O Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) passa a ser coordenado por Alexandra Pereira, antiga diretora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia no ICNF. O Instituto explicou à Wilder que vai dar um novo rumo à conservação deste felino, internalizando aquele espaço a partir de 1 de junho. Para isso, afasta a equipa e o coordenador especializados nesta espécie e está a criar um nova equipa. LPN e WWF Portugal não entendem o porquê da mudança e estão preocupadas com a continuidade de um trabalho que lembram ser altamente especializado.
Desde que abriu portas, em 2009, a gestão direta do CNRLI, coordenado pelo ICNF, tem estado subcontratada a uma empresa que integra na sua equipa 14 veterinários, tratadores e outros técnicos especializados, liderados por Rodrigo Serra. Este médico veterinário é especializado em felinos selvagens, diretor técnico do Centro e coordenador do Programa de Conservação Ex-Situ desta espécie a nível ibérico.
O contrato com esta equipa termina a 31 de maio e não será renovado. A autoridade nacional para a conservação da natureza informou a Wilder que pretende assumir a gestão direta do centro, contratando uma nova equipa que será liderada pela antiga diretora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia no ICNF, Alexandra Pereira, que esteve nesse cargo entre 2021 e 2025.

À beira da extinção no início do século, o lince-ibérico (Lynx pardinus) tem escalado a pulso o caminho de volta. Hoje há, pelo menos, 2400 linces na natureza, em Portugal e Espanha.
Mas este esforço conservacionista, que o tirou de Criticamente Em Perigo de Extinção em 2015, ainda não acabou. A meta é conseguir que o lince-ibérico, hoje classificado como Vulnerável, se torne numa espécie com estatuto de conservação favorável até 2035.
Grande parte do trabalho decorre dentro dos quatro centros de reprodução em cativeiro que, desde 2003, começaram a reproduzir esta espécie como solução de fim de linha para salvar o felino das barbas e pêlos em forma de pincel na ponta das orelhas.
Em Portugal, apenas existe um, o CNRLI, situado em Silves. Dele já saíram cerca de 120 linces que têm sido reintroduzidos em Portugal e Espanha para reforçar as populações naturais.

Quando este centro foi inaugurado, a 21 de maio de 2009, restavam menos de 150 linces-ibéricos em todo o mundo. A tarefa em mãos era, e continua a ser, de grande complexidade.
Quem vai ficar no centro
“Tentámos perceber se podíamos ficar com a equipa do Rodrigo Serra e se ele estava disponível para que isso acontecesse. Mas não tivemos o sucesso que estávamos à espera”, explicou Carlos Albuquerque, vogal do Conselho Diretivo do ICNF.
A Wilder perguntou qual foi a proposta apresentada aos trabalhadores dos quadros da empresa que operacionaliza o centro desde 2009, a RCS – Serviços de Veterinária e Conservação de Espécies Lda. “Oficialmente não posso dizer que fizemos essa proposta. Sondámos, abrimos essa hipótese, equacionámos junto das pessoas para saber se poderiam ficar connosco até as internalizarmos” no ICNF.
Ainda que não tenha sido apresentada uma proposta formal à empresa, terá sido referida uma solução que passaria pela realização de “contratos a prazo para aquelas pessoas, enquanto se aguardava a possibilidade de uma integração”, um processo que pode demorar. “A primeira opção era contactar quem já lá está e internalizar quer dizer que ficamos com elas. O contrato a prazo seria para agora.”

“As pessoas sabem que se quiserem têm um lugar connosco (…) porque teríamos interesse”, acrescentou.
De acordo com Carlos Albuquerque, “a empresa já foi contactada, está no último contrato mas ainda em plenas funções, e cumpre ao ICNF estar pronto para que a substituição não traga nenhum percalço ou sobressalto.”
De momento, o instituto que tutela a conservação da natureza estará a recrutar uma nova equipa, que ainda não estará completamente formada. “Mas já temos pessoas assinaladas e estamos a tratar da parte administrativa para rapidamente concretizarmos os contratos”, disse o responsável. Este garantiu que o instituto já está “a contratar mais pessoas, porque há mais pessoas. Temos concurso aberto e antes do fim do contrato com o Rodrigo Serra nós já teremos uma equipa”.
“Estamos a trabalhar num outro plano que esteve aberto desde o início, que era contratarmos nós outras pessoas capazes de o fazer. Obviamente que quem lá está tem mais experiência, mas também a experiência faz-se no dia-a-dia. Também temos gente muito preparada para isso. No plano veterinário estamos muito seguros”.
Para já, há pelo menos um nome definido: Alexandra Maria Silveira Pinto Pereira, médica veterinária especializada em bem-estar de animais de companhia e atual técnica superior do Departamento de Conservação da Natureza e Biodiversidade do ICNF, será a coordenadora do programa Ex-Situ e a coordenadora do CNRLI. Em causa está a conservação do lince-ibérico fora do seu habitat natural, incluindo a reprodução em cativeiro e a gestão genética da espécie.
“Quero evitar uma comparação curricular porque não é interessante ou elegante para nenhuma das partes. Ambos são técnicos muito bons, uma mais ligada à área da administração pública, que é a Alexandra, o Rodrigo é privado. Mas não são comparáveis; ambos são bons e qualquer um deles é capaz de fazer a coordenação do CNRLI. Como o Rodrigo foi capaz de o fazer, a Alexandra vai demonstrar que também o saberá fazer.”
Carlos Albuquerque garantiu que todas as linhas de trabalho no CNRLI “terão de estar preenchidas com pessoas e com a possibilidade de redundância, para poder suprir alguma falta”. O responsável acrescentou que também vão dar preparação e formação. “Vai haver mais gente a saber trabalhar com o básico no CNRLI.”
A menos de um mês da mudança, e ainda sem a equipa completamente formada, Carlos Albuquerque garantiu que “vai estar tudo pronto” a 1 de junho. “Creio que a equipa está a ser construída dentro do tempo que tem de ser, não vai haver percalços. Vai estar tudo pronto. Aliás, quero que a Alexandra (Pereira) vá para lá uma semana antes, para que a transição seja suave, para ela entrar nos processos.”
Segundo Carlos Albuquerque, a data mantém-se, 31 de maio. “Não tenho motivos para pensar que possa ser diferente.”

