Painho-de-cauda-quadrada (Hydrobates pelagicus). Foto: Victor Paris

Trabalhando com a vida selvagem: José Pedro Granadeiro e os painhos

Investigador é um dos coordenadores da equipa portuguesa que participa no projeto internacional SEAGHOSTS, dedicado a estudar e a contribuir para a conservação dos painhos do Atlântico Norte. Descubra o que vai ser feito e porque o fascinam estes “navegantes extraordinários dos mares do mundo”.

WILDER: O que o fascina nos painhos?

José Pedro Granadeiro: Os painhos estão entre as aves marinhas mais pequenas do planeta, todas negras, e na verdade a maioria das espécie deste grupo pesa menos de 50 gramas. Visitam as ilhas e ilhéus onde nidificam em noite cerrada e o menos que podem: apenas umas visitas para encontrar ninho e parceiro, alguns turnos para incubar os ovos, alternados com o seu parceiro, e depois as visitas necessárias para alimentar a sua cria única, que cresce lentamente.

Fora isso, passam a maior parte da sua vida em mar aberto, em zonas onde o mar é muito profundo, e apenas se aproximam um pouco mais das costas continentais ocasionalmente “empurrados” por ventos inclementes.  Os pescadores reconhecem-nos como prenúncio de tempestades, mas fora isso são muito poucos os que os conhecem. Alimentam-se saltitando à superfície do mar, onde capturam pequenas presas (pequenos peixes, lulas e crustáceos) com uma leveza que parece desafiar constantemente os rigores do oceano. São aves verdadeiramente marinhas, navegantes extraordinários dos mares do mundo!

painho de cauda quadrada pousado no mar
Painho-de-cauda-quadrada (Hydrobates pelagicus). Foto: Inês Sequeira/Wilder

W: E há alguma espécie que lhe desperte mais fascínio ou curiosidade?

José Pedro Granadeiro: Entre as seis espécies de painhos conhecidas no Atlântico Norte, o painho-da-Madeira ou roquinho (Hydrobates castro) é uma espécie que nidifica em várias ilhas e ilhéus do nosso país (no continente e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores), e contudo a sua biologia e ecologia estão ainda envoltas em muito mistério. Em alguns locais, parecem coexistir duas “sub-populações” que se reproduzem em períodos diferentes mas com muita sobreposição temporal; contudo, não estão suficientemente diferenciadas para representar subespécies e menos ainda espécies. Estas duas “sub-populações” apresentam ligeiras diferenças no seu comportamento (nas vocalizações, por exemplo) e até no seu tamanho, mas na verdade sabe-se pouco ainda acerca dos processos que mantém este diferenciação nítida, mas tão ligeira. É um verdadeiro enigma…

Painho-da-Madeira (Hydrobates castro) ao largo da ilha de Porto Santo. Foto: Virgílio Gomes/Wiki Commons

W: Porque é que consideram importante a conservação dos painhos, aves marinhas que quase ninguém conhece?

José Pedro Granadeiro: Os painhos pertencem à Ordem dos Procellariiformes. Podemos mesmo dizer que são aparentados dos grandes albatrozes que abundam nas águas do Hemisfério Sul! Este grupo diferenciado de aves, que também inclui as pardelas, tem diversas ameaças nas ilhas onde nidificam, sendo de destacar a introdução de espécies não indígenas, principalmente predadores como ratos e gatos. Os painhos são boas sentinelas do estado de saúde dos oceanos, são importantes predadores nas cadeias alimentares oceânicas, e uma componente fundamental e emblemática da diversidade destes ambientes tão vastos e pouco conhecidos.

W: Quanto às ameaças que pretendem analisar no âmbito deste estudo, até que ponto são preocupantes os projetos para novos parques eólicos e solares offshore?

