Foto: Mario Rolim

Investigadores alertam: Áreas Marinhas Protegidas precisam de fazer mais para proteger cavalos-marinhos

Estudo liderado por cientistas do MARE-Ispa conclui que o uso de redes e armadilhas de pesca continua a ser permitido em muitas destas áreas em Portugal. Estuários do Tejo e Mondego e parte da costa algarvia precisam de mais medidas.

Num artigo publicado na revista científica Global Ecology and Conservation, a equipa de nove investigadores estima qual é o habitat dos cavalos-marinhos na costa atlântica de Portugal e Espanha e conclui que essas zonas têm hoje um nível insuficiente de proteção – mesmo quando estão incluídas em Áreas Marinhas Protegidas.

Na Península Ibérica, são conhecidos o cavalo-marinho de focinho comprido (Hippocampus guttulatus) e o cavalo-marinho comum (Hippocampus hippocampus). De acordo com o estudo agora publicado, as Áreas Marinhas Protegidas cobrem apenas 20% do habitat dessas duas espécies em Portugal, sendo que na frente atlântica espanhola esse valor desce para 12%. Além do mais, menos de 0,5% dessas áreas são de proteção total, no conjunto dos dois países.

Mas mesmo onde existem Áreas Marinhas Protegidas, avisam os autores do artigo, a proteção é muitas vezes insuficiente. Em muitos casos, continua-se a permitir “o uso de redes e armadilhas de pesca, que capturam os cavalos-marinhos de forma acessória” – ou seja, acidental, pois o alvo dessa pesca são outros peixes.

“A grande maioria das Áreas Marinhas Protegidas não contempla medidas específicas para a proteção dos cavalos-marinhos e de organismos sésseis [que vivem fixos a um local] ou de baixa mobilidade nos seus planos de gestão, isto quando existem planos de gestão”, alerta Gonçalo Silva, coordenador do estudo, numa nota de imprensa divulgada pelo MARE-Ispa. “É absolutamente fundamental criar medidas de proteção para estas espécies e dotar as Áreas Marinhas Protegidas de recursos humanos, financeiros e técnicos para que se possam gerir as atividades e a biodiversidade de uma forma sustentável.”

Cavalo-marinho-comum (Hippocampus hippocampus). Foto: Mário Rolim

Entre as poucas áreas protegidas que atualmente aplicam os planos de gestão, e onde estão “restringidas ou proibidas a pesca de arrasto e dragagens”, estão a Arrábida, as ilhas Berlengas, o estuário do Sado, o Sudoeste Alentejano e a Ria Formosa, detalha o estudo agora publicado.

Em contrapartida, os estuários do Tejo e do Mondego e a costa algarvia situada entre as áreas protegidas do Sudoeste Alentejano e da Ria Formosa necessitam de mais proteção para os cavalos-marinhos, aconselha o mesmo documento.

A importância da ciência cidadã

Ainda assim, como sublinham os investigadores, tanto em Portugal como noutros países ainda pouco se sabe sobre os locais onde estão atualmente presentes os cavalos-marinhos, embora estes sejam considerados espécies-bandeira, importantes para a conservação de outras espécies.

Na costa portuguesa, é sobre a Ria Formosa que existe mais informação – e mesmo aqui, calcula-se que a abundância destes peixes diminuiu cerca de 90% devido à pressão de atividades humanas. Recentemente, o projeto Cavalmar confirmou também a presença destes peixes na costa da Trafaria, no estuário do Tejo.

Cavalo-marinho-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus). Foto: Mário Rolim

“No resto do país não há estudos que permitam inferir sobre as tendências populacionais, mas este estudo vem confirmar que os estuários do Tejo e do Sado, a par da Ria Formosa, são os locais mais importantes para os cavalos-marinhos em Portugal. Neste estudo, através de registos anteriores, foi possível estimar o habitat favorável para os cavalos-marinhos”, explica a primeira autora do artigo, Friederike Peiffer. 

“O papel do conhecimento ecológico local e da ciência cidadã, através da partilha do conhecimento de atores-chave como os pescadores e centros de mergulho, ou de observações de cidadãos comuns que partilham o registo (data, fotografia e local) em plataformas online como a inaturalist.org, a biodiversity4all.org ou a iseahorse, permitem que estas observações possam ser utilizadas por cientistas para compreender melhor a distribuição das espécies”, indica também esta investigadora, que está a realizar um doutoramento sobre o estado de espécies marinhas vulneráveis e o impacto das alterações climáticas na sua distribuição.

Mais trabalho de pesquisa precisa-se

De acordo com o estudo agora publicado, na costa portuguesa é necessária mais pesquisa sobre as populações de cavalos-marinhos nas áreas de Cascais/Sintra e do Sudoeste Alentejano. Quanto às áreas nas zonas do Porto, Berlengas, Ria de Aveiro e Lagoa de Óbidos, é recomendada “mais investigação sobre a presença potencial” das duas espécies, pois são zonas onde “os cavalos-marinhos foram avistados no passado ou são por vezes capturados acidentalmente ou dão à costa.”

Neste trabalho, além de investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, colaboraram também cientistas do IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera, do CCMAR – Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve e do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, mas também do Project Seahorse da Universidade de British Columbia no Canadá e do Grupo de Especialistas em Cavalos-marinhos, marinhas e dragões marinhos da Comissão para a sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).


Saiba mais.

Recorde estas sete perguntas e respostas sobre os cavalos-marinhos em Portugal (e no mundo).

Inês Sequeira

Foi com a vontade de decifrar o que me rodeia e de “traduzir” o mundo que me formei como jornalista e que estou, desde 2022, a fazer um mestrado em Comunicação de Ciência pela Universidade Nova. Comecei a trabalhar em 1998 na secção de Economia do jornal Público, onde estive 14 anos. Fui também colaboradora do Jornal de Negócios e da Lusa. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, ajudei em 2015 a fundar a Wilder, onde finalmente me sinto como “peixe na água”. Aqui escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, descobertas científicas, projectos de conservação, políticas ambientais e pessoas apaixonadas por natureza. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.