Os incêndios da última década e a pressão humana, mais do que a disponibilidade de alimento, estão a afectar negativamente a população ameaçada de lobo-ibérico a Sul do Douro, espécie que está, assim, a procurar zonas de matos para se alimentar e refugiar, revela novo estudo científico.
A acumulação de área ardida ao longo dos dez anos de estudo (2011–2021) tem um impacto negativo significativo na presença do lobo-ibérico (Canis lupus signatus) no centro de Portugal, conclui uma investigação da Unidade de Vida Selvagem (UVS) do Centro de Estudos do Ambiente (CESAM) e do Departamento de Biologia (DBio) da Universidade de Aveiro (UA).
A investigação, publicada na revista Scientific Reports a 20 de fevereiro, alerta ainda para o impacto negativo que os sucessivos incêndios e queimadas (controladas e não controladas) têm nas áreas de matos, habitat que o estudo identifica como essencial para a permanência desta espécie protegida.
Paralelamente, os resultados indicam também que o lobo tende a evitar áreas com maior presença humana. Isto está relacionado com um contexto de elevado nível de conflito, associado a prejuízos causados aos produtores de gado e à consequente perseguição sentida na região. Apesar de difícil de medir, é refletida num número reduzido de lobos identificados.
A combinação da elevada área ardida acumulada com áreas com índice mais elevado de presença humana leva, inclusive, o lobo a selecionar áreas de menor qualidade de habitat para a espécie e a ter de procurar um equilíbrio entre a distância aos humanos e uma paisagem menos adequada.
Há futuro para o lobo a Sul do Douro
Nos últimos 15 anos, a Universidade de Aveiro tem vindo a monitorizar a população de lobo-ibérico a sul do rio Douro. Através da recolha de indícios de presença, como excrementos, posteriormente validados por análises genéticas, permitem confirmar a presença da espécie. São também utilizadas câmaras de armadilhagem fotográfica para confirmar a existência de alcateias, detetar eventos de reprodução e contabilizar indivíduos.
Apesar de se verificar um número reduzido de lobos na região, os investigadores sublinham que há futuro para a espécie.
Os investigadores sugerem uma gestão do território mais adequada à espécie. Entre as principais recomendações, destacam a redução acentuada da área ardida e a promoção da regeneração e da sucessão natural da vegetação de espécies nativas em áreas afastadas das povoações. “Este tipo de gestão irá permitir o crescimento de florestas mais resilientes ao fogo, a criação de refúgio para o lobo e para as suas presas selvagens e, consequentemente, afastar este predador de zonas de conflito com as comunidades locais, podendo levar a uma diminuição de prejuízos”, segundo um comunicado da Universidade de Aveiro.
Para tal, deve ser realizado um esforço através de um contacto próximo com as comunidades locais, assegurando uma comunicação clara, relevante e atualizada sobre o estado da população e as medidas de conservação em curso.
É necessário valorizar o território, particularmente as áreas de matos, tornando-o mais diverso e economicamente viável.
Por último, é de extrema importância reformular o sistema de compensação de prejuízos causados pelo lobo, de modo a torná-lo mais célere, simples e transparente, reduzindo a carga burocrática para os criadores de gado e promovendo uma melhor coexistência entre as populações locais e o lobo.
Recuperação do lobo em Portugal
A 5 de dezembro de 2025, o Governo aprovou o Programa Alcateia 2025-2035, documento através do qual o país quer conseguir um estado de conservação favorável do lobo-ibérico.
Até 2035, o Programa Alcateia quer reverter a diminuição do número de lobos-ibéricos em Portugal, assegurando que esta espécie Em Perigo de extinção passa a estar em situação de conservação favorável.
Em Portugal, o lobo esteve presente em todo o território continental até ao início do século xx. Desde então, e à semelhança do registado no resto da Europa, verificou-se uma drástica redução da sua área de distribuição e do respetivo efetivo populacional.
Com o desaparecimento progressivo do lobo, de sul para norte e do litoral para o interior, a área de presença ficou circunscrita a áreas do Norte e Centro do País correspondendo atualmente a cerca de 20 % da distribuição original.
Hoje existem quatro núcleos populacionais: Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro, segundo o Censo do Lobo-Ibérico 2019/2021. Foram detetadas 58 alcateias (56 confirmadas, 2 prováveis). Estima-se que a população ronde os 300 animais, o que corresponde ao valor médio da estimativa de 190 a 390 lobos. A população portuguesa representa cerca de 15 % da população ibérica de lobo.