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Polinizadores representam mais de 2000 milhões de euros para a agricultura em Portugal

20.11.2025
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Abelhão-comum (Bombus terrestris). Foto: Alvesgaspar/Wiki Commons

Cientistas da Universidade de Coimbra analisaram todas as culturas agrícolas produzidas atualmente em território nacional. Mais de metade dependem da polinização prestada por abelhas e outros insetos.

Um novo estudo realizado pela Universidade de Coimbra (UC) avança, pela primeira vez, o valor económico que os polinizadores têm para a agricultura portuguesa. As culturas dependentes de insetos como as abelhas selvagens, moscas-das-flores e outros, que asseguram a produção de inúmeras sementes e frutos ao transportarem o pólen de umas plantas para outras, representaram mais de 2000 milhões de euros em 2023, estimam os investigadores, num artigo publicado recentemente na revista Regional Environmental Change. Essa quantia significou mais de metade (51%) da produção agrícola nesse ano.

Os ganhos que são atribuídos diretamente aos serviços de polinização prestados pelos insetos, tendo em conta a dependência maior ou menor de cada cultura, são igualmente significativos: totalizam mais de 1000 milhões de euros, estima esta equipa de cinco investigadores ligados ao FLOWer Lab, que integra o CFE – Centro de Ecologia Funcional, da UC.

Maçãs, framboesas, peras, abacates e tomate

“O valor económico calculado tem origem não só nas culturas altamente dependentes da polinização, como também nas culturas com menor grau de dependência mas de grande importância económica”, explica Catarina Siopa, primeira autora do estudo, numa nota de imprensa divulgada pela UC. “As culturas mais beneficiadas pela polinização incluem maçã, framboesa, pera, abacate, tomate industrial, mirtilo, amêndoa, kiwi, laranja e morango”. 

Feitas as contas, das 72 diferentes culturas analisadas neste estudo, 54% (39 culturas) dependem de polinizadores para terem sucesso. E destas últimas, a grande maioria (71%) tem uma elevada dependência desses insetos. Neste campo o destaque vai para as abóboras, tangerinas, melão e marmelos, totalmente dependentes de serviços de polinização, indica o mesmo estudo.

“Os polinizadores não influenciam apenas a quantidade produzida, mas também a qualidade nutricional, o tempo de prateleira e a capacidade de conservação dos produtos agrícolas, gerando benefícios múltiplos, muitos deles ainda difíceis de quantificar”, consideram também os investigadores, que explicam que para já estão estimados apenas os ganhos dos produtores agrícolas – e não dos restantes intermediários, como por exemplo as lojas que vendem frutas, vegetais e outros produtos.

Área ocupada aumentou de forma “dramática” em 10 anos

Certo é que, acompanhando a tendência mundial, a importância das culturas dependentes da polinização tem aumentado em Portugal ao longo dos últimos anos. A partir da análise de dados do Instituto Nacional de Estatística, a equipa concluiu que desde 1980, apesar de um forte aumento da produção agrícola, a área dedicada a esta atividade em Portugal caiu 49%, para praticamente metade do que representava no início.

Ainda assim, essa tendência de diminuição de área agrícola estabilizou na última década, com uma descida de apenas quatro por cento entre 2013 e 2023. Este abrandamento teve uma importante contribuição das culturas que dependem de insetos polinizadores, cuja área aumentou de forma “dramática”, crescendo 36% ao longo desses 10 anos, indica o estudo.

“Esta mudança é largamente explicada pela redução na produção de sistemas agrários específicos, como cereais e batatas, e a expansão de culturas altamente lucrativas, como kiwis, framboesas e amêndoas, a maioria das quais são altamente dependentes da polinização”, escrevem os investigadores.

O que fazer com as políticas agrícolas

Em contrapartida, a equipa alerta para as ameaças crescentes que os polinizadores enfrentam, incluindo a intensificação agrícola, a simplificação da paisagem, as alterações climáticas e a urbanização, que podem comprometer a sustentabilidade da produção agrícola e gerar défices de polinização.

“Os polinizadores são um verdadeiro pilar da economia agrícola nacional. Sem eles, muitas das culturas mais valiosas em Portugal deixariam de ser economicamente viáveis”, sublinha a professora universitária e investigadora Sílvia Castro, co-autora do mesmo estudo.

“Os resultados apresentados fornecem uma base científica sólida para o desenvolvimento de políticas agrícolas e ambientais, reforçando a necessidade de integrar medidas de conservação de polinizadores na gestão agrícola, nos programas de apoio ao setor, e nos planos de ordenamento do território”, indica também a equipa. Nesse âmbito, uma das recomendações é que a conservação e gestão sustentável de polinizadores silvestres passe a estar “explicitamente incluída” nas políticas agrícolas, incluindo os esquemas de subsídios que são atribuídos.


Saiba mais.

Leia as 13 crónicas da série Guardiões das Flores, da autoria de cientistas portugueses ligados ao projeto PolinizAÇÃO, para ficar a saber mais sobre os polinizadores, a sua importância e como todos podemos contribuir para a sua conservação.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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