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Tartaranhão-caçador: 77% dos ninhos ajudados tiveram sucesso reprodutor em 2025

22.12.2025
leitura de 6 minutos
Foto: Carlos Pacheco

Balanço do projeto LIFE SOS Pygargus destaca eficácia de medidas de conservação tomadas em Portugal e parte de Espanha, para aumentar o número de crias que nascem e sobrevivem até chegarem a juvenis.

Se não fossem as ações realizadas em ninhos de tartaranhão-caçador (Circus pygargus) em 2025, teriam sobrevivido muito menos crias do que aconteceu neste ano, conclui um balanço anual divulgado pelo projeto luso-espanhol LIFE SOS Pygargus, que está a trabalhar para a melhoria do estatuto desta ave de rapina ameaçada de extinção.

“Graças às medidas de conservação desta campanha, que incluem monitorização de indivíduos, sensibilização e envolvimento dos agricultores e comunidades locais, bem como proteção de ninhos, resgate e salvamento de ovos e crias, esta espécie registou um importante crescimento da capacidade reprodutiva nas áreas de intervenção do projeto na Península Ibérica”, resume a equipa do projeto, cofinanciado por fundos comunitários e por outras entidades.

Macho de tartaranhão-caçador. Foto: Filippo Guidantoni/Palombar

No âmbito da campanha “Salvar o tartaranhão-caçador” de 2025, os técnicos em trabalho de campo seguiram atentamente o que acontecia em 618 ninhos na época de reprodução, distribuídos por Portugal e pelas regiões espanholas da Estremadura, Galiza, Madrid e Castela e Leão.

A proteção de crias e ovos é importante para esta ave migradora que todas as primaveras chega à Península Ibérica para nidificar. Em Portugal, onde é também chamada de águia-caçadeira, está classificada como Em Perigo – o segundo patamar mais grave no risco de extinção – e em Espanha como Vulnerável.

De todos os ninhos monitorizados, foram tomadas medidas de proteção em 251, contribuindo para que três em cada quatro destes (77%) originassem pelo menos um juvenil voador. Já nos restantes ninhos que tinham postura, mas que não foram alvo de ajuda, o sucesso foi bastante mais baixo: apenas 38% geraram descendência.

“O aumento registado este ano no sucesso reprodutor do tartaranhão-caçador é bastante positivo, tendo em conta que, segundo os dados do primeiro censo da espécie realizado em Portugal em 2022-2023, esta ave se encontrava no limiar da extinção e, em Espanha, a situação também é bastante crítica”, lembrou Joaquim Teodósio, da organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural e coordenador do projeto. Além desta ONGA, a equipa conta com outros 16 parceiros, incluindo quatro entidades espanholas.

Uma das grandes fragilidades desta espécie, e de outras com comportamentos semelhantes, é que faz os ninhos no solo, sobretudo no meio de searas, em terrenos agrícolas com culturas de forragens e de cereais. Como muitas vezes a colheita acontece numa altura do ano em que as aves ainda estão a cuidar dos ovos ou crias, estes acabam apanhados pelas máquinas agrícolas ou por predadores domésticos e selvagens, pois deixam de estar camuflados pela vegetação.

Por esse motivo, “esta proteção é essencial para aumentar o sucesso reprodutor da espécie, uma ação que é realizada em estreita colaboração com os agricultores, que desempenham um papel central na conservação destas aves”, acrescenta o projeto.

A campanha deste ano contou, aliás, com o “envolvimento ativo” de dezenas de agricultores e agentes rurais, alertados para o papel destas aves no controlo de pragas agrícolas, e ainda com dezenas de voluntários que ajudaram na monitorização e nas medidas de proteção.

Resgatados 68 ovos e 53 crias

Dos ninhos cuja proteção no campo foi inviável, os técnicos do projeto salvaram 68 ovos e 53 crias através do resgate no terreno, para a evitar a destruição ou morte. Os ovos foram transportados para centros especializados, onde concluíram o seu desenvolvimento, e as crias, quer as resgatadas no meio natural, quer aquelas oriundas dos ovos salvos no campo, passaram em Portugal por um período de adaptação ao território em estações de aclimatação no Planalto Mirandês, no concelho de Miranda do Douro, e no sul do país, no concelho de Castro Verde – duas zonas vitais para a espécie.

