Aos 34 anos, Sofia Gazarian está a abrir um caminho novo para quem gostava de desenhar a natureza mas (ainda) não tem coragem. Esta designer gráfica que se mudou para Portugal há quatro anos ensina-nos que a curiosidade da descoberta pode ser muito maior do que o medo de pegar num pincel. Milhares de pessoas inspiram-se nos desenhos simples e coloridos que partilha diariamente nas redes sociais. “O meu sonho é desenhar todas as espécies de aves do mundo.”
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Encontrámos Sofia Gazarian no Festival de Birdwatching de Sagres, com o seu caderno de desenho, aguarelas e caneta. Estivemos à conversa e contou-nos que vive no Porto, é designer gráfica de profissão e apaixonada pela natureza, em especial pelas aves selvagens. Começou a desenhar sozinha e a prática diária e o tempo que passa na natureza tornaram-na uma influencer no mundo do desenho naturalista. A sua conta no Instagram, Print Your Bird – Art & Birds, tem mais de 52 mil seguidores . Mais recentemente, foi convidada pela organização internacional Reverse the Red a participar com uma ilustração numa exposição sobre 43 espécies ameaçadas, durante o Congresso da União Internacional de Conservação da Natureza (UICN) em Abu Dhabi.

WILDER: Tem formação em ilustração ou é uma ilustradora auto-didata?
Sofia Gazarian: Tenho uma licenciatura em História e um mestrado em Turismo. Mas este ano fui aceite no Programa de Pós-Graduação em Ilustração Científica da Universidade do Porto, que começa em outubro. É um curso de um ano. Depois disto, já não poderei dizer que sou uma artista autodidata (risos). Deve ser algo muito interessante e giro e vai-me ajudar a preencher algumas lacunas e a abrir novas oportunidades. Estou mesmo ansiosa por fazer desenhos mais académicos e anatomicamente corretos de aves. Mas claro, não só aves — também quero contribuir para os esforços de conservação e para a educação, através de ilustrações científicas adequadas.

W: Tem mais de 52 mil seguidores no Instagram. Na sua opinião, porque é que as pessoas procuram os seus desenhos e o que lhes pode oferecer?
Sofia: Acho que as pessoas no geral são atraídas pela simplicidade. É preciso muita paciência e tempo para fazer desenhos realistas e complicados. Não é que me falte paciência, mas quero desenhar muitas, muitas aves — e muitas outras coisas. Na verdade, comecei a fazer esboços há muito tempo, desenhava tudo. Quando viajava e via algo interessante que queria capturar, começava a desenhar. Sempre que tinha um minuto desenhava tudo o que via. Tinha sempre o meu caderno de esboços comigo e usava esta técnica rápida, em que não faço o esboço a lápis porque não há tempo. Desenho logo com caneta e depois, se tiver tempo, adiciono aguarela. Outras vezes, tiro uma fotografia e pinto depois.

Há uns anos comecei a desenhar aves. Também andava à procura do meu estilo. Sou designer gráfica freelancer há cerca de oito anos, apesar de não ter um diploma académico em arte, e faço logótipos e ilustração vetorial. Recentemente decidi que devia juntar a minha paixão pela arte, que não conseguia satisfazer apenas com o trabalho de designer e ilustradora freelancer, com a minha outra paixão: as aves. Comecei a desenhá-las e percebi que isso me dava imenso prazer e que aprendia muito sobre as aves enquanto as desenhava! (risos) E queria desenhar muitas, muitas aves. Quero desenhar todas! Mas acho que é impossível (risos).
Percebi que a técnica que uso para fazer esboços é muito prática quando queremos desenhar o maior número possível de aves. Comecei a desenhá-las assim e reparei que as pessoas gostavam, porque achavam que era fácil! Diziam: “Fazes parecer tão fácil!”. Mas não é que pareça, é mesmo! Quando tentamos capturar apenas a essência da ave, devemos ser rápidos, simples, sem entrar demasiado em pormenores anatómicos. É disso que gosto.

W: Quais são os principais desafios ao desenhar aves? É preciso gostar do desenho final ou não?
Sofia: Bem… esse não é o objetivo. Na verdade, devemos gostar do processo. Porque quando pensamos demasiado no resultado e em quão perfeito tem de ficar, podemos ficar bloqueados pelo medo. Por vezes, numa determinada fase do desenho, ele não parece bom. E está tudo bem, é normal. Mas depois acrescentamos algo e tudo melhora. Por exemplo, descobri que quando desenhamos uma ave de frente esta fica com um ar engraçado. Quando vemos a fotografia parece natural, mas ao desenhar pensamos: “Oh meu Deus, está horrível!”. Mas depois, ao acrescentar cores e detalhes, tudo começa a parecer normal.

