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Pedro Cardoso: “Foi uma surpresa encontrarmos seis novas espécies de aranhas em apenas quatro dias”

17.04.2026
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Foto: Stano_design/Pixabay

Em Portugal continental conhecem-se cerca de 800 espécies diferentes de aranhas, às quais se vieram agora juntar mais seis, encontradas na Serra de Grândola. Mas ainda há muito trabalho a fazer e falta apoio financeiro, afirma Pedro Cardoso, investigador da Universidade de Lisboa.

Bastaram quatro dias de trabalho de campo na Herdade da Ribeira Abaixo, localizada na serra alentejana de Grândola, para um grupo de especialistas encontrar seis espécies novas de aranhas para a Ciência, cuja descoberta foi anunciada esta quinta-feira.

“Era esperado encontrarmos novas espécies, mas talvez não tantas. Apesar do grande desconhecimento que ainda temos da nossa fauna, ter este número de espécies em colheitas que duraram apenas quatro dias foi uma surpresa”, afirmou à Wilder o investigador que liderou a equipa responsável pela descoberta, Pedro Cardoso, ligado à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e ao CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais.

Equipa de investigadores durante o trabalho de campo realizado no projeto BASS, durante o qual se realizou a colheita que deu origem à descoberta de seis novas espécies de aranhas. Foto: Fernando Ascensão

Pedro Cardoso acredita que este é um sinal de que a Serra de Grândola, apesar de medir apenas 383 metros de altitude, pode ter funcionado como “uma ilha isolada” ao longo de muitos anos de evolução, onde haverá muita biodiversidade por descobrir – incluindo os resultados de outras colheitas que ainda não foram estudadas, realizadas no âmbito do projeto BASS – Avaliação de Biodiversidade em Pequenas Escalas, no âmbito do qual se realizou esta descoberta. “Por norma existem três comunidades distintas de aranhas ao longo do ano em Portugal, uma de primavera – a que já foi estudada – e uma de outono e uma de inverno, que continuam por conhecer”, explica.

Quanto à Serra de Grândola, que apesar da altitude pouco elevada sobressai entre as planícies em redor, as diferenças com que marca a paisagem refletem-se também num clima próprio, “com humidade considerável e temperaturas baixas durante o inverno e à noite”, descreve o investigador. “Pode ter actuado como uma ilha rodeada por habitats diferentes para estes animais, cujos parentes mais próximos por vezes se encontram em serras ‘próximas’, como as serras algarvias e a própria serra de Monsanto, em Lisboa.”

Terrenos na Herdade da Ribeira Abaixo, estação de campo ligada à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, na Serra de Grândola. Foto: Fernando Ascenção

Minúsculas caçadoras noturnas

Embora Pedro Cardoso e Miguel Sousa, que está ligado também à FCUL, estejam ainda a trabalhar as aranhas em laboratório de forma a avançar com a descrição científica, já identificaram o género taxonómico de cada uma.

Duas pertencem ao género Dysdera (“conhecido por abarcar as conhecidas aranhas-de-tenaz que se alimentam de bichos-de-conta”); outras duas pertencem ao género Harpactea (“mais pequenas, escuras e elegantes que as do género Dysdera“); há uma espécie classificada dentro do género Pelecopsis (“típicas caçadoras furtivas”); e há ainda uma espécie que faz parte do género Scytodes. As aranhas desse último grupo, que cospem teias com veneno, terão inspirado a história do Homem-Aranha.

“Todas as seis novas espécies são epígeas, isto é, vagueiam no solo e entre a manta morta”, descreve-as Pedro Cardoso, que acrescenta que a maioria mede apenas entre dois e seis milímetros. Durante o dia, para evitarem ser apanhadas por uma ave ou outro predador, escondem-se debaixo de pedras, de folhas ou em fissuras, em abrigos que constroem com seda, conta o aracnólogo. À noite, saem para capturar larvas de diferentes espécies e também escaravelhos, moscas e outros pequenos insetos – “não são muito esquisitas, desde que não sejam presas demasiado perigosas ou difíceis” – que caçam de forma ativa. Só a mais pequena das novas aranhas pertence a um grupo cujos membros fazem uma pequena teia.

No que respeita à alimentação generalista, só as Dysdera é que fogem à regra. “A maior parte das aranhas não consegue perfurar as carapaças dos bichos-de-conta, mas estas especializaram-se nessas presas”, nota Pedro Cardoso. Algumas, por exemplo, desenvolveram estratégias para obrigar os bichos-de-conta a desenrolarem-se e assim conseguem matá-los; outras, atacam nos locais mais vulneráveis das carapaças.