De momento, o ICNF também está à procura de um novo responsável para integrar o Grupo de Trabalho do lince-ibérico, que integra Portugal e Espanha. De momento, o responsável “é Rodrigo Serra, que fez e tem feito um bom trabalho. Ainda estamos a estudar entre nós um nome, mas vamos encontrar. O ICNF não vai deixar que haja qualquer sobressalto e a representação portuguesa manter-se-á. No Grupo de Trabalho vamos ter de certeza uma representação à altura.”
Decisão e motivações
Segundo Carlos Albuquerque, a decisão da internalização do CNRLI no ICNF partiu do conselho diretivo do instituto. “Isto é uma questão interna nossa. Porque, ao fim e ao cabo, nós somos a autoridade nacional e, de repente, tínhamos uma empresa a gerir uma coisa extremamente importante. E não é que fosse uma caixinha opaca, mas tínhamos de estar lá mais presentes. Mas isto não exclui o sucesso da equipa atual.”
Questionado quanto às motivações para esta mudança no Centro de Silves, Carlos Albuquerque respondeu que “o ICNF tem de estar mais presente nos destinos do CNRLI, para conseguirmos ter um maior controlo na capacidade de resposta” a eventuais problemas operacionais.
Explicou também que esta opção era “algo que já havia sido falado há muito tempo”. “Existe a necessidade de crescermos, de nos tornarmos mais rápidos e mais conscientes de que este é um projeto do ICNF, da Autoridade Nacional. (…) É um novo ciclo. Não há juízos de valor negativos sobre ninguém, antes pelo contrário.”
Além disso, é preciso “adaptarmo-nos ao sucesso deste programa e às novas exigências”. “O sucesso deste trabalho aumentou os desafios e as diferentes dimensões que envolvem o trabalho com o lince.” Carlos Albuquerque referiu ainda que está a ser trabalhada uma maior aposta no programa In-Situ, dirigido à conservação do habitat natural do lince, que prevê reforço de recursos humanos no terreno e de financiamento. “Queremos reforçar a equipa, ter mais pessoas no ICNF para fazer este trabalho e que possam acompanhar as coisas.”
Outras razões que ajudaram a acelerar este processo foram a perda do coordenador do programa In-Situ, Pedro Sarmento, que faleceu em janeiro passado, e a reforma iminente do coordenador para a reintrodução de lince-ibérico, João Alves. “Tudo isto acelerou a necessidade de termos um novo ciclo, uma nova forma de olhar, com outras dimensões.”
“No início estávamos dimensionados para arrancar com o programa de recuperação do lince em todos os níveis, do In-Situ e do Ex-Situ. Mas tivemos de crescer, temos de estar associados a uma componente positiva de sucesso e não necessariamente à correção de coisas que estavam mal. Temos de nos apetrechar e dimensionar para novos desafios. O novo ciclo é, sobretudo, a resposta a resultados de sucesso e não propriamente à correção de coisas negativas.”

