A Wilder falou com Eva Monteiro, coordenadora deste projeto de ciência cidadã aberto a todos os interessados. Fique a conhecer os dados já obtidos e planos para o futuro.
1. Malhadinha, loba e pequena-da-couve foram as espécies mais observadas
Malhadinha (Pararge aegeria), borboleta-loba (Maniola jurtina) e borboleta-pequena-da-couve (Pieris rapae) foram as mais observadas em 2025, entre as 100 espécies diferentes registadas no ano passado pelos participantes nos Censos de Borboletas de Portugal. Este projeto de ciência cidadã, coordenado pela associação Tagis, está incluído no Esquema Europeu de Monitorização de Borboletas (conhecido pela sigla inglesa eBMS) e dedica-se à monitorização das borboletas diurnas.
Os dados obtidos em 2025 foram avançados esta quinta-feira num encontro online de participantes e interessados nos Censos de Borboletas, agora que uma nova época de monitorização, entre março e setembro, está a começar. “A contagem de mais malhadinhas e borboletas-lobas pode estar relacionada com o facto de ter chovido mais na primavera do ano passado, uma vez que se trata de espécies cujas lagartas se alimentam de gramíneas”, disse à Wilder a coordenadora deste projeto, Eva Monteiro.

Entre cidadãos-cientistas e também profissionais de várias entidades, incluindo vigilantes da natureza e técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), os Censos de Borboletas já contaram desde o seu início, em 2019, com a participação de 135 pessoas e de 20 entidades diferentes, que registaram 136.288 borboletas no total. Destas, 126.157 foram identificadas até à espécie.
Muitos dos participantes optam por percorrer regularmente um ou mais transectos durante os meses de monitorização. Estes são percursos pré-definidos, com cerca de um quilómetro, na maior parte circulares e abrangendo vários tipos de habitats. Devem ser visitados para contagens, idealmente, uma vez por semana de março a setembro, ou se não for possível, pelo menos a cada 10 ou 15 dias.

2. Semiargus, uma nova borboleta observada em 2025
No ano passado, mais uma espécie de borboleta foi observada pela primeira nestes Censos: a Cianiris semiargus, conhecida pelo nome comum de semiargus. “É uma espécie do grupo de borboletas azulinhas e pequeninas, neste caso uma especialista de habitats”, descreve-a Eva Monteiro.
Esta nova espécie foi registada em Penude, Lamego, por Nuno Figueiredo, um voluntário que participa no projeto desde 2024 e toma conta de três transetos.
Contas feitas, desde 2019, os Censos de Borboletas identificaram 113 espécies diferentes, que representam 81,3 por cento de todas as espécies de borboletas diurnas conhecidas hoje em Portugal continental.

3. Onze borboletas de prados já foram registadas…
Apesar de iniciado apenas há sete anos, os resultados deste projeto já estão a contribuir para o cálculo do Índice das Borboletas de Prados (conhecido entre os cientistas pela sigla inglesa GBI, de Grassland Butterfly Index). Utilizado para medir a biodiversidade em 22 países europeus, este índice engloba 17 espécies associadas a prados, incluindo generalistas como a borboleta-loba e outras menos comuns, por serem dependentes apenas de uma ou de poucas plantas.
Tanto os dados de 2023 como os de 2024 obtidos nos Censos de Borboletas entraram para as contas deste índice europeu. Em 2025, foi divulgado um estudo realizado a partir dos dados reunidos pelo GBI desde o seu início, que concluiu que a abundância destas 17 borboletas associadas a prados, na Europa, sofreu uma quebra de 50% em 30 anos.
Até hoje, nas contagens em Portugal foram registadas 11 das 14 espécies deste índice, incluindo a borboleta-loba e a aurinia (Euphydryas aurinia).

4. … e índice pode medir o sucesso do restauro de natureza em áreas agrícolas
O Índice das Borboletas de Prados poderá ser também um dos dois indicadores escolhidos pelas autoridades portuguesas para a avaliação da biodiversidade em áreas agrícolas, no âmbito da futura Lei Nacional do Restauro da Natureza.
“O esquema europeu de monitorização de borboletas e nós no Tagis recomendamos fortemente que o GBI seja um dos indicadores escolhidos, uma vez que graças aos Censos de Borboletas já está montado um sistema de monitorização que inclui espécies de prados e estas também poderão ser contadas no âmbito da monitorização de polinizadores”, sublinha Eva Monteiro.
“As borboletas costumam responder muito depressa às alterações de habitat, o que será útil para avaliar rapidamente se as áreas agrícolas se estão a tornar mais biodiversas, como resultado de projetos de restauro da natureza”, defende também a mesma responsável.
Em terceiro lugar, uma vez que as contagens são realizadas no âmbito da ciência cidadã, “envolvem as pessoas na natureza e contribuem para que estas se preocupem com a conservação.”