José Pedro Granadeiro: Muitas espécies de aves marinhas não têm apenas uma ameaça principal, mas sofrem um conjunto de pressões “difusas”, que globalmente as coloca sob um estatuto de ameaça. No caso particular dos painhos acrescenta-se um fator muito importante: a iluminação artificial. A luz atrai os painhos de uma forma muito marcada, causando encandeamento e desorientação que frequentemente redundam em colisões com infraestruturas. A existência de iluminação noturna no meio marinho é portanto uma ameaça muito relevante para este grupo de espécies.

A instalação de infraestruturas no oceano reclama também porções de habitat que podem ser importantes para a alimentação, e pode constituir obstáculos no acesso das aves a certas regiões, ou até nos seus percursos migratórios. Mas poderão existir ainda outros problemas, que dependerão bastante das características da infraestrutura e das circunstâncias específicas da sua instalação, da sua extensão e da região afetada.

W: Qual será a participação dos investigadores portugueses no projeto SEAGHOSTS?

José Pedro Granadeiro: Uma característica deste projeto é que as missões no terreno serão bastante semelhantes em todos os países, mas a sua execução será feita de forma sincronizada por todos os parceiros do projeto, em cada país. A amostragem será realizada toda no mesmo ano, seguindo protocolos que foram já definidos no seio do consórcio, e que estão em fase final de conclusão. As equipas portuguesas desenvolverão o trabalho de campo nas ilhas dos arquipélagos da Madeira (ilhas Desertas e ilhas Selvagens) e dos Açores. Para além disso, as equipas portuguesas coordenarão alguns dos ‘workpackages’ do projeto.

Painho-de-cauda-forcada ((Hydrobates leucorhous) observado na costa francesa, após uma tempestade. Foto: Alexis Lours/Wiki Commons

W: De que forma vão realizar os trabalhos no terreno, para estudarem as diferentes populações de painhos? Vão segui-los por GPS?

José Pedro Granadeiro: O nosso trabalho envolve a captura e anilhagem de indivíduos em vários períodos. Serão feitas amostragens de tecidos (penas e uma gota de sangue) e recolhas de dejetos das aves capturadas (para análises de dieta, através de técnicas moleculares, não invasivas). A cabeça e as asas dos painhos serão também fotografadas, para comparar morfologias entre diferentes populações da mesma espécie e também para comparar espécies.

Serão também colocados mini-GPS (pesam cerca de um grama) em alguns indivíduos, para estudar o comportamento no mar e conhecer as zonas oceânicas mais utilizadas durante o período reprodutor. No entanto, a bateria desses GPS apenas permite registar cerca de um mês de atividade.

Assim, para estudar a migração dos painhos utilizaremos ‘light-level geolocators’ (ou GLS), que são pequenos registadores de nível de luz (pesam cerca de 0,7 gramas), que permitem determinar as horas de nascer e pôr do sol nos locais onde a ave se encontra, durante mais de um ano. Com base nessa informação, será possível estimar a localização dos indivíduos com uma precisão razoável (150 km) relativamente à dimensão dos seus percursos migratórios, que somam geralmente vários milhares de quilómetros. 

W: O que esperam alcançar no final dos trabalhos, em 2027?

José Pedro Granadeiro: Um dos objetivos do projeto é realizar uma amostragem de muitas populações de diferentes painhos no Atlântico Norte, que permita compreender a estrutura populacional nas diferentes espécies de estudo, incluindo o grau de conectividade entre as várias colónias. A informação obtida a esta escala geográfica permitirá identificar “unidades taxonómicas”, que são muito importantes para operacionalizar e definir prioridades de conservação. Os trabalhos com GPS e GLS permitirão identificar áreas marinhas importantes para este grupo de espécies sobre as quais se conhece muito pouco e que são uma componente emblemática da diversidade dos nossos oceanos.

Inês Sequeira

Foi com a vontade de decifrar o que me rodeia e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista e que estou, desde 2022, a fazer um mestrado em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Comecei a trabalhar em 1998 na secção de Economia do jornal Público, onde estive 14 anos. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água”. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.