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Declarada extinta a endémica borboleta-branca-da-Madeira

16.10.2025
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Borboleta-azul-das-turfeiras (Phengaris alcon). Foto: Rob Zweers/WikiCommons

Hoje são 65 as espécies de borboletas ameaçadas de extinção na Europa, um número que registou um aumento de 73% durante a última década. A nova Lista Vermelha das Borboletas da Europa declara ainda, oficialmente, a extinção da endémica borboleta-branca-da-Madeira (Pieris wollastoni).

Em apenas 10 anos, o número de espécies de borboletas ameaçadas de extinção na Europa aumentou 73%, passando de 37 para 65 espécies, alerta a nova Lista Vermelha das Borboletas da Europa, atualizada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e divulgada a 11 de outubro no Congresso Mundial da Conservação em Abu Dhabi.

Para este relatório foram avaliadas um total de 442 espécies. Destas, seis estão Criticamente Em Perigo, 35 estão Em Perigo e 24 estão com estatuto Vulnerável.

Das 442 espécies, uma foi declarada oficialmente Extinta, a borboleta-branca-da-Madeira (Pieris wollastoni). Esta era uma espécie restrita à ilha da Madeira e da qual não há registos desde 1986, apesar dos inúmeros esforços e buscas pelos especialistas em borboletas ao seu habitat antigo.

“Durante dois anos, especialistas da Butterfly Conservation Europe realizaram buscas em toda a ilha da Madeira, à procura da borboleta-branca-da-Madeira. Bateram a ilha inteira mas não encontraram uma única borboleta”, contou à Wilder Eva Monteiro, presidente do Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e coordenadora dos Censos de Borboletas de Portugal.

Segundo esta Lista Vermelha, a borboleta-branca-da-Madeira “é a única espécie europeia de borboleta a tornar-se globalmente extinta”. “Até onde podemos ter certezas, não há fotografias desta borboleta e o Museu Municipal do Funchal, na Madeira, guarda apenas nove espécimes (cinco fêmeas e quatro machos), apesar de alguns poucos mais estarem em outros museus.”

Atualmente, um quarto das borboletas europeias (125 espécies) estão ameaçadas ou quase ameaçadas. A situação é ainda pior para as espécies endémicas. Para estas, que apenas ocorrem na Europa, 40% estão ameaçadas ou quase ameaçadas.

Em Portugal são 17 as espécies de borboletas classificadas como ameaçadas ou quase ameaçadas a nível europeu, segundo o Tagis. Uma delas é a borboleta cleópatra-da-Madeira (Gonepteryx maderensis), classificada como Em Perigo de extinção. Outra é a borboleta-azul-das-turfeiras (Phengaris alcon), classificada em Portugal como Em Perigo mas apenas Quase Ameaçada a nível europeu.

Porquê?

As principais causas de ameaça são a perda e a degradação de habitats, provocadas pela intensificação agrícola, abandono, drenagem de zonas húmidas e sobre-pastoreio, intensificadas pelo efeito das alterações climáticas.

Muitas espécies estão a sofrer já as consequências da fragmentação do habitat, o que aumenta muito as probabilidades de se extinguirem a nível local.

“Mas a nova maior ameaça que tem afetado as borboletas europeias nos últimos 10 anos são as alterações climáticas. A Lista Vermelha descobriu que 52% (34 espécies) de todas as espécies ameaçadas na Europa estão ameaçadas pelas alterações climáticas. Esta percentagem deverá aumentar nos próximos anos”, salientou a organização Butterfly Conservation Europe.

As consequências não têm sido iguais para todas as borboletas. Se o aquecimento global tem permitido a algumas espécies aumentar a sua área de distribuição mais para Norte, para outras tem tido um “efeito devastador”, em especial para as borboletas que vivem nas zonas montanhosas.

