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Luísa Ferreira Nunes: “Conhecemos melhor aquilo que aprendemos a observar”

24.09.2026
leitura de 4 minutos

A ilustradora naturalista e entomóloga, Luísa Ferreira Nunes, lança a sua 24.ª agenda anual, “Naturia Oculta”, dedicada à biodiversidade que vive diante dos nossos olhos, mas que muitas vezes não conseguimos ver.

WILDER: Qual o tema escolhido para 2027 e o que significa?

Luísa Ferreira Nunes: A agenda de 2027 chama-se “Naturia Oculta”. O título remete para uma dimensão da natureza que muitas vezes permanece fora do nosso campo de atenção: organismos discretos, espécies que vivem escondidas, formas de camuflagem, relações entre seres vivos e pequenos universos naturais que facilmente passam despercebidos.

“Naturia” é uma palavra criada a partir de natureza e “Oculta” refere-se precisamente a esse mundo que existe diante de nós, mas que exige atenção, curiosidade e tempo para ser descoberto.

W: Como está organizada esta agenda?

Luísa Ferreira Nunes: A agenda está organizada em três temas. O primeiro recupera a história da minha primeira exposição internacional, no Museu de História Natural de Florença, onde fiz formação na área da entomologia. Inicialmente, o meu trabalho deveria centrar-se no estudo e organização de colecções de insectos, mas o curador do museu acabou por alterar esse objectivo e propôs-me um desafio diferente: ilustrar 22 insectos-jóia provenientes da Papua-Nova Guiné, Ásia, África e Austrália. Desse trabalho nasceu a exposição Naturia Secreta, apresentada no próprio museu. Este primeiro tema revisita essa experiência, o processo de trabalho e a história que esteve na origem da exposição.

O segundo tema chama-se “Por Amor aos Animais” e reúne lendas e histórias verdadeiras que mostram diferentes formas de relação entre seres humanos e animais. São histórias de afecto, protecção, convivência e proximidade entre espécies. Entre elas encontra-se também a história verdadeira que inspirou O Livro da Selva.

O terceiro tema é dedicado aos “Animais Escondidos”. Aqui, os animais são apresentados tal como muitas vezes os encontramos na natureza: parcialmente ocultos pela vegetação, protegidos pelo habitat, discretos, atentos à nossa presença e, por vezes, a observar-nos com curiosidade ou receio. É também uma forma de chamar a atenção para aquilo que existe à nossa volta, mas que nem sempre conseguimos ver de imediato.

W: De onde partiu esta ideia e qual o objectivo da agenda?

Luísa Ferreira Nunes: A ideia partiu precisamente dessa vontade de olhar para a natureza menos evidente. Ao longo dos anos, fui percebendo que grande parte da biodiversidade não se apresenta de forma espectacular ou imediata. Muitas espécies vivem escondidas, outras são ignoradas porque são pequenas ou pouco conhecidas, e outras ainda só se revelam a quem aprende a observar.

Coleóptero Chrysina optima, da Costa Rica. Ilustração: Luísa Ferreira Nunes

O objetivo da agenda é despertar essa atenção. Gostaria que funcionasse como um convite à observação, à curiosidade e ao reconhecimento da diversidade natural. Não pretende substituir o conhecimento científico, mas aproximar as pessoas dele através da imagem e da narrativa.

W. Acredita que a escrita e a ilustração de natureza podem ir mais além do que apenas uma forma de expressão criativa? Poderão ser também uma força de mudança?

Luísa Ferreira Nunes: Sim. A ilustração naturalista e a escrita sobre natureza têm uma longa tradição ligada à ciência, à educação e à divulgação do conhecimento.

Uma ilustração pode tornar visíveis determinadas características morfológicas, ajudar a reconhecer uma espécie ou simplesmente levar alguém a reparar num organismo que antes ignorava. A escrita pode enquadrar essa observação, acrescentar contexto e despertar novas perguntas.

A arte  pode criar uma ponte entre o conhecimento especializado e públicos mais amplos. E acredito que essa aproximação pode mudar a forma como olhamos para a biodiversidade.

Conhecemos melhor aquilo que aprendemos a observar. E aquilo que conhecemos tende também a adquirir maior valor aos nossos olhos.

W: Há quantos anos lança agendas naturalistas e o que tem aprendido nesta caminhada?

Luísa Ferreira Nunes: Esta é a minha 24.ª agenda, ao longo de 25 anos.

É um percurso muito longo e, olhando para trás, vejo não apenas uma evolução na forma como desenho, mas também na forma como penso apresentar as imagens e textos. Cada vez me parece mais interessante contar uma história em vez de apresentar apenas espécies desenhadas com explicações sobre as mesmas.

A natureza é praticamente inesgotável enquanto tema. Há tanto a explorar, a olhar, a registar.

Também aprendi que estas agendas acabam por criar uma relação muito duradoura com quem as utiliza. Muitas pessoas guardam-nas durante anos, voltam às ilustrações, escrevem-me sobre determinadas espécies ou histórias. Isso fez-me perceber que uma agenda pode ser mais do que um objecto de uso quotidiano: pode tornar-se também um pequeno arquivo de imagens, histórias e conhecimento sobre o mundo natural. Há várias pessoas que aparecem sistematicamente nas apresentações da agenda e que têm todos os volumes de 25 anos.

Tigre. Ilustração: Luísa Ferreira Nunes

W. Que técnicas usou para as ilustrações e porquê?

Luísa Ferreira Nunes: Usei sobretudo aguarela, grafite, lápis de cor e pastel seco por vezes combinados na mesma ilustração.

A aguarela permite trabalhar transparências, sobreposições, variações de cor e atmosferas muito adequadas à representação da natureza. O desenho ajuda-me a estruturar as formas e a manter a coerência morfológica, sobretudo quando estou a trabalhar organismos em que a anatomia é importante. O lápis de cor permite acrescentar detalhe, textura e pequenas variações que por vezes seriam difíceis de conseguir apenas com aguarela e o pastel seco faz trabalhos muito bonitos, sobretudo para ilustrar mamíferos.

Procuro que as imagens mantenham uma componente claramente manual. Interessa-me que se perceba o gesto, a matéria e alguma irregularidade própria do trabalho feito à mão. Gosto de consorciar o traço naturalista com atmosferas ligeiramente oníricas.

W: Que ilustrações mais gostou de fazer?

Luísa Ferreira Nunes: Insetos e felinos. Gostei muito de fazer a agenda sobre  felinos, em 2024, sobretudo chitas e pumas. Também gosto muito de pintar ginetas 🙂


A agenda ilustrada 2027 “Naturia Oculta” tem duas versões, uma com capa azul e outra com capa branca. Ambas estão disponíveis na livraria digital da RVJ Editores.


Aprenda a registar a natureza num caderno de campo com Luísa Ferreira Nunes.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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