Já há 10 anos que não se viam ninhos de borrelho-de-coleira-interrompida neste ilhéu dos Açores

15.09.2022

Em Agosto, a equipa da SPEA Açores foi surpreendida por borrelhos-de-coleira-interrompida a nidificar no Ilhéu da Vila, em Santa Maria, algo que já não se verificava há uma década.

Foi um “feliz acaso”, disse Tânia Pipa, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) Açores. Dois ninhos de borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) com adultos por perto foram encontrados no ilhéu da Vila quando a equipa da SPEA estava a monitorizar a população nidificante de garajaus – garajau-comum (Sterna hirundo) e garajau-rosado (Sterna dougallii) -, no âmbito do projecto LIFE IP AZORES NATURA.

Ninho de borrelho-de-coleira-interrompida. Foto: Rita Câmara/Parque Natural de Santa Maria

Esta descoberta foi surpreendente porque “a espécie já não era registada no ilhéu desde 2012”, acrescentou Tânia Pipa à Wilder.

A nidificação do borrelho-de-coleira-interrompida é conhecida desde o início do século XX. Em 1997, os investigadores Verónica Neves, José Pereira e Rogério Feio encontraram um ninho e observaram o adulto a fazer o típico comportamento de fingir que tem a asa partida, para afastar os intrusos. Mas desde 2012 que esta espécie já não era vista a nidificar naquele ilhéu.

Segundo Tânia Pipa, “haverá pelo menos dois casais a nidificar presentemente no ilhéu”.

Cobertura dos ninhos. Foto: Rita Câmara/Parque Natural de Santa Maria

O ilhéu da Vila, com cerca de oito hectares, está integrado no Parque Natural da Ilha de Santa Maria e é uma das 13 áreas protegidas da ilha. Enquadra-se na Zona de Proteção Especial do Ilhéu da Vila e Costa Adjacente, na Área Importante para as Aves (IBA terrestre e IBA marinha).

Isto porque ali nidificam importantes colónias de aves marinhas, como o frulho (Puffinus lherminieri, 50 casais); alma-negra (Bulweria bulwerii, 54 casais); painho-da-madeira (Hydrobates castro, 200 casais), cagarro (Calonectris borealis, 329 casais); garajau-comum (Sterna hirundo), garajau-rosado (Sterna dougallii) e pontualmente garajau-de-dorso-preto (Onychoprion fuscatus) e estapagado (Puffinus puffinus).

“É um ilhéu rochoso de basalto, com declives e falésias, localizado a cerca de 270 metros ao sudoeste da ilha, com uma altitude máxima de 60 metros. No seu topo e nas falésias a rocha é coberta por solo com plantas das comunidades costeiras dos Açores. O ilhéu foi usado para criar gado até 1993 e é desabitado”, descreve a responsável da SPEA.

Vista do ilhéu da Vila para Santa Maria. Foto: Rita Câmara/Parque Natural de Santa Maria

No ilhéu da Vila e nas outras zonas dos Açores, estes borrelhos vivem em zonas costeiras planas com vegetação rasteira e, embora sempre com água relativamente próxima, secas e arenosas/pedregosas (em geral pedras pequenas). A espécie é também observada em praias de areia e de calhau rolado, instalações portuárias, pastagens costeiras, terrenos lavrados e, frequentemente, no interior de aeroportos (pistas e terrenos adjacentes).

Qual a importância desta descoberta?

O ilhéu da Vila é uma das áreas de intervenção do projeto LIFE IP AZORES NATURA. Ali estão a ser desenvolvidas ações de conservação de recuperação de habitat para aumentar a disponibilidade de habitat disponível para as aves marinhas. Além disso estão a ser implementadas medidas de biossegurança para prevenir entradas de predadores introduzidos.

Estudo de ninhos de alma-negra no ilhéu. Foto: Rita Câmara/Parque Natural de Santa Maria

Por isso, “a reocupação do ilhéu pelo borrelho vem fomentar a importância desta relevante colónia nos Açores, sendo um indicador do sucesso das ações implementadas até ao momento, uma vez que indicam a saúde ambiental do ilhéu enquanto zona de nidificação para aves costeiras e marinhas”, explicou Tânia Pipa.

“Por outro lado, pode também indicar que os borrelhos se desloquem cada vez mais para sul e zonas inacessíveis para nidificar, o que pode indicar que os locais habituais podem estar sob perturbação. Infelizmente a monitorização destes locais não tem sido contínua, pelo que não podemos fazer uma correcta avaliação.”

O borrelho-de-coleira-interrompida encontra-se em todos os continentes, à excepção da Oceania.

Nos Açores, a espécie é residente com nidificação confirmada nas ilhas de Santa Maria, Terceira e pontualmente na Graciosa. Há também registos durante o período de Outono/Inverno nas restantes ilhas, em particular em São Miguel e no Grupo Central, e pontualmente no Grupo Ocidental.

“Apesar de muito restrita a população de Santa Maria é uma das mais importantes dos Açores” para esta espécie, comentou Tânia Pipa.

Foto: Rita Câmara/Parque Natural de Santa Maria

Tem como ameaças a “perturbação humana, devido à proximidade dos ninhos e convivência com atividades humanas em algumas ilhas, assim como, os predadores introduzidos”. “Em alguns dos principais locais, caso do aeroporto de Santa Maria e áreas adjacentes, os responsáveis estão tão sensibilizados que já sinalizam os ninhos para que não sejam pisoteados.”

Indiretamente as ameaças podem ser a poluição das zonas costeiras nas quais se alimentam e que usam como habitat. 


Saiba mais aqui sobre o borrelho-de-coleira-interrompida.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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