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Em Perigo: População de pardilheira quase quadruplicou graças a projeto de conservação

24.03.2026
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Pardilheira. Foto: Francis C. Franklin/WikiCommons

A recuperação de mais de 3.600 hectares de zonas húmidas contribuiu para a recuperação e melhoria da pardilheira em Espanha, anunciou recentemente a Fundación Biodiversidad. A pardilheira (Marmaronetta angustirostris) é a espécie de pato mais ameaçada da Europa. Em Portugal está Regionalmente Extinta.

A população desta espécie, Em Perigo, quase quadruplicou até atingir as 172 fêmeas reprodutoras com 1427 crias na natureza, desde o início do LIFE Cerceta Pardilla em 2021. O projeto terminou agora e os responsáveis anunciaram os resultados.

Pardilheira. Foto: Smailtn/WikiCommons

Em comunicado, a Fundación Biodiversidad, entidade coordenadora do projeto, refere ainda a libertação na natureza de mais de 3.700 exemplares criados em cativeiro e a assinatura de 15 acordos de custódia do território.

Nos últimos cinco anos, o projeto desenvolveu 22 ações de investigação, conservação, governança e sensibilização na Andaluzia, Comunidade Valenciana e Região de Múrcia.

Foram ainda identificadas novas zonas de reprodução desta espécie: nove na Andaluzia e quatro na Comunidade Valenciana. Na Região de Múrcia, a espécie voltou a reproduzir-se, pela primeira vez em 15 anos, em duas das suas zonas húmidas.

Os resultados deste projeto, coordenado pela Fundación Biodiversidad do Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico (MITECO), foram apresentados a 17 de março passado no Centro de Congressos Ciutat d’Elx (Alicante).

No evento, a diretora-geral de Biodiversidade, Florestas e Desertificação do MITECO, María Jesús Rodríguez de Sancho, sublinhou que “o esforço coletivo permitiu alcançar excelentes resultados na recuperação desta espécie tão ameaçada”.

Recuperação de zonas húmidas é crucial

No âmbito do projeto foram adquiridas duas propriedades, El Espigar e La Raja, no Parque Natural de El Hondo (Elche). Em ambas as propriedades, que somam uma área de 141 hectares, foi melhorada a gestão hídrica, naturalizadas antigas infraestruturas de rega e criados novos habitats de nidificação para a espécie.

Pardilheira. Foto: Francis C. Franklin/WikiCommons

Os responsáveis pelo projeto defendem que também foi fundamental a recuperação de 24 hectares na Paisagem Natural do Brazo del Este (Sevilha) e o restauro de duas zonas deste antigo leito do Guadalquivir, que geraram um total de 50 hectares de zonas de refúgio para a espécie em anos de condições hídricas desfavoráveis no Parque Nacional de Doñana.

Na Região de Múrcia, a intervenção na Laguna y Rambla de las Moreras permitiu a revegetação, o controlo do caniçal e o fornecimento de água para garantir condições adequadas durante a época de reprodução.

O projeto impulsionou, além disso, inovações na gestão do habitat, como um sistema de cercas virtuais no Brazo del Este. Através de dispositivos GPS colocados em bovinos foi possível controlar o seu acesso a zonas específicas para gerir o caniçal, abrir áreas inundadas e melhorar o habitat disponível para a pardilheira.

Melhoria do conhecimento e reforço populacional

O projeto permitiu aumentar o conhecimento científico sobre a espécie, com um estudo genético realizado pela Estação Biológica de Doñana (CSIC). Este serviu para orientar o Programa de conservação ex situ destinado ao reforço populacional através da reprodução em cativeiro.

Pardilheiras. Foto: Vince Smith/WikiCommons

Seguindo as linhas deste programa, foram libertados 3.769 exemplares em Espanha e em enclaves estratégicos de Itália e Portugal. Este resultado representa um número três vezes superior o objetivo inicial previsto.

A reprodução em cativeiro foi realizada nos centros de referência La Granja de El Saler e Santa Faz, geridos pela Generalitat Valenciana; na Reserva Natural Concertada Cañada de los Pájaros, situada em Sevilha; e no Centro de Conservação da Biodiversidade Zoobotânico Jerez-Alberto Durán, em Jerez de la Frontera.

As libertações foram apoiadas pela construção de grandes jaulas de aclimatação e pela instalação de caixas-ninho em zonas húmidas-chave, para favorecer a sobrevivência e a fixação reprodutora.

Além disso, foi realizado um programa de marcação de indivíduos com recurso a emissores GPS/GSM, cujos dados obtidos foram analisados pela Universidade Miguel Hernández de Elche.

O acompanhamento de 164 exemplares marcados durante o projeto revelou padrões de deslocação entre Espanha e o Norte de África, diferenças na sobrevivência entre indivíduos selvagens e nascidos em cativeiro, assim como a identificação de mais de 60 zonas húmidas utilizadas pela espécie.

Em paralelo, foram realizados cinco censos anuais em Espanha e campanhas de monitorização em Marrocos, Tunísia e Argélia para compreender a dinâmica da população ibero-magrebina.

Redução das ameaças

O projeto pôs no terreno medidas destinadas a evitar a caça acidental, combater o furtivismo e reforçar a vigilância nos períodos mais sensíveis. Entre elas, destaca-se a criação de um grupo técnico de combate à caça furtiva no Baixo Guadalquivir, integrada por administrações públicas, Ministério Público do Ambiente, forças policiais e a Federação Andaluza de Caça.

Pardilheiras. Foto: Ferran Pestaña/WikiCommons

Foram também formalizados acordos com entidades cinegéticas que adotaram medidas voluntárias para reduzir o risco de confusão da espécie em zonas de caça. Quanto a outras ameaças, foram elaborados protocolos para o controlo e prevenção de surtos de botulismo e de cianobactérias, evitando assim mortalidades massivas.

O projeto LIFE Cerceta Pardilla foi coordenado pela Fundación Biodiversidad do MITECO. Participaram como parceiros o próprio ministério, a Junta da Andaluzia, a Generalitat Valenciana, a Região de Múrcia e as organizações Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife) e a Asociación de Naturalistas del Sureste (ANSE).

O projeto – com um orçamento de 6,37 milhões de euros, cofinanciado pelo Programa LIFE da União Europeia e pela Direção-Geral da Água do MITECO – desenvolveu ações coordenadas de investigação, conservação, governança e sensibilização em sete das 13 áreas críticas para a espécie, onde se encontra a maior parte da sua população em Espanha.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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