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Em 30 anos passou a haver menos 50% de borboletas dos prados na Europa

06.08.2025
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Borboleta mégera (Lasiommata megera) na EBIO Cachopo em Março de 2017. Foto: Albano Soares

A abundância de 17 espécies de borboletas dos prados da Europa diminuiu 50% entre 1991 e 2023, alerta o Índice das Borboletas dos Prados, cuja actualização foi divulgada a 30 de Julho. A Wilder falou com Eva Monteiro, coordenadora da iniciativa em Portugal.

Este relatório é baseado em mais de 30 anos de monitorização de borboletas em 22 países europeus, incluindo Portugal.

A situação agora é mais grave do que a revelada em 2024 no último relatório, segundo a qual o declínio tinha sido de 30% até 2020.

Borboleta azul-comum (Polyommatus icarus) na Serra da Arga em Agosto de 2012. Foto: Albano Soares

Estes dados baseiam-se em mais de 6000 transectos monitorizados anualmente por toda a Europa. O objectivo é acompanhar a situação das populações locais de borboletas dos prados e melhorar o nosso conhecimento sobre o que se passa com estes insectos à escala do continente europeu.

Pela primeira vez foram incluídos dados recolhidos no projeto Censos de Borboletas de Portugal.

As borboletas dos prados são óptimos indicadores de boa qualidade das zonas rurais; se não estão bem é porque há degradação ou desaparecimento dos ecossistemas dos quais dependem por causa da intensificação agrícola, abandono dos usos tradicionais do solo e o uso intensivo de agro-químicos.

Das 17 espécies comuns de borboletas analisadas no relatório – da responsabilidade da Agência Europeia para o Ambiente e da rede Butterfly Conservation Europe -, mais de metade regista uma tendência negativa. 

Apenas poucas espécies, geralmente mais resilientes às mudanças da paisagem, como a Polyommatus icarus, estão estáveis ou em crescimento.

Apesar de alguns países terem reportado sinais de estabilização, o relatório alerta que os declínios destas borboletas estão a acontecer em áreas com agricultura intensiva e também dentro de áreas protegidas.

Os entomólogos defende, por isso, medidas de restauro de habitats, melhoria de conectividade ecológica e mais apoio para práticas agro-ecológicas.

E em Portugal?

Segundo explicou à Wilder Eva Monteiro, a coordenadora dos Censos das Borboletas de Portugal, no nosso país só existem 14 das 17 espécies seleccionadas por este Índice: a tages (Erynnis tages), douradinha-grande (Ochlodes sylvanus), douradinha-escura (Thymelicus acteon), axadrezada-comum (Spialia sertorius), ponta-laranja (Anthocharis cardamines), a Cupido minimus, a Cyaniris semiargus, a acobreada (Lycaena phlaeas), a Lysandra bellargus, a azul-comum (Polyommatus icarus), a aurinia (Euphydryas aurinia), a mégera (Lasiommata megera), a Coenonympha pamphilus e a borboleta-loba (Maniola jurtina).

Borboleta mégera (Lasiommata megera) na EBIO Cachopo em Março de 2017. Foto: Albano Soares

Em Portugal, as contagens são relativamente recentes, começaram em 2019 e, por enquanto, não permitem concluir tendências. Ainda assim, Eva Monteiro adianta que as espécies mais generalistas “estão mais ou menos bem em Portugal”, como a borboleta-loba. Nenhuma está em perigo em Portugal. Mas há borboletas como a Cupido minimus que ocorre em números muito reduzidos.

No nosso país, a principal ameaça a estas borboletas é a perda de habitat, como os lameiros ou as áreas abertas de montado e de olival, que passam a dar lugar a matos ou a agricultura intensiva. E, mais recentemente, a projetos de energia renovável como os parques solares. “É um problema porque estes projetos podem estar a ocupar territórios bons para a conservação de inúmeras espécies.”

Mas há outras espécies ameaçadas que não fazem parte deste indicador de borboletas dos prados europeus, como a fritilária-Mediterrânica (Euphydryas desfontainii), classificada como Em Perigo pelo Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, publicada em 2023. “Esta é uma espécie que se poderia considerar de prados mediterrâneos, vive em prados baldios, e tem uma distribuição muito restrita ao sul do Alentejo e Norte do Algarve”, comentou a entomóloga.

Para o futuro, Eva Monteiro gostava de ver mais voluntários a contar borboletas nesta iniciativa que decorre, principalmente, entre Março e Setembro. “Estamos a tentar angariar mais voluntários para contar borboletas e manter os transectos. Tentamos que estes sejam representativos de todos os habitats de Portugal e que ocorram em vários pontos do país. Só com dados recolhidos durante vários anos e em vários locais podemos calcular uma tendência para as nossas borboletas”.

Iniciados em Portugal em 2019, os Censos de Borboletas são coordenados pela associação Tagis e podem receber contribuições de duas maneiras diferentes, sempre com o apoio da app Butterfly Count.

A primeira é através da realização de transetos, que são pequenos percursos fixos que devem ser feitos periodicamente, com o objetivo de identificar as borboletas que se veem ao longo do caminho. Outra é mais “livre” e necessita apenas de 15 minutos, durante os quais o voluntário pode dar um passeio registando as diferentes borboletas que encontrar.

Estas contagens realizam-se em vários países europeus e os dados obtidos são utilizados no eBMS – European Butterfly Monitoring Scheme. Saiba mais no site da Tagis e também no canal de Youtube, onde está disponível um curso para aprender a identificar as borboletas mais comuns.


Saiba mais.

Conheça a história de Luís Cardoso e de como lançou um guia sobre as borboletas de Penela, incentivado por esta iniciativa de ciência cidadã dos Censos de Borboletas de Portugal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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