5. Adote um transecto abandonado, ou junte-se a um amigo
Dos 105 transectos que foram percorridos desde 2019 para contagens de borboletas, dois terços estão atualmente ativos, adianta também Eva Monteiro. É importante que os transectos já criados continuem a ser visitados em todas as épocas de contagens, sublinha, pois “é necessário um volume de dados muito grande para conseguirmos calcular tendências no que respeita às populações de borboletas.” Atualmente, do total de transetos do projeto, apenas 42 por cento têm quatro ou mais anos.
Conseguir com que os transetos que já tinham vários anos de contagens e deixaram de ser visitados o voltem a ser é aliás um dos desafios para este ano, que vai dar mote à campanha “Adota um transeto abandonado”.

Outra iniciativa em cima da mesa é uma campanha para que os voluntários realizem um dia aberto ou convidem amigos para visitarem os seus transectos, passando a partilhar a responsabilidade pelas contagens. “Como muitos de nós não conseguimos ir com uma regularidade semanal, assim as pessoas podem entreajudar-se”, nota Eva Monteiro. Ela própria está à procura de alguém que partilhe o seu transeto no Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa.
Por fim, para ajudar quem se quiser iniciar nas contagens de borboletas, passando a conhecer melhor estas espécies, há outra campanha a ser lançada em breve: “Apadrinha um voluntário”. O objetivo é que os mais experientes acompanhem os recém-chegados ao projeto nas primeiras visitas ao seu transeto, de forma a ajudá-los na identificação das espécies de borboletas.

6. ICNF fez quase metade das visitas
Desde 2019 que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) participa neste projeto, por meio de uma parceria. O instituto que em Portugal tutela a conservação da natureza assegura as contagens em 37 transectos em áreas protegidas, que representam 35% dos transectos marcados em Portugal, com a participação de 65 técnicos e vigilantes da natureza.
O número de exemplares de borboletas contados no âmbito desta parceria ascende a mais de metade dos que já foram contados, adianta Eva Monteiro. Quanto às visitas em transectos desde 2019, 42% foram realizadas por pessoas do ICNF. Além desta entidade, existem várias autarquias que colaboram também com as contagens – como Oeiras, Viana do Castelo, Constância e Vila Nova de Gaia – e duas universidades, em Évora e Braga.

7. Fazem falta mais voluntários e financiamento
Os Censos de Borboletas de Portugal necessitam de mais voluntários para assegurar os transetos já marcados, mas também para criarem novos percursos, incluindo em zonas do país onde esta monitorização não está a ter lugar.
Quem estiver interessado em participar, diz a coordenadora deste projeto, deve começar por “aprender a diversidade das borboletas, pelo menos da zona que está a pensar monitorizar”. Para isso, poderá ver um curso online do canal de Youtube do Tagis, dividido em sete episódios, que ensina a identificar as 60 borboletas mais comuns de Portugal.
“No primeiro ano, vão para o campo, para o sítio onde estão a pensar monitorizar, e comecem a tirar fotografias, a identificar e a conhecer as diferentes espécies que aí existem”, acrescenta Eva Monteiro, que lembra que os canais do Tagis na redes sociais partilham muitas fotos de borboletas, e que os voluntários podem usar também a plataforma iNaturalist como ajuda. “Depois de já terem a lista de espécies do local, estão preparados para começar a monitorizar.”

Para ficar responsável por um transeto, é preciso escolher um percurso, de preferência circular. “Mas antes de marcarem um transecto podem falar connosco, para o email [email protected]”, apela a entomóloga. “Costumamos marcar uma reunião online para nos conhecermos e decidirmos como vai ser o transeto, que depois será introduzido na plataforma/app Butterfly Monitoring. A partir daí, já podem começar a contar borboletas!”.
Outra opção para voluntários são as contagens de 15 minutos, “uma metodologia que está um pouco esquecida”, mas à qual o projeto quer dar algum impulso. “Esta metodologia pode ser usada para contarmos borboletas onde quer que nós vamos, ou em locais mais pequenos ou mais homogéneos em termos de habitat”, diz Eva Monteiro, que lembra que no Youtube do Tagis existem também dois pequenos vídeos que explicam como fazer este tipo de contagens ou então o método dos transectos.

Outra questão importante é o financiamento dos Censos de Borboletas. Além de necessitarem de dinheiro para conseguirem dedicar-se a 100% ao projeto, a equipa responsável, ligada ao Tagis, pretende reeditar em papel o Guia das 60 Borboletas Comuns de Portugal e também lançar um futuro guia de campo de borboletas diurnas, para as 140 espécies que há em território português. “Se nos quiserem apoiar, também podem fazer-se sócios do Tagis, e assim ajudam não só a associação mas também os Censos de Borboletas”, apela Eva Monteiro.