Em Portugal, há espécies de altitude, normalmente dependentes de turfeiras, que estão a sofrer com as alterações climáticas, lembrou Eva Monteiro. “Também temos este problema com as borboletas das zonas de altitude. Mas nenhuma das espécies de montanha referidas neste relatório ocorre em Portugal.”

“As espécies que só vivem no cimo das montanhas são especialmente afetadas porque precisam de subir mais à medida que os seus habitats ficam mais quentes. Mas ao fazê-lo ficam sem espaço para se reproduzir.”

A Butterfly Conservation Europe refere alguns exemplos de borboletas endémicas europeias gravemente ameaçadas pelas alterações climáticas, como a Pseudochazara williamsi, espécie Criticamente Em Perigo que vive nas zonas montanhosas no Sul de Espanha, a Polyommatus violetae, na Andaluzia, ou a Polyommatus golgus da Serra Nevada.

Nas zonas alpinas e boreais da Escandinávia, oito espécies de borboletas estão agora classificadas como Em Perigo por causa das condições climáticas mais quentes e secas. Muitas aparecem na Lista Vermelha pela primeira vez, como a Agriades aquilo, a Boloria freija, a Oeneis bore e a Erebia disa.

Na região do Mediterrâneo, há cada vez mais borboletas ameaçadas pelas secas extremas e pelos incêndios. Isto está a ameaçar várias espécies endémicas que estão confinadas a ilhas, como a Gonepteryx cleobule (Tenerife, La Gomera, La Palma) e a Hipparchia tilosi (La Palma).

Portugal sente em especial o problema da vulnerabilidade das borboletas das ilhas com pelo menos quatro espécies endémicas dos Açores e da Madeira em risco, como a borboleta Hipparchia miguelensis, endémica da ilha de São Miguel (Açores).

Mas outras ameaças estão a surgir com maior frequência, como a deposição de nitrogénio e novos pesticidas, como os neonicotinóides, que persistem no ambiente.

O que se pode fazer pelas borboletas

“As borboletas europeias nunca estiveram tão ameaçadas”, comentou, em comunicado, Martin Warren, um dos principais autores do relatório.

“Precisamos agora de acções urgentes para salvar um grande número de espécies da extinção. Muitas delas estão ameaçadas pelas alterações no habitat por causa das alterações climáticas, algo que será difícil parar, mas se garantirmos que o seu habitat é gerido o melhor possível, então podem ter uma hipótese.”

Outras podem ser salvas da extinção “através da prevenção dos incêndios florestais que podem obliterar habitats durante anos”.

Os especialistas alertam para a urgência de proteger e restaurar habitats, melhorar a gestão agrícola e florestal e apoiar a monitorização e conservação destas espécies.

Reforçam ainda a importância do trabalho de cientistas e voluntários contadores de borboletas, em projetos como os Censos de Borboletas, que nos permitem perceber a gravidade desta crise, e o que podemos fazer para a reverter.

“Eu e outros na Butterfly Conservation Europe estaremos a trabalhar para tomar todas as medidas necessárias para salvar o maior número de espécies possível”, comentou Sam Ellis, outro dos autores principais deste relatório.

Neste momento, a organização está a realizar censos dirigidos para saber onde ocorrem algumas das espécies mais ameaçadas para permitir a definição de medidas de conservação.

“Precisamos, desesperadamente, de mais recursos para fazer os censos, para fazer investigação sobre como mitigar as alterações e implementar medidas de conservação que melhorem os habitats dos quais estas borboletas dependem.”

A boa notícia é que hoje já há dados de qualidade, graças aos muitos registos de borboletas feitos por entusiastas das borboletas por toda a Europa, no âmbito do Plano Europeu de Monitorização de Borboletas Diurnas que reúne e analisa dados de monitorização na maioria dos países europeus.

Em 2019, Portugal começou a participar com censos de borboletas para este Plano Europeu.

Eva Monteiro defendeu a continuação deste esforço de monitorização das borboletas de Portugal, para conseguir detectar tendências populacionais, e o recurso ao restauro da natureza, em especial em zonas agrícolas.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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