planta pode tornar-se uma ameaça para o ecossistema.

O lado oculto da adaptação

Há plantas que prosperam em ambientes perturbados, como  terrenos abandonados, margens de estradas, áreas degradadas ou sujeitas a incêndios recorrentes. Adaptam-se com rapidez, exploram recursos com eficácia e multiplicam-se com facilidade. À primeira vista, parecem estar simplesmente a ocupar um vazio. Mas, muitas vezes, fazem-no de forma tão eficaz que acabam por excluir a flora nativa e empobrecer o ecossistema.

Chorão-das-areias. Foto: Georges Jansoone/Wiki Commons

É o caso de várias espécies invasoras — plantas que foram introduzidas noutros tempos com intenções bem definidas, como fins ornamentais, florestais ou de estabilização de solos, e que escaparam ao controlo. Muitas são exóticas, ou seja, originárias de outras regiões, e ao crescerem fora do seu habitat natural, deixam de ter predadores, doenças ou espécies concorrentes que as mantenham em equilíbrio. Sem essas pressões, expandem-se rapidamente e alteram profundamente os habitats onde se instalam.

Importa sublinhar que nem todas as plantas exóticas se tornam invasoras: algumas permanecem discretas, sem impacto significativo na biodiversidade.

Por outro lado, mesmo algumas espécies nativas, especialmente em ambientes muito perturbados, podem adotar comportamentos invasivos, competindo agressivamente com outras plantas e contribuindo para o desequilíbrio.

O que está em causa não é apenas a origem da espécie, mas o seu comportamento ecológico e os efeitos que produz no sistema que ocupa.

Presenças familiares, impactos invisíveis

Espécies como a mimosa (Acacia dealbata), o chorão-das-praias (Carpobrotus edulis), a erva-das-pampas (Cortaderia selloana), a háquea-picante (Hakea decurrens), o espanta-lobos (Ailanthus altissima), a azeda (Oxalis pes-caprae) ou a cana (Arundo donax) são alguns exemplos em que o que começou por ser utilidade ou beleza rapidamente se tornou descontrolo.

Erva-das-Pampas (Cortaderia selloana). Foto: Forest & Kim Starr/Wiki Commons

Estas espécies partilham estratégias eficazes: crescimento acelerado, elevada capacidade de propagação e uma forte aptidão para dominar os espaços que ocupam. Formam manchas densas que dificultam a regeneração da vegetação autóctone, alteram as características do solo e influenciam a estrutura e funcionamento dos ecossistemas onde se instalam.

A mimosa é uma espécie que guardo na memória de infância: lembro-me das extensas manchas amarelas que cobriam as encostas perto de casa, e das flores perfumadas que apanhava para enfeitar a jarra. Só mais tarde, já a estudar florestas, percebi que aquela beleza escondia um problema grave. A mimosa cresce rápido, forma densos mantos a partir de um vasto banco de sementes que permanece viável no solo durante décadas e possui uma elevada capacidade de regenerar, assegurando a sua persistência e expansão. 

O chorão-das-praias, com as suas folhas suculentas e flores vistosas, ocupa as dunas e interfere com a estabilidade e biodiversidade destes ecossistemas frágeis.

A erva-das-pampas, durante anos popular em jardins e separadores de estradas, espalha as suas sementes ao vento, colonizando com facilidade áreas de mato e campos abertos.

Espécies como a háquea-picante e o espanta-lobos, talvez menos conhecidas mas igualmente problemáticas, formam povoamentos densos que competem diretamente com a flora autóctone e modificam o habitat. 

A azeda, discreta e com pequenas flores amarelas, cobre campos e bermas de caminhos durante o inverno, formando verdadeiros tapetes monoespecíficos que limitam a diversidade vegetal.

Já a cana, cresce junto a linhas de água formando barreiras quase impenetráveis que alteram os ecossistemas ripícolas.

As alterações climáticas agravam este cenário. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas e os incêndios recorrentes criam condições de stress que favorecem muitas invasoras e dificultam ainda mais a recuperação da vegetação nativa.

Estas estratégias de sobrevivência, embora eficazes para as plantas invasoras, têm um custo elevado para a biodiversidade e para o equilíbrio dos ecossistemas onde se instalam. São estratégias eficazes, mas também disruptivas.

Nos últimos anos, ao estudar mais de perto estas invasoras, o que começou como curiosidade científica transformou-se num alerta: estas espécies não estão apenas a adaptar-se, estão a tomar o lugar de muitas outras, em silêncio, mas com efeitos devastadores. A cada estação que passa, seja na ausência de intervenção, ou em consequência de ações desajustadas, o desequilíbrio nos ecossistemas intensifica-se, com as invasoras a expandirem-se progressivamente e as espécies nativas a regredir até ao desaparecimento.

O preço da vitória: espécies nativas ameaçadas

Enquanto as plantas invasoras conquistam espaço com estratégias agressivas, muitas espécies nativas enfrentam um futuro incerto. Essas plantas, adaptadas durante milénios aos ecossistemas locais, começam a perder terreno e recursos essenciais para a sua sobrevivência.

Este fenómeno compromete a renovação das florestas autóctones e ameaça muitas das espécies que delas fazem parte.