Trabalho de colheita realizado durante a noite, no projeto BASS. Foto: Fernando Ascenção

Por outro lado, tal como uma grande parte das aranhas, as espécies encontradas na Serra de Grândola vivem só alguns meses no estado adulto, durante a época de acasalamento, única altura em que os cientistas as conseguem encontrar. Neste caso, o facto de viverem no solo e serem muito pequenas torna-as ainda mais difíceis de descobrir, pois só percorrem distâncias muito curtas e por isso vivem em áreas muito localizadas, acrescenta o investigador. “Cerca de 90% das espécies endémicas de aranhas vivem no solo, pois as outras deslocam-se mais facilmente, por exemplo fazendo ‘ballooning’ (presas a uma linha de seda, são transportadas pelo vento)”, comenta.

Dois registos surpreendentes…

Na colheita realizada na primavera de 2024, de que resultaram as seis novas espécies, a equipa utilizou um tipo de armadilha muito comum nestes trabalhos, conhecido pelo termo inglês ‘pitfall’ (‘armadilhas de queda’, em português). É constituída por um pequeno recipiente, um copo, que fica enterrado com a abertura ao nível do solo para o qual caem aranhas e outros pequenos invertebrados quando vão a passar. “Usámos oito armadilhas em cada um de 16 locais, em apenas um quilómetro quadrado da nossa Herdade da Ribeira Abaixo.”

A nova aranha do género Scyodes foi um dos achados que mais surpreendeu a equipa, por se tratar de um género com poucas espécies conhecidas: apenas 13 na Europa e três em Portugal, pelo que a adição de mais uma espécie “é um registo significativo”, nota Pedro Cardoso. Outras aranhas que chamaram mais a atenção são as duas novas espécies do género Harpactea, que “foram revistas há três anos por um especialista da República Checa e que por isso tinham o seu conhecimento ‘atualizado’, pelo menos até estas novas espécies chegarem”.

Uma das aranhas do género Harpactea, que foi encontrada na Serra de Grândola. Foto: D.R.

… e falta de apoio ao trabalho de taxonomia

Entretanto, quando à descrição científica das seis novas espécies, que está a ser feita em laboratório, tem sido um trabalho moroso. Pedro Cardoso admite que poderá demorar “anos ou mesmo décadas”.

As duas aranhas do género Harpactea, por exemplo, poderão ser as mais rápidas a receber nomes científicos, devido à revisão recente deste grupo de espécies. Já os espécimes de outros géneros que não foram alvo de revisões há pouco tempo, requerem muitas etapas para que todo o trabalho fique bem feito – incluindo o levantamento e a comparação com as outras aranhas do grupo, o que exige muita dedicação em regime de voluntariado.

“O Miguel Sousa, estudante de mestrado que fez a maior parte do trabalho de laboratório, continua a estudar estas espécies apenas por gosto pessoal, sem fundos. Isto significa que poderá levar anos ou mesmo décadas até estas novas espécies serem descritas e terem um nome”, sublinha Pedro Cardoso.

A falta de apoio financeiro e de projetos científicos dedicados aos trabalhos de taxonomia em aranhas (e muitos outros invertebrados) faz aliás com que muito do trabalho esteja a ser feito fora do país, muitas vezes à revelia das autoridades. “A maioria das vezes as nossas espécies são estudadas por aracnólogos estrangeiros de visita esporárica ao país. Estes não só ‘levam’ os exemplares para os seus países de origem – por norma sem autorização de captura ou exportação, diga-se de passagem – como acabam por levar todo o conhecimento com eles”, afirma o mesmo responsável.

“Há um grande desconhecimento sobre a nossa fauna”, salienta também este aracnólogo português. “Gostamos de pensar que temos todo o conhecimento necessário para a execução de políticas públicas de conservação, que passam pela criação de áreas protegidas, protecção de espécies em risco de extinção, e muitas outras medidas. No entanto, estamos a trabalhar com dados não só parciais como enviesados, muitas das espécies por conhecer, potencialmente restritas na sua distribuição, continuam a escapar aos radares da conservação nacional.”

“Entretanto, o trabalho fundamental continua a ser feito de forma voluntária por uns poucos interessados sem qualquer tipo de apoio”, lamenta. “Com muito pouco esforço conseguimos multiplicar a informação disponível.”

Dentro de dois meses, em maio, Pedro Cardoso espera regressar à Herdade da Ribeira Abaixo em busca de outras aranhas das novas espécies, juntamente com outros especialistas, de forma a descobrir mais sobre as mesmas. “Serão três ou quatro dias; agora que já sabemos onde as encontrar, será mais fácil”, prevê, já a imaginar-se na futura saída de campo, em busca destes pequenos animais de oito patas que tanto admira.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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