Investigadores estimam que o número de espécies de insetos poderá ser duas a três vezes superior ao que a comunidade científica tem assumido nas últimas décadas. A maioria continua por descobrir, numa altura em que muitos insetos estão já em declínio devido à atividade humana.
A Terra poderá albergar entre 14 e 20 milhões de espécies de insetos, um número muito superior aos cerca de seis milhões atualmente aceites pela maioria dos cientistas. A estimativa é apresentada num estudo publicado a 29 de junho na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que sugere que existem entre oito e 14 milhões de espécies ainda desconhecidas pela Ciência.
Atualmente, foram formalmente descritas cerca de 1,2 milhões de espécies de insetos. Ou seja, mesmo na estimativa mais conservadora do novo trabalho, mais de 90% das espécies existentes continuam sem nome nem descrição científica.
Segundo os autores, esta lacuna tem implicações profundas para a conservação da biodiversidade.
“Não podemos proteger espécies cuja existência desconhecemos”, afirmou, em comunicado, Laura Melissa Guzman, entomóloga da Universidade de Cornell e autora principal do estudo. “Para compreender a biodiversidade do planeta, precisamos primeiro saber quantas espécies existem.”
A nova estimativa resulta de um dos levantamentos mais completos alguma vez realizados sobre insetos tropicais.
Os investigadores trabalharam na Área de Conservação Guanacaste, uma área protegida com cerca de 169 mil hectares, no noroeste da Costa Rica, considerada uma das regiões com maior diversidade biológica do planeta.
Durante vários anos, a equipa recolheu mais de 1,6 milhões de insetos através de armadilhas do tipo Malaise — estruturas semelhantes a tendas que capturam insetos voadores — e utilizou técnicas de sequenciação de ADN para identificar geneticamente cada espécie.
Só este conjunto de amostras revelou quase 54 mil espécies diferentes de insetos.
Os investigadores concentraram-se depois num grupo particularmente diverso: as pequenas vespas parasitoides da subfamília Microgastrinae. Estas vespas depositam os ovos no interior das lagartas e as larvas desenvolvem-se alimentando-se do hospedeiro até emergirem já adultas.
Ao comparar o número de espécies observadas com o número estimado de espécies ainda não detetadas deste grupo, os cientistas calcularam que a própria Área de Conservação Guanacaste poderá albergar cerca de 333 mil espécies de insetos.
O passo seguinte foi transformar esta estimativa local numa estimativa global.
Para isso, a equipa comparou a diversidade de árvores existente na área protegida com o número total estimado de espécies de árvores no planeta, utilizando essa relação para extrapolar a riqueza de insetos à escala mundial. Os resultados foram também comparados com padrões conhecidos para outros animais, como mamíferos e anfíbios.
O intervalo obtido aponta para um total entre 14 e 20 milhões de espécies de insetos em todo o mundo.
Até agora, a estimativa mais utilizada pela comunidade científica rondava os seis milhões de espécies, um valor que se manteve praticamente inalterado durante cerca de 40 anos.
Porque existem tantos insetos?
Os insetos são já reconhecidos como o grupo de animais mais diversificado do planeta. Segundo os investigadores, essa enorme diversidade explica-se por vários fatores.
Muitas espécies sofrem metamorfoses completas ao longo do ciclo de vida, explorando habitats e recursos alimentares diferentes em cada fase. Uma lagarta alimenta-se de folhas, enquanto a borboleta adulta utiliza sobretudo o néctar das flores.
Além disso, o pequeno tamanho dos insetos permite que populações diferentes sobrevivam em áreas muito reduzidas, favorecendo a diferenciação entre espécies.
Este estudo surge numa altura em que vários trabalhos científicos têm documentado o declínio das populações de insetos em diferentes regiões do mundo, devido à destruição de habitats, ao uso de pesticidas, às alterações climáticas e a outras pressões de origem humana.
Para os autores, o novo trabalho reforça a urgência de acelerar a descoberta e descrição de espécies antes que muitas desapareçam.
“Os nossos resultados apontam para um enorme número de insetos ainda sem descrição científica”, afirmou Laura Melissa Guzman. “Perante os relatos de declínio das populações de insetos, é possível que existam muitas espécies a desaparecer sem que alguma vez tenhamos sabido da sua existência.”
Além de ampliar significativamente a estimativa da biodiversidade terrestre, o estudo evidencia também quanto permanece desconhecido sobre um dos grupos de organismos mais importantes para o funcionamento dos ecossistemas. Os insetos desempenham funções essenciais como a polinização, a decomposição da matéria orgânica, o controlo natural de pragas e a alimentação de inúmeras outras espécies.
Se estas estimativas estiverem corretas, a maior parte da diversidade animal da Terra continua por descobrir.