Cria resgatada de tartaranhão-caçador. Foto: Filippo Guidantoni

Estas estações foram instaladas para receber as crias resgatadas, bem como para recuperar e reforçar a população desta ave numa área específica, potenciando o seu instinto de filopatria: a predisposição de uma espécie para estabelecer o seu local de reprodução na mesma área onde nasceu ou passou as primeiras semanas de vida.

Do total de aves resgatadas (ovos ou crias) que passaram por um período de cuidados ex-situ e conseguiram completar o seu desenvolvimento com sucesso, 97 foram devolvidas à natureza.

Marcadas 72 aves com GPS 

Em 2025, foram também marcados 72 tartaranhões-caçadores com aparelhos GPS/GSM, para ajudar a detetar ameaças que afetam a espécie, tal como para melhorar as medidas de conservação no terreno. Estes emissores permitem monitorizar as aves marcadas em tempo real, fornecendo informações relacionadas com o comportamento, movimentos migratórios, áreas de nidificação e alimentação, fatores de riscos e outras.

Quais são as maiores ameaças?

Uma das conclusões da monitorização feita ao longo da campanha é que “a predação de ovos, crias e adultos tem um impacto relevante no sucesso reprodutor da espécie”, sublinham os responsáveis do projeto. Em causa estão sobretudo outras aves de rapina – como milhafres, corujas e bufos-reais – e ainda corvídeos ou cegonhas, mas também mamíferos raposas e outras espécies silvestres, ou mesmo animais domésticos, como cães ou gatos. “Também foi registada mortalidade por maquinaria agrícola, eventos climáticos adversos, como calor extremo, entre outras causas”, acrescentam. 

Os incêndios rurais são outra ameaça que afeta cada vez os tartaranhões-caçadores, “quer nas áreas de matos, fustigadas por fogos de grandes dimensões este ano em Portugal e Espanha, quer mesmo nas zonas agrícolas, onde também se verificaram casos de mortalidade de juvenis na sequência dos incêndios em 2025”. Este problema estendeu-se este ano a regiões que no passado eram das menos afetadas pelo fogo, como em Castro Verde, no Baixo Alentejo.

Macho de tartaranhão-caçador, em voo. Foto: Pedro Alves/Palombar

Protocolo com Carrazeda de Ansiães

Este ano, foi também assinado um protocolo com o município de Carrazeda de Ansiães, para reforçar a monitorização da espécie no Norte.

“Um dos objetivos principais do projeto é melhorar a sobrevivência das crias, aumentando a produtividade média da espécie, ou seja, o número de juvenis voadores por casal nidificante, de 0,6 para 1,5 – o limiar da viabilidade populacional. Com as medidas de conservação implementadas este ano, foi possível ultrapassar esse valor, atingindo os 1,98 juvenis voadores por casal nidificante”, destaca Pedro Horta, investigador e técnico do projeto na Palombar.

“Agora, o grande desafio é manter estes valores nos próximos anos. Especialmente nas áreas menos favoráveis para a sua nidificação, do ponto de vista das condições ambientais”, conclui.

Ensaios de cereais amigos já estão no segundo ano

Com o objetivo de aumentar o habitat disponível para o tartaranhão-caçador, o projeto está também a testar e a selecionar variedades de cereais mais resistentes e adaptadas ao ciclo reprodutor desta ave e à região Norte. São variedades que contribuem para práticas agrícolas regenerativas e com maior valor acrescentado.

O segundo ano de ensaios das variedades de cereais testadas já arrancou com o seu cultivo na Quinta do Valongo, pertencente ao Polo de Inovação de Mirandela da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-Norte), em Trás-os-Montes, e no Polo de Inovação de Elvas do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), no Alentejo.

O objetivo é selecionar as variedades com ciclo mais longo e mais adaptadas ao ciclo reprodutor do tartaranhão-caçador (tendo em conta que a ceifa tardia reduz a mortalidade e aumenta o sucesso reprodutor desta espécie e de outras aves estepárias que nidificam no solo em campos agrícolas); mais adaptadas à região Norte; com maior resistência às alterações climáticas e às principais doenças e pragas, e que protejam a biodiversidade, promovendo o equilíbrio dos sistemas agrícolas.


Saiba mais.

site do LIFE SOS Pygargus foi recentemente lançado e é a plataforma principal de informação sobre este projeto, que também tem páginas no Facebook e Instagram.


Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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