Isto pode acontecer com qualquer desenho. O desafio é não pensar no resultado, mas desfrutar do processo. Cada linha que fazemos, especialmente no campo, é uma tentativa de pôr algo no papel. Não devemos preocupar-nos com o resultado, mas sim apreciar o momento. Claro que é bom quando gostamos do resultado — isso motiva-nos a continuar. Mas há sempre coisas que podemos acrescentar para melhorar o desenho: um fundo, algumas anotações, e de repente a página inteira fica mais interessante! O principal desafio é valorizar o tempo e os bons minutos que passamos a desenhar.
W: Que materiais costuma levar consigo quando vai desenhar na natureza?
Sofia: Levo um caderno de esboços, normalmente o pequeno. Uso uma caneta de desenho, que deve ser à prova de água se quisermos usar aguarela. Uso também um pincel de água, que é muito prático, embora seja difícil habituarmo-nos a controlar a água. Mas depois de nos habituarmos, é impossível parar de o usar — até o uso em casa, onde tenho muitos pincéis normais. Acho-o muito conveniente: tem uma ponta fina para detalhes e, se a achatar um pouco, consigo cobrir áreas maiores. Além disso, com um caderno pequeno, não precisamos de cobrir muito espaço. Funciona na perfeição.

Levo também uma pequena paleta de aguarelas, com uma seleção limitada de cores, porque acho que é ótimo não ter demasiadas opções. Isto obriga-nos a misturar cores e cria um processo criativo interessante. Tenho outras três paletas com combinações padrão, mas esta é a que uso sempre. Levo também um pedaço de papel de cozinha (que vou trocando quando já está muito gasto), porque com o pincel de água é preciso limpá-lo constantemente, libertando mais água. Basicamente é isso. Não uso mais nada. Mas ando sempre à procura do caderno de esboços perfeito e do pincel de água perfeito (risos).
W: Onde encontra inspiração?
Sofia: A minha principal fonte de inspiração são os antigos cadernos de campo. Quando era criança, queria ser, como eu dizia, uma “viajante científica”; tinha a certeza de que essa profissão existia: viajar, descobrir algo novo e desenhá-lo. Mas depois percebi que já não existia tal coisa, porque quase tudo já tinha sido descoberto. Hoje em dia, quem descobre algo novo está focado num campo muito específico; já não se desenha “tudo o que se vê”.

Mais tarde, descobri a observação de aves e percebi que posso fazer descobertas à minha volta o tempo todo, nem preciso de ir longe! (risos) Porque é que nunca reparei nisso antes? Quero descobrir a natureza.
Por isso, esses diários são a minha principal fonte de inspiração. Também adoro ilustrações de livros antigos; explicam tudo com detalhe e têm um lado educativo que me inspira a fazer as minhas próprias descobertas. E claro, outros artistas também. Há tantos artistas incríveis! Com as redes sociais, especialmente o Instagram, descubro trabalhos novos todos os dias.

Há algum tempo fiz uma colaboração com outro artista — foi uma experiência muito interessante. Escolhemos uma ave e fizemos dois desenhos: um no nosso próprio estilo e outro tentando imitar o estilo do outro. Experimentei as linhas, as cores e até a tipografia dele. Escolhi o tema com base no que ele costuma desenhar. Pensei: “Ok, ele provavelmente desenharia uma cria e um ovo”, e ele realmente desenhou isso! Eu costumo focar-me na plumagem em diferentes idades e estações do ano, e ele percebeu isso e fez o mesmo no estilo dele! Aprendi imenso ao tentar copiar o estilo dele. Foi mesmo giro experimentar coisas novas. Acho que desde então comecei a usar mais pinceladas de aguarela. Enriqueci o meu próprio estilo.
W: … que continua a funcionar para si, mesmo depois de vários anos.
Sofia Gazarian: Sim, continuo a desenhar da mesma forma há anos. Às vezes penso que talvez devesse usar um pouco mais de lápis. Este ano, todos os meses experimento materiais diferentes para desenhar a mesma ave. Mas continuo a desenhar “à minha maneira”, que desenvolvi com anos de prática, e ainda é a forma mais fácil para mim. E vejo como as pessoas conseguem copiar este estilo, acham-no acessível, mesmo sem saberem construir proporções ou aplicar aguarela.

Acho que é por isso que gostam dos meus desenhos: porque são simples e rápidos, e podem fazê-los mesmo sem muito tempo. Um pequeno esboço demora cerca de 10 minutos. Mesmo quem tem a vida muito ocupada, como quase toda a gente hoje em dia, pode fazer um pequeno esboço, orgulhar-se do resultado e aprender algo sobre a ave. E isso é mesmo giro.
Acompanhe aqui o trabalho de Sofia Gazarian, na sua página no Instagram.
Explore aqui os conselhos de Sofia sobre como manter um caderno de campo de aves selvagens, para o Journaling With Nature Podcast.