E acrescentou que “no CNRLI já não é só reproduzir (linces) à toa, temos muito mais atenção à genética e temos que ter mais dados científicos, mais trabalho científico que nos vai obrigar a outras parcerias.”
Garantiu ainda que “a decisão sobre o CNRLI está tomada. Não há nada contra, nem um julgamento negativo do trabalho do Rodrigo Serra, mas há uma necessidade de o ICNF tomar um novo rumo mais envolvido” no centro, “com mais recursos humanos nossos lá”.
LPN e WWF Portugal preocupados com linces em Silves
Há quase 17 anos que o CNRLI é considerado uma peça crucial na conservação do lince-ibérico, desde que Azahar, o seu primeiro lince, entrou nas suas instalações a 25 de outubro de 2009.
Este Centro, instalado na Herdade das Santinhas em Silves, resulta de uma medida de compensação pela construção da barragem de Odelouca, imposta pela União Europeia, e é financiado pela empresa Águas do Algarve. A 6 de junho de 2008 foi celebrado entre o ICNF e a Águas do Algarve, S.A um protocolo que previa a construção do CNRLI e que vigorou até 31 de dezembro de 2025.
A 2 de maio passado, ambas as partes assinaram um novo protocolo de cooperação, em vigor até 31 de dezembro de 2037, para “apoiar a conservação do lince-ibérico em Portugal, através da disponibilização ao ICNF das instalações do CNRLI, em Silves, propriedade da AdA, em exclusivo para a reprodução em cativeiro desta espécie”.
Segundo o texto do protocolo, que prevê um contributo financeiro anual de 350 mil euros, para a gestão operacional do Centro “poderá ser estabelecida uma parceria com entidades públicas ou privadas, nos termos a definir pelo ICNF e com o adequado acompanhamento técnico e com a concordância da AdA.”
É precisamente a continuação deste “adequado acompanhamento técnico” que preocupa tanto a Liga para a Protecção da Natureza (LPN) como a WWF – Portugal, ambas representadas na Comissão Executiva do Plano de Ação para a Conservação do Lince-ibérico em Portugal (PACLIP) e que já estão a par das alterações e pediram esclarecimentos.
“Aquilo que nos foi explicado é que há insuficiências diversas no atual modelo de governança, que o ICNF não explica exatamente quais são, mas que são questões internas organizacionais”, disse à Wilder Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal.
“Garantiram-nos que o CNRLI estará sempre dotado de uma equipa técnica altamente especializada, quer seja com os atuais elementos, quer seja com outros, e que o ICNF assegura que não haverá descontinuidade em caso ou momento algum na prestação do serviço que atualmente o CNRLI exerce.”

Mas “a nós preocupa-nos esta questão da continuidade da equipa e de que haja uma equipa técnica altamente especializada. Porque, do ponto de vista técnico, a reprodução em cativeiro de uma espécie e a sua ligação a um programa de reintrodução da vida selvagem não é algo banal. Mesmo para médicos veterinários não é um trabalho banal e, não menorizando, mas não é o mesmo que tratar cães e gatos. E isso preocupa-nos porque somos um país pequeno, não há propriamente muita gente especializada nesta matéria. Mas estaremos atentos a ver o que é que acontece.”
Na opinião desta responsável, “embora isto seja do ponto de vista do ICNF uma questão de gestão interna, o CNRLI não deixa de ser uma peça fundamental do Plano de Ação para a Conservação do Lince ibérico em Portugal, uma peça fundamental também do trabalho que é feito a nível ibérico com Espanha na conservação desta espécie. Portanto estas alterações devem, na mesma, ser alvo de escrutínio público, não só pela comissão executiva, que não é pública.”
“Não sabemos porque decidiram mudar”
Também a LPN já se mostrou preocupada. “Fizemos perguntas, manifestámos alguma preocupação em relação ao que isto significa e o que o terá despoletado”, disse à Wilder Rita Martins, representante da LPN na Comissão Executiva do PACLIP. “Até aqui as coisas têm funcionado bem, com excelentes resultados. Não sabemos porque decidiram mudar. Mas há-de haver, certamente, um fundamento para isso e nós queremos conhecer qual é esse fundamento.”
“A nossa preocupação é que há todo um conhecimento altamente especializado desta equipa, que há tanto tempo faz este acompanhamento, há compromissos assumidos em termos de conservação ex-situ e é importante que eles não fiquem comprometidos. Há esta preocupação em garantir que há esta continuidade de trabalho, deste conhecimento técnico e não temos informações que nos esclareçam como é que isso vai ser assegurado.”
Para Rita Martins, a internalização parece-lhe fazer sentido. “Capacitar a nossa autoridade nacional destes recursos é mais seguro, não é? Mas será que não há mecanismos que permitam que a equipa se mantenha, se tem ‘jogado’ bem?. Transmitimos que a nossa preocupação maior é garantir a continuidade de todo este conhecimento técnico, que é muito especializado. Uma espécie silvestre com todas estas especificações não pode ser tratada como um gato grande.”
A LPN defende que deve haver uma garantia de que há “continuidade na especialização desta equipa técnica ou garantir que, a haver uma transição, ela tem o tempo suficiente para que esse conhecimento possa ser transmitido. O que nos interessa é o bom funcionamento daquele espaço.”

Rita Martins sublinhou ainda que “as coisas estão a correr bem, felizmente, mas o trabalho ainda não está concluído, há objetivos a cumprir, incluindo no contexto de um novo PACLIP” (2026-2030) que entrará brevemente em discussão pública.
O CNRLI faz parte de uma rede ibérica que inclui ainda outros três centros: Centro de La Olivilla (Jaén), Centro de Zarza de Granadilla (Cáceres) e Centro de El Acebuche (Huelva). Todos trabalham para garantir a maior diversidade genética possível para esta espécie e reforçar as populações no campo. Que ainda não estão a salvo do perigo, apesar da dedicação de equipas inteiras que trabalham há décadas com o lince-ibérico, símbolo do sucesso da conservação no mundo.