Coral vermelho no Mediterrâneo. Foto: Rami Aubourg/WikiCommons

Centro português anuncia dois projectos para recuperar jardins de corais no Mar Mediterrâneo

Em pleno cenário das ondas de calor que têm afetado o Mediterrâneo quase todos os anos desde 2015, com grandes prejuízos para a biodiversidade, o investigador do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) Jean-Baptiste Ledoux acaba de conseguir financiamento para dois projetos de conservação e restauro de corais mediterrânicos.

Os projetos, liderados pelo investigador do CIIMAR Jean-Baptiste Ledoux, estão focados na conservação de corais mediterrânicos formadores de habitat. Os projetos BUFFER e RED-COR2 são financiados pela Pure Ocean Foundation e pela Biodiversity Genomics Europe e têm como principal recurso de trabalho a genética populacional.

Actualmente, as espécies de corais formadores de habitat estão em declínio demográfico alarmante.

Desde as últimas duas décadas que o Mar Mediterrâneo é recorrentemente fustigado por ondas de calor marinhas que deram origem a eventos de mortalidade em massa em mais de 50 espécies de algas, esponjas, corais e bivalves, por exemplo.

Devido a estes eventos climáticos extremos, muitas espécies – incluindo as espécies de octocorais formadores de habitats como a gorgónia Paramuricea clavata e o coral vermelho Corallium rubrum – chegaram praticamente à extinção em algumas zonas do Mediterrâneo com menor profundidade. “Uma vez que estes corais suportam estruturas complexas que envolvem uma grande diversidade de organismos, a mortalidade em massa destes corais vem acompanhada de consequências dramáticas para o funcionamento e o aspeto de todo o ecossistema”, escreve o CIIMAR em comunicado.

Além do impacto das ondas de calor, espécies icónicas como o coral vermelho têm também um grande valor cultural e económico, sendo alvo de sobre-exploração para a produção de joalharia desde a antiguidade, e representam valores que, atualmente, já ultrapassam os 1000 € por kg de coral.

Segundo Jean-Baptiste Ledoux, investigador da equipa de Genómica Evolutiva e Bioinformática do CIIMAR, “o nosso objetivo é enfrentar o desafio social decorrente da crise associada à perda de biodiversidade, centrando-nos na conservação da diversidade genética, em conformidade com as recomendações da Convenção para a Diversidade Biológica.” É neste ponto que os projetos agora financiados se destacarão das metodologias já conhecidas para a conservação. “Aplicaremos os mais recentes métodos em sequenciação e bioinformática para caraterizar todo o espetro da diversidade e estrutura genética a diferentes escalas espaciais nas duas espécies de octocorais P. clavataC. rubrum altamente afetadas por várias pressões antropogénicas, incluindo os recentes eventos climáticos extremos”, acrescentou o investigador.

Os projetos BUFFER e RED-COR2 vão adotar perspetivas baseadas na diversidade genética para impulsionar o restauro e a conservação destas espécies formadoras de habitat, cujo impacto será espelhado em todas as espécies associadas.

Dois projetos com impacto amplificado

O projeto BUFFER (nature-Based solUtions to protect a temperate coral impacted by extreme climatic events: eFFective consERvation and restoration of Paramuricea clavata in the Parc National des Calanques) vai desenvolver duas soluções baseadas na natureza para proteger a espécie de octocoral mediterrânico formador de habitat Paramuricea clavata, altamente ameaçado pelas alterações climáticas.

O projeto focar-se-á nas populações localizadas no Parc National des Calanques (PNC, France) hoje altamente afetadas por eventos de mortalidade em massa devido a ondas de calor marinhas que se têm vindo a sentir nos últimos anos, das quais se destaca a grande onda de calor em 2022. O projeto prevê ainda caracterizar o padrão espacial de diversidade genética da espécie P. clavate para orientar a gestão do Parc National des Calanques e os seus protocolos de restauro, assim como estudar outros fatores genéticos que possibilitarão identificar indivíduos mais resistentes ao stress térmico e, portanto, mais resilientes às alterações climáticas de origem antropogénica.

O projeto RED-COR2 (Conservation genomics of the Mediterranean red coral, Corallium rubrum: a habitat-forming octocoral threatened by overharvesting and anthropogenic climate change) será implementado em duas partes: i) uma ao nível global do mar Mediterraneo; ii) outra em duas áreas protegidas, o Parc Natural del Montgrí, Illes Medes i Baix Ter e o Parc Natural del Cap de Creus na Catalunha, com dois grandes objetivos: estabelecer o estádio evolutivo desta espécie de forma a contribuir para a avaliação do stock de recursos pesqueiros; e desenvolver um estudo de genética populacional para Aéreas Protegidas Marinhas (MPA) para investigar quais os fatores envolvidos na resposta ao stress térmico. Este projeto fundado pelo Biodiversity Genomics Europe recebeu o suporte da Comissão Geral das Pescas do Mediterrâneo (GFCM) da FAO que está a avaliar os recursos de coral vermelho.

Segundo o CIIMAR, “cada um destes projetos trará efeitos muito positivos para a conservação dos ecossistemas marinhos do Mediterrâneo que permitirão recuperar os habitats perdidos e conservar os existentes”.

Além do CIIMAR como entidade coordenadora, os projetos contam também com investigadores da Universidade de Barcelona, do Instituto de Ciencias del Mar (ICM-CSIC), da Aix-Marseille Université, e do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR). Além disso, as colaborações vão estender-se a outro tipo de entidades. “Não só vamos agir em colaboração com diferentes áreas marinhas protegidas em França e na Catalunha como também vamos trabalhar com diferentes tipos de stakeholders como gestores de biodiversidade e organizações não governamentais (ONG)” explicou o investigador.

Jean-Baptiste Ledoux sente-se realmente entusiasmado pelas possibilidades abertas e o significado que trazem para o futuro da investigação em genómica para a conservação: “Estou a trabalhar em genética populacional e conservação de Paramuricea clavata Corallium rubrum desde o meu doutoramento, há 15 anos. Receber estes dois financiamentos para avançar com estas duas espécies, utilizando abordagens genómicas que desenvolvi nos últimos cinco anos e, ainda por cima, com colaboradores de longa data, foi uma excelente notícia. Espero realmente que possamos utilizar estes dois casos de estudo para mostrar o potencial da genómica para melhorar a conservação da biodiversidade.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.