Uma equipa de investigadores documentou, pela primeira vez, um comportamento inédito no lince-ibérico: a imersão deliberada de presas em água. Esta descoberta foi registada através de câmaras de armadilhagem fotográfica nos Montes de Toledo entre 2020 e 2025, revela um novo estudo científico.
O lince-ibérico (Lynx pardinus) é um símbolo mundial da conservação da natureza. Depois de ter estado à beira da extinção, os intensos esforços de reprodução em cativeiro e de reintrodução permitiram a recuperação da sua população que hoje se estima em cerca de 2400 exemplares em estado selvagem.
Uma das novas populações mais prósperas encontra-se na região dos Montes de Toledo, no centro de Espanha. Foi precisamente ali, na herdade “El Castañar”, que uma equipa de investigadores descobriu um comportamento que desafia as suposições convencionais sobre a forma como os felinos lidam com as suas capturas.
Tradicionalmente, a Ciência tem assumido que os carnívoros terrestres consomem as suas presas rapidamente após a caça, manipulam-nas para as rasgar ou escondem-nas para as proteger. Nunca tinha sido descrito que um felino selvagem alterasse deliberadamente a textura do seu alimento usando água.
No entanto, o estudo liderado por cientistas do Grupo de Investigação em Ecologia e Gestão da Fauna Selvagem do IREC, Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos (do CSIC) documentou, pela primeira vez, como várias fêmeas de lince transportam os seus coelhos até pontos de água para os submergir de forma intencional. As suas descobertas foram publicadas num artigo a 23 de março na revista científica Ecology – Ecological Society of America.
Esta descoberta foi possível graças a um acompanhamento dos animais com câmaras de armadilhagem fotográfica realizado entre 2014 e 2025.
O primeiro episódio surpreendente foi registado a 9 de agosto de 2020, quando a fêmea Naia foi captada a levar um coelho acabado de caçar até um bebedouro. Desde então, os cientistas contabilizaram oito episódios semelhantes protagonizados por cinco fêmeas diferentes em cinco tanques de água distintos.
Nas gravações mais nítidas, observa-se as linces a submergir o coelho na água durante pelo menos 60 segundos sem o largar, retirando-se depois com a presa visivelmente encharcada.
O mais intrigante, dizem os investigadores, é que este fenómeno é estritamente local: não foi observado em nenhuma outra população de linces da Península nem nos centros de reprodução em cativeiro, onde os animais são vigiados constantemente.
Além disso, os investigadores verificaram que este comportamento não parece ser provocado diretamente por picos de calor extremo, o que sugere que existe uma razão mais profunda por detrás deste hábito.
Para compreender a função deste comportamento, os investigadores realizaram experiências controladas com cadáveres de coelho para observar os efeitos da imersão. Os resultados mostraram que esta não só acelera o arrefecimento pós-morte da presa, como o pelo do animal atua como uma esponja eficaz. À sombra, um coelho encharcado pode reter uma quantidade de água equivalente a 5% do seu peso corporal, mantendo uma parte importante dessa humidade mesmo 40 minutos depois de ter sido submerso.
“Embora os resultados sejam exploratórios, esta evidência permite avançar uma hipótese fascinante: as fêmeas de lince poderão estar a utilizar as suas presas para transportar água para as suas crias”, escrevem os autores do estudo, em comunicado.
“Dado que todos os casos ocorreram entre junho e agosto, em plena época de seca e calor, este comportamento poderá facilitar a hidratação das crias durante o desmame, o momento crítico em que passam do leite materno para o alimento sólido. Ao molhar o coelho, a mãe fornece às suas crias não só carne, mas também um recurso hídrico vital num ambiente árido.”
Os investigadores salientam que este estudo oferece também uma nova perspetiva sobre a vida social destes animais. “Embora o lince seja habitualmente classificado como um carnívoro solitário, os dados demonstram que possui um grau de sociabilidade que permite a transmissão de conhecimentos. O comportamento de molhar a presa parece seguir um padrão de parentesco e vizinhança: as fêmeas que o praticam costumam ser parentes ou partilhar fronteiras territoriais.”
Defendem ser “provável que uma fêmea pioneira tenha descoberto os benefícios de molhar a presa e que outras, especialmente as suas filhas, tenham aprendido a técnica por observação. Este tipo de plasticidade comportamental é raro de documentar em felinos selvagens e destaca a sua sofisticação cognitiva”.
“A capacidade dos linces para inovar e transmitir novos comportamentos é um sinal de resiliência, particularmente valioso no atual contexto de alterações climáticas e aquecimento global, em que a adaptação rápida a ambientes em mudança é essencial para a sobrevivência.”
José Jiménez, investigador do IREC e autor principal do estudo, defende, em comunicado, que “este comportamento é extremamente raro em carnívoros terrestres selvagens e nunca tinha sido documentado em felídeos”. “O mais surpreendente é que, segundo as nossas observações, parece transmitir-se entre indivíduos aparentados ou de territórios contíguos, o que sugere uma possível transmissão social ou até cultural.”
Os resultados deste trabalho de investigação ajudam-nos “a admirar ainda mais o engenho de uma espécie que, depois de ter estado à beira do abismo, continua a encontrar formas surpreendentes de prosperar nos campos mediterrânicos”, escrevem os autores.
“Mesmo em espécies tão emblemáticas e estudadas como o lince-ibérico, continuamos a encontrar na natureza comportamentos inesperados que desafiam as nossas ideias sobre a evolução e a adaptação”, comentou ainda Jiménez.