Árvores emblemáticas como o carvalho-português (Quercus faginea), o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), o castanheiro (Castanea sativa) e o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) dependem da regeneração natural a partir de sementes e plântulas que, devido à sombra densa e à competição provocada pelas invasoras, muitas vezes não conseguem estabelecer-se.

Medronheiro. Foto: sara150578/Pixabay

Também arbustos e pequenas árvores mediterrâneas, como o medronheiro (Arbutus unedo), as urzes (Erica spp.), o folhado (Viburnum tinus), o sanguinho-das-sebes (Rhamnus alaternus), o pilriteiro (Crataegus monogyna) ou o zambujeiro (Olea europaea subsp. europaea var. sylvestris), veem a sua sobrevivência ameaçada pela alteração das condições do solo e pela intensa competição por luz e recursos.

Esta pressão torna-se ainda mais crítica para espécies naturalmente restritas a habitats muito específicos legalmente protegidas, como o azevinho (Ilex aquifolium), a gilbardeira (Ruscus aculeatus), o carvalho-de-monchique (Quercus canariensis) ou o azereiro (Prunus lusitanica), bem como para plantas que já figuram em listas de conservação devido ao seu estatuto de ameaça, e que enfrentam riscos acrescidos num território ocupado por invasoras, como a malva-das-arribas (Lavatera mauritanica subsp. davaei), a arméria-das-berlengas (Armeria berlengensis), o botão-d’oiro-do-Vouga (Ranunculus henriquesii), betónica-palustre (Stachys palustris) ou a cravina-de-sintra (Dianthus cintranus subsp. cintranus).

Mesmo entre espécies mais comuns – como o rosmaninho (Lavandula stoechas), a esteva (Cistus ladanifer) ou o tojo (Ulex europaeus) – já se sentem os efeitos da presença das plantas invasoras. Estas plantas, que contribuem para a biodiversidade, estabilização do solo e suporte da fauna local, perdem espaço e função nos ecossistemas onde predominavam.

Este “preço da vitória” das invasoras é uma perda silenciosa e gradual, mas de consequências profundas. A riqueza e singularidade da flora nativa estão em jogo, e com elas, o funcionamento saudável dos ambientes onde vivem.

Quando é preciso intervir

Perante esta ameaça silenciosa é fundamental adotar um olhar atento, informado e contínuo sobre as dinâmicas da paisagem. Não se trata de saber se são espécies “boas” ou “más”, “nativas” ou “exóticas”. O mais importante é compreender o seu comportamento: como cresce, como se propaga, como interage com o solo, a luz, com os animais e com as outras plantas.

Foto: Wilder/Arquivo

Algumas espécies podem parecer inofensivas ou até úteis à primeira vista, mas, se impedem outras de coexistir, estão a quebrar o equilíbrio natural. E esse desequilíbrio, muitas vezes subtil, pode ter efeitos profundos e duradouros.

É por isso que a prevenção e a vigilância são fundamentais. Identificar precocemente sinais de dominância descontrolada permite agir antes que o impacto seja irreversível. Controlar espécies invasoras, recuperar habitats degradados e apoiar a regeneração da flora nativa são formas concretas de intervir.

Mas também podemos agir nas escolhas do dia a dia: pensar no que plantamos nos jardins, cuidar de terrenos abandonados e valorizar a vegetação espontânea que ainda resiste. 

Muitas vezes, a disseminação de espécies invasoras é facilitada por decisões humanas inconscientes – como plantar o que parece bonito ou exótico, sem saber os riscos associados. Mudar esta perceção é parte fundamental da solução, e depende de mais sensibilização, educação e acesso à informação clara. 

Compreender as estratégias ecológicas das plantas que lhes permite prosperar descontroladamente é fundamental para o restaurar o equilíbrio dos ecossistemas.

Quando comecei a interessar-me por este tema, descobri o quanto ainda havia por aprender. Felizmente, já existem plataformas de ciência-cidadã acessíveis, como o invasoras.pt que disponibiliza informação útil sobre a identificação e controlo de espécies invasoras, e o Biodiversity4All, onde qualquer pessoa pode registar observações e contribuir para o conhecimento e monitorização da biodiversidade em Portugal.  São ferramentas valiosas para quem quer fazer parte da mudança, seja no terreno, em casa ou na forma como olhamos para a paisagem.

As estratégias das plantas moldam silenciosamente o futuro das paisagens que habitamos. Compreendê-las é imperativo para sabermos quando é que é necessário agir, não para travar a natureza, mas para restaurar o equilíbrio que permite que muitas espécies coexistam. Porque num mundo onde algumas vencem isoladamente, todos temos a perder.


Carine Azevedo é Mestre em Biodiversidade e Biotecnologia Vegetal, com Licenciatura em Engenharia dos Recursos Florestais. Faz consultoria na gestão de património vegetal ao nível da reabilitação, conservação e segurança de espécies vegetais e de avaliação fitossanitária e de risco. Dedica-se também à comunicação de ciência para partilhar os pormenores fantásticos da vida das plantas. 

Para acções de consultoria, pode contactá-la no email [email protected]. E pode segui-la também no Instagram.

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